
Dispomos hoje, no Brasil, de formas de suporte à morte assistida da consciência crítica. Diferentemente da morte assistida em sentido fisiológico estrito, que não tem o amparo da lei, e muito menos da sociedade em geral, essa modalidade mais específica, a morte da consciência crítica, conta com apoio tácito em muitas frentes.
Em primeiro lugar, há segmentos importantes da sociedade que não hesitam em sacrificar fatos a opiniões, numa espécie de retrocesso aos tempos medievais em que o “crer para ver” se sobrepunha ao “ver para crer”. Aliás, um dos grandes avanços do período final da Idade Média e ingresso no Iluminismo, a superação das crenças no geocentrismo e no terraplanismo, está de volta. Em nome de quem ou de quê a consciência crítica aceita esse golpe?
Há igualmente quem receba assistência, mesmo em plena maioridade, para entregar a terceiros o monitoramento do que lê, do que ouve, do que vê. Mesmo num contexto mais amplo de país republicano em regime de liberdade aceitável de expressão. Em nome de quem ou de quê a consciência crítica aceita esse golpe?
Aproxima-se, mais uma vez, o período de campanha eleitoral, ao qual seguir-se-ão eleições nesse país. Candidatos se apresentam sem propostas minimamente aceitáveis de governança, e nem sequer têm condições morais para assumir a presidência de condomínios. Eleitores aceitam tais candidaturas, as sufragam, e, na sequência, muitos não conseguem sequer recordar o nome de quem ajudaram a eleger.
Vivemos num país com o terceiro maior contingente de presidiários no mundo, 940 mil pessoas encarceradas, com um excedente de 242 mil detentos em relação ao número de vagas físicas disponíveis. O espaço de recuperação social desses presidiários é, na prática, irrisório. O predomínio de pessoas pretas e pobres é estatisticamente significativo. Mesmo quem conhece esse dado procura não pensar nele, notadamente em tempos em que se berra a plenos pulmões a demanda de prisão por crimes de lesa-república e lesa-democracia. Crimes de fato muito graves, mas que demandariam um esforço de reengenharia do aparato jurídico-punitivo em nossa sociedade que não parece ter chance relevante de consideração, nesse contexto de morte assistida da consciência crítica. Pelo contrário: aqui e ali, insidiosamente, retornam os motes na direção da redução da maioridade penal para 16 anos.
O meio ambiente brasileiro é vilipendiado desde o minuto zero em que as caravelas portuguesas puseram os pés em solo pátrio e, ato contínuo, deram-se conta do tanto de certa árvore de tom avermelhado que poderia ser abatida e utilizada para os mais diversos fins – dentre eles, dar nome (Brasil) a essa terra que já tinha um nome autóctone (Pindorama), apagado da história. Vemos, reiteradamente, gráficos alimentados por dados de satélite que mostram o avanço inexorável do desmatamento, junto com tantas outras formas de violência e crimes ambientais. Aqui, o efeito da exposição reiterada a essa morte lenta da biosfera brasileira não consegue sequer mobilizar o sentimento de “vai dar merda”. Pelo contrário, pois a consciência crítica estiola e evanesce.
Lutamos, muitos de nós (alguns em trincheiras textuais, produzindo peças a serem finalmente lidas por tão poucos), pela denúncia desse contexto de conluio contra a consciência crítica. Vivemos entre alguns momentos de esperança fugidia e outros de escapismos mais variados, desde os químicos até os existenciais, de busca de lugares menos apinhados para viver (apesar da baixa oferta de vinhos de qualidade). Um certo cinismo ronda, aqui e ali. Um certo embrutecimento, junto com uma esquálida consciência crítica restante, nos é jogado na cara a cada vez que centenas de pessoas são chacinadas nas periferias das grandes cidades. No fundo, seriam mesmo pessoas? Pets de tonalidade caramelo gozam muitas vezes de mais solidariedade social do que esses infelizes.
Mídia, culturas religiosas, agrupamentos de pessoas assemelhadas a políticos, forças da ordem, milícias civis – são muitas e diversas as instâncias de assistência à falência e morte da consciência crítica do chamado “homem comum”. Aquele que já não tem autonomia para lidar com padrões éticos, na medida em que naturalizou padrões de conduta que nem sequer ligam alertas nas consciências – como é o caso de sermos uma das maiores taxas de feminicídio do mundo ocidental.
Diversamente da assistência que se requer para morrer estrito senso, a assistência para a morte da consciência crítica chega silenciosamente, homeopaticamente, sistematicamente. Sintomas clássicos, como o desinvestimento nos coletivos, na comunalidade, no que transcende a mera curriola, passam cada vez mais em silêncio, naturalizados. Mas, afinal de contas, em nome de quem ou de quê a consciência crítica que um dia já nos referenciou aceita esse zeitgeist?
Ora, em nome da ilusão de que a redenção está ao alcance de quem segue as regras, de quem respeita os costumes, de quem, sabiamente (ou sabidamente), aceita o mote segundo o qual “vence na vida quem diz sim”. Ainda bem que muitas destas pessoas acreditam numa outra vida, na sequência da que vivem (cuja consciência morreu), e que, olhando bem, nem vida é.
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