
Entre tantas cenas lamentáveis de apoiadores do candidato derrotado à presidência da República, presenciadas ao longo da semana, as de patroas conclamando as pessoas nas redes sociais a demitirem suas empregadas domésticas que votaram no PT foram emblemáticas do país do qual os eleitores de Lula querem deixar para trás. As cenas de trabalhadoras contando sobre como foram dispensadas e as ofensas que ouviram só não atingem quem sonha com a volta da escravidão.
Impossível não lembrar que Bolsonaro pai se orgulha de ter sido o único deputado a votar contra a PEC das Domésticas, em 2013, lei que garantiu (tardiamente) que as empregadas domésticas passassem a ter uma jornada de oito horas por dia e, como qualquer outro trabalhador, direito a horas extras, salário-maternidade, auxílio-doença, aposentadoria por invalidez, idade e tempo de contribuição, auxílio-acidente de trabalho, pensão por morte, entre vários outros benefícios. O filho fujão segue a tradição familiar, ao ser também o único deputado estadual a votar, em 2009, contra a ampliação da licença-maternidade de quatro para seis meses para servidoras estaduais do Rio de Janeiro. A lista de indignidades da família é extensa, já sabemos.
Em cartaz no IMS Paulista até 22 de novembro, a mostra Dignidade e Luta: Laudelina de Campos Mello é um ótimo retrato da batalha das trabalhadoras domésticas – e das mulheres negras – para garantir seus direitos no Brasil.
Filha de pais alforriados pela Lei do Ventre Livre, Laudelina começou a trabalhar aos sete anos e abandonou a escola para cuidar dos irmãos. Aos 16, presidia o Clube 13 de Maio, agremiação política e cultural da comunidade negra de Poços de Caldas, em Minas Gerais. Em 1936, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro e fundou a primeira Associação de Trabalhadores Domésticos do país, fechada pelo Estado Novo e reativada em 1946. Integrou a Frente Negra Brasileira, maior organização negra do século XX, e, de 1942 a 1945, atuou na Organização Feminina Auxiliar de Guerra, apoiando os brasileiros que lutavam na Segunda Guerra Mundial.
Em 1961, criou em Campinas (São Paulo) a Associação Profissional Beneficente das Empregadas Domésticas, transformada em sindicato em 1988. Sua militância foi decisiva para a conquista da carteira de trabalho e da previdência social para a categoria. Faleceu em 1991. Em 2005, recebeu o grau póstumo de Cavaleira da Ordem do Mérito do Trabalho e, em 2023, o presidente Lula inseriu seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Uma das partes mais tocantes da mostra é sobre o Baile da Menina Moça, promovido por Laudelina, em Campinas, em 1957, uma festa para as meninas negras que nunca tinham tido a oportunidade de debutar como as brancas. A instalação traz uma beleza triste: apesar das roupas luxuosas expostas, as fotos mostram meninas negras desconfortáveis em um lugar que não parecia ser delas. Um gosto de apartheid não totalmente desaparecido até hoje no país.
Notícias de jornais exibidas mostram como a luta dessas trabalhadoras era vista pela sociedade. Em uma delas, uma leitora do Rio de Janeiro, que se intitula Madame Alexandra, comenta matéria sobre o congresso das empregadas domésticas, dizendo que elas não podem se queixar do tratamento recebido, pois “têm quarto com roupa de cama, leite, manteiga, sobremesa e telefone”. A frase poderia tranquilamente sair da boca de uma das patroas inconformadas com o resultado das eleições.
Lembremos que, ainda hoje, apenas entre 24% e 34% das domésticas possuem carteira assinada. A luta dessas pessoas conservadoras, possivelmente, é para que os cerca de 5,6 milhões de trabalhadores domésticos, dos quais 92% são mulheres e, destas, 68% negras, sejam conservados na informalidade e sem direito, sequer, de escolher em quem votar.