
Em 20 de outubro de 2025, três semanas antes de o Brasil sediar, em Belém, a primeira COP realizada na Amazônia, o Ibama autorizou a Petrobras a perfurar o bloco FZA-M-059, a 500 quilômetros da foz do rio Amazonas. Pouco depois, a empresa encerrou o maior trimestre de sua história: 3,23 milhões de barris de óleo equivalente por dia, R$ 32,7 bilhões de lucro líquido e custo de extração no Pré-Sal de US$ 4,67 por barril — entre os mais baixos do mundo. Semanas mais tarde, a COP30 terminou sem mencionar a expressão “combustíveis fósseis” em sua declaração final. Quando fatos desse tipo se acumulam, deixam de parecer coincidência.
Nos últimos anos, o futuro da energia no Brasil passou a ocupar lugar central no debate público. De um lado, figuras de diferentes setores — entre elas a ex-ministra Marina Silva — defendem que a Petrobras deveria assumir a dianteira da transição energética. De outro, executivos do setor e agentes governamentais sustentam que os lucros do petróleo seriam o principal instrumento para financiá-la.
A realidade, porém, tem se mostrado distinta de ambas as promessas. Nem a Petrobras dá sinais concretos de que pretende liderar a transição energética, nem os ganhos extraordinários do setor fóssil vêm sendo direcionados, em escala compatível, para os projetos de energias renováveis. As duas narrativas encontram pouco respaldo nas escolhas efetivas de investimento e na política energética em curso.
Uma missão simples e gigantesca
Para entender essa dinâmica, é preciso voltar no tempo. A Petrobras nasceu em 3 de outubro de 1953, pela Lei 2.004, sob o monopólio estatal do petróleo. A campanha “O Petróleo É Nosso” mobilizara multidões; Getúlio Vargas enviou ao Congresso um projeto de empresa de economia mista que poderia competir com outras empresas, e o Congresso o devolveu na forma de monopólio. A missão era clara e pragmática: abastecer o mercado brasileiro com derivados de petróleo de maneira eficiente e ao menor custo possível para a sociedade.
Quando a empresa começou a operar, o cenário era desolador. O país produzia algo em torno de 2,7 mil barris por dia e consumia cerca de 170 mil. A desproporção era brutal. Durante décadas, a Petrobras lutou para produzir o suficiente para atender à demanda nacional, esbarrando em limitações geológicas e tecnológicas que pareciam, à época, difíceis de superar.
Foram necessárias décadas. Em 2006, com a entrada em operação do FPSO P-50 no campo de Albacora Leste, o Brasil celebrou pela primeira vez a autossuficiência em petróleo. No ano seguinte, a Petrobras anunciou a descoberta do campo de Tupi, no Pré-Sal — estimado entre cinco e oito bilhões de barris recuperáveis sob dois mil metros de água, dois mil de pós-sal e dois mil de sal. Até então, era a maior descoberta em águas profundas do século XXI. Técnica e operacionalmente, a empresa tornou-se uma das melhores do mundo no que faz. O problema é justamente o que ela não faz.
O presente: refino estagnado e dividendo recorde
A primeira contradição aparece no refino. Apesar de seu sucesso extraordinário em exploração e produção, a Petrobras não cumpriu integralmente a missão original de abastecimento. O parque de refino brasileiro tem capacidade líquida de cerca de 1,85 milhão de barris por dia, distribuída em dez refinarias. Essa estrutura permaneceu insuficiente, e a produção doméstica de derivados não acompanha o consumo.
Em 2025, as importações de diesel cresceram 20% e atingiram o recorde de 17,3 bilhões de litros. Ao mesmo tempo, a empresa distribuiu R$ 9,03 bilhões em dividendos apenas no primeiro trimestre de 2026. A pergunta é inevitável: que tipo de estatal, fundada para garantir combustível acessível ao país, importa mais de um quinto do diesel consumido internamente enquanto bate recordes de remuneração ao acionista?
A segunda contradição aparece no próprio plano estratégico. O Plano de Negócios 2026-2030, aprovado em novembro de 2025, prevê US$ 109 bilhões em investimentos. Desse total, cerca de US$ 78 bilhões — aproximadamente 69% — serão destinados à área de Exploração e Produção. Para o conjunto de iniciativas associado à transição energética e a negócios de baixo carbono, a previsão é de US$ 13 bilhões, algo próximo de 12% do total.
Não se trata apenas de uma participação modesta. No plano anterior, a fatia destinada a essas frentes era de 15%. Em termos absolutos, o orçamento para transição foi reduzido de um ciclo para outro. Do ponto de vista da alocação de capital, isso não caracteriza liderança na transição energética; indica, ao contrário, a manutenção da prioridade estrutural dada ao petróleo. O plano deixa claro que a Petrobras não pretende se reposicionar como uma empresa de energia em sentido amplo, mas seguir como uma gigante do setor fóssil.
A ficção do “petróleo que financia a transição”
A isso se soma a tese, repetida à exaustão, de que o petróleo seria a principal fonte de recursos para financiar a transição energética. Em discursos públicos e relatórios corporativos, a fórmula aparece como um compromisso de conciliar expansão fóssil e descarbonização, a tal “transição energética justa”. Os dados disponíveis, porém, não confirmam essa narrativa.
Em 2024, segundo o Inesc, os benefícios fiscais concedidos pelo governo federal ao setor de energia somaram R$ 65,7 bilhões. Desse total, R$ 47 bilhões — 71,6% — foram destinados a petróleo, gás e carvão, enquanto R$ 18,7 bilhões foram para fontes renováveis. Em outras palavras: para cada R$ 1 dirigido ao setor limpo, R$ 2,52 favoreceram o fóssil. O maior subsídio individual, o Repetro, respondeu sozinho por R$ 13,6 bilhões. Em vez de financiar a transição, a renda do petróleo continua financiando, em larga medida, o próprio petróleo.
Além disso, a maior parte do investimento em geração renovável no país continua vindo da iniciativa privada, e não da Petrobras. Esse capital ainda enfrenta cortes periódicos de geração, gargalos de transmissão e leilões que demoram a sair do papel. Ainda assim, apenas em 2025, empresas e propriedades rurais investiram mais de R$ 9,5 bilhões somente em energia solar.
A Petrobras não está sozinha nesse recuo. A norueguesa Equinor — frequentemente citada como exemplo de petroleira mais alinhada à transição — cortou pela metade, em 2025, seu orçamento para renováveis até 2027. Shell, BP, Chevron e Exxon haviam recuado antes. A diferença é que essas empresas não foram criadas por lei com a obrigação primordial de servir à sociedade de seus países. A Petrobras foi.
O orgulho que paralisa
A proposta de que a Petrobras lidere a transição se apoia no orgulho legítimo que muitos brasileiros — entre os quais me incluo, depois de mais de 37 anos de trabalho na empresa — têm por sua história e por seu corpo técnico altamente qualificado. Esse orgulho é compreensível. Mas a empresa, o governo e, ao que tudo indica, boa parte de seus próprios quadros parecem concordar que o DNA da casa continua sendo o petróleo — e agem para que continue assim.
A atual presidente da empresa, Magda Chambriard, tem sido explícita ao reafirmar a centralidade da exploração de petróleo e gás e ao postergar investimentos mais robustos em transição energética. Essa posição pode ser considerada defensável — e até coerente com a história da companhia — desde que seja assumida com clareza. Se a Petrobras é, essencialmente, uma empresa de petróleo e pretende continuar sendo, essa é uma escolha estratégica legítima. O que não parece razoável é apresentá-la, ao mesmo tempo, como protagonista da transição energética brasileira.
O novo plano de negócios apenas formaliza, em números, uma direção que a empresa já vinha sinalizando em discurso e prática: a prioridade continua sendo expandir a fronteira fóssil, não liderar a transformação do setor energético brasileiro. Isso coloca o país em tensão com as exigências da descarbonização global, justamente num momento em que a energia solar e a eólica já mostraram capacidade de responder por mais de um terço da eletricidade brasileira em um mês de 2025.
Quando, em algum momento entre 2050 e 2070, a última gota de petróleo for extraída das profundezas do oceano e o último poço for selado, a trajetória de uma das maiores companhias do mundo terá chegado ao seu fim natural. A Petrobras terá cumprido, então, a missão para a qual foi criada em 1953 — e a terá cumprido com notável competência.
O problema é que, muito antes desse ponto, a missão histórica do setor energético já terá mudado. O desafio central do século XXI não é apenas extrair petróleo com eficiência, mas reorganizar a economia em bases compatíveis com a estabilidade do clima e do meio ambiente. Se a Petrobras não pretende liderar esse movimento, o Brasil precisará construir outro motor para a transição — e fazê-lo antes que o tempo disponível se esgote.
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