
Minha mãe e eu embarcamos no aeroporto de Porto Alegre. O voo saiu na hora certa, e a Companhia mostrou-se confiável, mais uma vez. Estávamos indo visitar neta e filha respectivamente. Eu admirava a coragem daquela mulher mais do que octogenária de cruzar o Atlântico, a essa altura da vida. Mesmo sendo um voo direto, se contarmos o tempo de deslocamento em terra, eram 14 horas com os corpos postados em um espaço exíguo, com condições cada vez piores para pernas, cabeça, coração.
Depois de quase botarmos o papo em dia (não andávamos nos vendo tanto assim), comemos e bebemos. Nem deu tempo de ver um filme entre os tantos oferecidos. Véspera e dia de viagem são muito cansativos, e o sono veio pesado. Só acordei horas depois, por causa de um estrondo, já no meio do Atlântico. As luzes da cabine se acenderam de repente, e a imagem do avião localizado na tela à minha frente (eu gosto de acompanhar esses deslocamentos com seus dados de diário de bordo ao vivo) começou a rodopiar como se a nave ali representada estivesse mesmo caindo.
Ainda não havia me inteirado do desastre real por vir, mas já sabia que aquilo era bem mais do que uma banal turbulência. A imagem seguiu rodopiando na tela, porém agora de cabeça para baixo, pois estávamos literalmente de cabeça para baixo, presos por um naco do cinto de segurança. Agora não tinha mais dúvidas de que estávamos realmente caindo. Havia silenciado completamente aquele ruído de motor que persiste até mesmo nos voos em velocidade de cruzeiro, o que me permitia ouvir o meu coração descompassado, por mais que viessem gritos de toda parte.
Mas como? Aquela não era uma Companhia confiável? Não precisava dar uma confluência macabra de tudo errado para um avião cair? Sempre ouvira falar que as quedas de uma aeronave eram rápidas, imperceptíveis, sem tempo de pensar ou repassar a vida como um filme, então tive uma esperança de que aquele tempo arrastado seria um engano meu e a salvação.
Enquanto repassava a minha vida como um filme, a esperança logo se dissipou, ao ver o olhar da minha mãe. Eu estava acostumado a ver aquele olhar, desde que nasci. Já o tinha visto triste ou até mesmo com menos esperança. Mas nunca, nem nos piores momentos de nossas vidas, eu tinha visto naquele rosto um olhar tão desesperado. Era sem nenhum depois. Era um olhar de derradeira estação.
O avião seguia rodopiando cada vez mais rápido e, a essa altura, começávamos a colocar (nem sei como) os coletes salva-vidas. Enquanto os punha, fiquei me perguntando por que não estávamos usando máscaras de oxigênio. Outra falha da Companhia?
Por mais que viesse dando tempo para seguir todo o protocolo de emergência, incluindo o tempo de pensar por que jamais eu prestava atenção à demonstração dele no começo de cada voo, dando preferência ao livro do momento ou a dormir, o avião não conseguia retomar o prumo de sua estabilidade e caía em definitivo. Era assim, portanto, o fim? Lento, moroso, feito de olhares desesperados, gritos espalhados e corpos de cabeça para baixo?
Foi aí que a minha mãe não me deixou colocar o colete nela, dizendo que não pretendia se salvar, porque desejava que eu botasse todas as minhas forças no milagre da minha própria salvação. Alegou que a minha filha ainda precisava mais de um pai do que uma vó, enquanto eu já havia recebido mãe o suficiente. Não aceitei e, novamente não sei como, tive tempo de lançar uma frase meio estranha:
– Mãe é difícil, mas nunca é demais.
Ela não sabia se ria ou se chorava e, quando o avião deu uma barrigada no mar, agarrei-a com mais força do que a mim mesmo. Eu não sabia se tentava salvá-la ou salvar-me. A porta de emergência havia esvoaçado, enquanto minha mãe e eu éramos lançados juntos a uma água que parecia gélida. Parecia, pois eu não sentia mais as minhas pernas.
Só tive certeza de que o mar estava revolto com ondas gigantes como as de Nazaré, perto de para onde chegaríamos, se o avião não caísse. Eu não soltava minha mãe e, subindo, caindo, nadando a esmo com braçadas constantes de um só braço, prometi que a tiraria dali. Eu, de fato, a iludia como, anos atrás, ela me iludiu.
Longe daquele mar, na realidade do céu, a mãe gritou alto o meu nome e, repentinamente, voltei a um voo calmo, sem nenhuma turbulência. Na poltrona ao lado, penteada e faceira, ela disse me olhando bem nos olhos:
– Resolvi te acordar, meu filho, pois teu bruxismo acusava um sono péssimo. Eu, pessoalmente, acho melhor ficar acordado do que dormir nessas condições horríveis. Quantas vezes eu já te disse para usar aquela placa nos dentes, mas, desde quando, eu fui ouvida? Era ouvida, por acaso, quando tu não descascavas o mamão e desperdiçavas a fruta? Quando não botavas casaco no outono? E desde quando comeste o que eu recomendei? E olha essas pernas secas… E e e…
E a vida retomava o seu patamar aceso, faiscante, e aquela mãe mais do que octogenária me salvou da morte, mais uma vez.
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