
“No momento em que a dor se transforma em ideias, ela perde parte de seu poder de ferir nossos corações.” Esta frase anotei de um livro de Alain de Botton. Não lembro qual. Nem faço questão. Se tem algo que o tempo me ensinou é que é possível e justo deslembrar, como no poema Deslembro Incertamente, de Fernando Pessoa, em que ele diz que seu passado ele não sabe quem o viveu. E talvez não queira mais saber.
Para saber, é preciso pensar. E, para pensar, é preciso encontrar as palavras certas para cada situação. Pegar o bonde das análises equivocadas ou inadequadas pode ser fatal. Eu adoro a palavra fatal tanto quanto detesto a natal. Fatal faz com que eu aceite a presença do que me machuca. É preciso aceitar para transformar. Natal me faz sentir uma rena. Com gnomos e a família Noel, me nego: antes ser um animal a ser uma ficção.
Alguns de nós não se importam de se transformar em uma personagem que, por vezes, até em si própria causa mal-estar. Alguns parecem nascer com vocação para a desistência maligna da vida, que a embota e não a revela, como a que Clarice Lispector fala no último capítulo de A Paixão Segundo G.H.: “A desistência é uma revelação. Desisto, e terei sido a pessoa humana – é só no pior de minha condição que esta é assumida como o meu destino. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe”.
Abrir mão da força que se tem ou que se é dói e tonteia as pessoas sensíveis. Eu gosto de gente que acalenta o verbo sentir. Sentimentos produzem conhecimento e conhecimento calibra diferenças. Não acredito de forma absoluta na proposição de que podemos ser e agir como bem quisermos e tudo bem. Tudo bem, desde que os instintos, as características e as nossas atitudes não estejam a serviço do lado brutal do ego.
O ego é uma criatura estranha com potência para se tornar o oitavo passageiro de cada um. Sim estou fazendo referência a um filme. Gosto de cinema como gosto de literatura, dois aliados que tenho no combate à pulsão de morte, minha e alheia. Que tragédia é morrer antes do fim ou de se tornar, como também é possível, o fim da picada ou o início da náusea.
No romance A Náusea, Jean-Paul Sartre diz: “Eu sei que nunca mais encontrarei nada nem ninguém que inspire uma paixão. Você sabe, não é tarefa fácil amar alguém”. Uma declaração exagerada e fora de nosso controle humano. Por mais que conheçamos nossos padrões de afeto e de desafeto, há uma realidade que, de forma quase irreal, se sobrepõe a que damos como certa. Penso, cá com meu coração perseverante, que a inclinação para felicidade é um pré-requisito do amor.
Gente infeliz ama? Gente infeliz é amada?
Uma boa parte das pessoas responde que sim. Não sei. E você?
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