
Eu fui fazer um safari na África Central, mas o que ficou dessa experiência não foi nenhuma memória dela, seja de tigre correndo ou de leão bocejando. Como sempre, o melhor se deu nas entrelinhas, quando arrumei uma brecha e fui dar um rolê aleatório no deserto. Por mais que tentasse não me afastar muito do grupo que topou a corajosa empreitada, não resisti à tentação de correr por aquela imensidão arenosa, entre algumas pedras e muitos cactos. Lá pelas tantas, já meio perdido, aproximei-me de um pequeno rio. Como estivesse com muita sede, enchi a concha da mão com aquela água cristalina, cujo frescor confirmou que não era miragem, mas um verdadeiro oásis.
Sede saciada, logo me dei conta de que não estava sozinho. Do outro lado do pequeno rio, havia um avião parado. Um homem de meia-idade tentava consertá-lo. Fui até ele, que me recebeu com um certo mau humor:
– Você de novo?
– Eu quem?
– O Pequeno Príncipe.
– Olhe bem para mim e veja se me pareço com um príncipe. Posso até ter sido um dia, mas o tempo já me cobrou a sua pesada moeda.
Ele colocou os óculos de ver de perto, aproximou-se ainda mais de mim e resmungou:
– Puxa, você está mesmo envelhecido.
Fez uma pausa e acrescentou:
– Quase acabado, eu diria.
Eu ri daquele comentário sincero, e a minha risada distensionou o ambiente. Deixando no chão a chave de fenda, ele comentou:
– Acho que nunca vou consertar essa merda. Nem você vai rejuvenescer.
– Há controvérsias. Alguém escreveu que vais sair dessa. E eu posso fazer harmonização facial.
– Sério? Quem falou essas asneiras? Devia ser um mentiroso.
– Todos os escritores são mentirosos.
– Nisso você tem razão. Tenho lido muito nas horas vagas. O Roth, por exemplo, é um mitomaníaco. Machado de Assis, um lunático. Javier Cercas? Sem comentários.
Ainda que voltasse a mexer na carcaça da aeronave, ele não deixava de falar:
– Duvido que, a essa altura, você me pedisse para fazer um desenho.
– Eu até poderia, mas preciso reencontrar o meu grupo e acho que não daria tempo. Para desenhar, precisa perder tempo.
– E precisa de memória: eu, por exemplo, jamais me lembraria de como se faz um carneiro.
– E uma gibóia?
– Menos ainda.
Agora, sim, deixou de lado todas as ferramentas e, me olhando bem nos olhos, perguntou:
– Como andam os seus planetas, meu velho príncipe quase acabado?
– Na mesma – eu diria. O maluco continua contando estrelas, o geógrafo escrevendo livros sem saber de nada, o beberrão bebendo pra caramba, e assim por diante.
– E a Terra?
– Ah, a Terra… A Terra é isso que você está vendo.
– Eu já desconfiava. Sinto mais calor a cada dia e muito frio todas as noites. E você dizendo que um escritor me salvaria…
Só então percebi que estávamos sendo observados por uma serpente que ria muito da nossa cara. Eu ri de volta, pois, desde que era um pequeno príncipe, a rainha-mãe me ensinou a não levar desaforo para casa. Não era por estar velho, meio perdido e quase acabado que aceitaria aquela desfeita.
Falando em casa, eu precisava voltar para ela, e isso começava por reencontrar o meu grupo, mas onde?
Foi então que apareceu uma raposa e me deu a pata, dizendo que eu a havia cativado e agora ela queria retribuir.
– Como é que eu te cativei? – perguntei, genuinamente curioso, para ela.
Ao seu silêncio, mantive o meu assombro:
– Você ainda está jovem, cheia de energia, e eu não sou mais nenhum pequeno príncipe. Segundo aquele sujeito ali, que nos olha enquanto conserta o seu avião, eu estou quase acabado.
A raposa suspirou e, sem largar a pata da minha mão, vociferou:
– Você continua sabendo imaginar, e isso é sempre um recomeço.
Ao ver aquela cena e ouvir esse diálogo, o aviador recuperou um riso bom e repleto de esperança.
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