
Em uma das últimas sessões de terapia somática, minha psicóloga me disse que tenho síndrome de Deus. Ela quis dizer que eu tenho a necessidade crônica de controlar (ou, pelo menos, tentar) tudo ao meu redor e acreditar que consigo mudar o rumo da minha própria existência, e quem sabe dos outros, com as minhas decisões e atitudes. Acredito que isso seja uma forma de narcisismo, já que implica em elevadíssimo sentimento de autoimportância.
Todos temos um pouco de Narciso dentro de nós, afinal vivemos em uma sociedade extremamente autocentrada. Mas quem é Narciso? Herança da Grécia, o mito do belo jovem, que, ao inclinar-se num rio, apaixonou-se perdidamente pela sua própria imagem, definhando até à morte na vã tentativa de abraçar seu reflexo. Dessa imobilidade contemplativa e estéril que a psicologia resgatou o batismo para o termo “narcisista”: aquele que, aprisionado na própria vaidade, padece desse mesmo mal: confunde a projeção idealizada do seu ego com a realidade.
Em um mundo de selfies, autopromoção diária e um individualismo quase patológico, é natural que todos tenhamos traços narcisistas. Existe ainda o Transtorno de Personalidade Narcisista, uma condição de saúde mental crônica extremamente prejudicial para quem convive com o diagnosticado, mas aqui estou me referindo a traços egocêntricos, comuns a todos os seres humanos do século XXI.
O individualismo, o narcisismo e a falta de uma vida em comunidade, tenho convicção, são fatores-chave para uma vida que jamais será plenamente feliz. Você pode conquistar tudo o que sempre sonhou, mas, se quem te cerca estiver miserável e doente, do que vale? Ou, se olhar para os lados e estiver sozinho, do que vale? Desde que assisti, no cinema, em 2008, no auge dos meus quinze anos, o filme Into the Wild (Na Natureza Selvagem), a história de Christian e a frase “Happiness is only real when shared”, ou, “a felicidade só é real quando compartilhada”, ressoam nos meus pensamentos.
Posso ter síndrome de Deus, mas tento, de verdade, ser uma pessoa boa cem por cento do tempo, e desviar da minha própria arrogância, para que ela não transpareça para fora da minha mente. Meu pai, meu marido e minha melhor amiga são os que mais me ajudam a atravessar o meu próprio ego, em busca de ter uma vida mais leve. Todos concordaram com a minha terapeuta…
Então, me questiono: será que Deus é feliz? Tendo ele toda a responsabilidade sobre o mundo, sendo ele o singular autor do destino da humanidade — e não só? Será que se sente sozinho, sem pares para refletir, sonhar e compartilhar suas dores e alegrias?