
Nos últimos anos venho observando um movimento curioso: professores, pesquisadores e pensadores começaram a ocupar as redes sociais. Aparecem cada vez mais, explicando conceitos, desenhando esquemas, respondendo perguntas. Talvez seja uma resposta a uma crítica antiga — a de que o mundo acadêmico teria se distanciado da realidade prática, do mercado, da vida “real”.
Confesso que sempre achei essa distância um pouco injusta, mas também necessária. Quem já esteve envolvido diretamente com a produção material de qualquer produto sabe como funciona: ali o importante é que os números cresçam. Se o lucro aparece, tudo parece estar bem. Pouco se pergunta sobre os impactos mais amplos do que se está fazendo. O saldo positivo vira argumento suficiente.
Talvez por isso eu acredite que essa dualidade seja inevitável — e até saudável. Precisamos tanto de quem produz quanto de quem questiona. O problema é que o diálogo entre esses dois mundos raramente acontece de forma justa. Debates só fazem sentido quando há escuta. Quando há espaço para expor ideias e também para respondê-las.
Mas sejamos honestos: não é exatamente isso que vemos.
Nos debates jornalísticos, uns falam por cima dos outros. Nos debates políticos, ainda que exista tempo cronometrado, cada participante parece fazer um monólogo próprio. As perguntas ficam sem resposta, e o esforço maior parece ser desqualificar o outro — não esclarecer o tema. Ficou famoso aquele momento em que um candidato criticava o plano do adversário e, ao ser questionado sobre o que faria diferente, respondeu apenas que faria “bem melhor do que o seu”. Como se isso bastasse.
Curiosamente, nas redes sociais — esse território tantas vezes criticado —, às vezes encontramos mais espaço para ouvir argumentos completos. Em vídeos isolados, alguém explica uma ideia com calma. Em seguida surgem os chamados “reacts”, respostas que contestam ou complementam o raciocínio anterior. Quando ainda restam dúvidas, aparece o react do react. Forma-se, aos poucos, uma conversa que, embora fragmentada, permite ouvir lados diferentes.
Claro que nem sempre os argumentos são honestos. Hoje sabemos que tudo pode ser manipulado. Imagens, áudios, vídeos — com a ajuda da inteligência artificial, até aquilo que parece evidente pode não ser real. As chamadas fake news já não são apenas textos distorcidos; podem ser cenas inteiras inventadas.
É por isso que volto ao ponto inicial: quem deseja promover um discurso sério precisa estar disposto ao debate aberto. Precisa explicar, argumentar, escutar contrapontos. E quem sabe até repensar e mudar de opinião.
Em um ambiente em que qualquer pessoa pode compartilhar sua visão, há também quem fale acreditando que está dizendo uma verdade — mas que, na prática, ainda não compreendeu todas as camadas do problema. Sem perceber, em vez de esclarecer, acaba simplificando demais. E simplificações excessivas são perigosas: elas escondem a complexidade que sustenta as decisões.
Quando começamos a dominar minimamente um tema, isso se torna mais fácil de perceber.
Outro dia, em meio às discussões sobre plano diretor, assisti ao vídeo de uma arquiteta explicando, diante de um quadro branco, os cálculos de altura permitida para um lote fictício. Ela demonstrava que, mesmo com a ampliação dos índices construtivos proposta no novo plano diretor, muitos lotes tradicionais da cidade não conseguiriam atingir as alturas máximas previstas. Havia limites adicionais — recuos laterais, afastamentos obrigatórios — que impediriam construções muito altas.
O raciocínio estava correto. Matemática impecável. Mas algo ali me incomodou.
Era uma explicação tão simplificada que parecia deixar uma pergunta no ar — uma pergunta que, acredito, qualquer pessoa faria: por que ampliar os índices em bairros em que os próprios lotes impedem construir em altura?
Essa pergunta, aparentemente simples, abre uma porta importante para entender a complexidade do problema. É ali que começa a transformação silenciosa dos bairros — e, muitas vezes, a sua descaracterização.
Não ficou claro? Vou tentar fazer meu próprio “react”.
Se um lote tradicional não permite atingir toda a altura autorizada pelo plano, existe uma solução evidente para quem deseja construir mais: juntar lotes. Comprar terrenos vizinhos, unificá-los e formar uma área maior. Com isso, torna-se possível aplicar integralmente os novos índices e erguer edifícios mais altos.
É assim que vemos bairros inteiros mudarem de perfil. E isso é estimulado pelas regras do Plano Diretor!
Onde antes havia prédios de cinco ou seis pavimentos, começam a surgir torres muito mais altas. Mas a mudança não é apenas vertical. Ela altera profundamente a forma como a cidade se relaciona com a rua.
Antes, havia seis ou oito terrenos, cada um com sua entrada própria. Portas que se abriam para a calçada, janelas voltadas para a rua, moradores entrando e saindo ao longo do dia. Um movimento constante que criava vigilância natural — aquela sensação silenciosa de que sempre há alguém por perto.
Agora, no lugar desses lotes, surge um terreno único. No centro dele, uma torre isolada. Em volta, muros. As janelas já não conversam com a rua. O acesso se concentra em um único ponto, monitorado por câmeras e vigilância permanente. Dentro, segurança total. Fora, silêncio.
Quem caminha pela calçada passa a percorrer longos trechos ao lado de muros contínuos. A rua que antes parecia habitada passa a transmitir a sensação de estar “do lado de fora”. O espaço público deixa de ser acolhedor e começa a parecer território de passagem — não de permanência.
E aqui entra uma pergunta fundamental: o que realmente qualifica a vida na cidade?
Muita gente pensa em parques e praças. Eles são importantes, sem dúvida. Mas o maior espaço público das cidades não são os parques — são as ruas. São elas que moldam a experiência cotidiana. São elas que convidam — ou desencorajam — o caminhar.
Cidades vibrantes são aquelas em que há pessoas circulando. Onde há encontros inesperados. Onde a rua não é apenas um corredor, mas um lugar de convivência. Acho que nisso quase todos concordamos.
É curioso perceber como a matemática aplicada ao planejamento, concebida para ajudar a organizar a cidade, às vezes acaba mascarando questões fundamentais. Ao mesmo tempo em que parece respeitar limites técnicos, estimula transformações silenciosas — como a união de lotes — que alteram profundamente o tecido urbano.
Esse modelo também favorece um tipo específico de investimento: os grandes empreendimentos. Pequenas iniciativas, que poderiam se adaptar melhor ao contexto existente, tornam-se cada vez mais raras. A cidade passa a ser moldada por operações de grande escala.
Talvez por isso tantas cidades estejam mudando tão rapidamente — e, em alguns casos, perdendo parte de sua identidade.
É curioso notar que adoramos admirar ruas de cidades europeias. Gostamos das fachadas contínuas, das calçadas convidativas, da escala humana que estimula encontros. Muitas dessas cidades preservaram suas formas urbanas justamente porque evitaram a decomposição do tecido tradicional, regrando não por fórmulas e números abstratos, mas sim pelo desenho da cidade.
Enquanto isso, por aqui, seguimos confiando que os cálculos resolverão tudo — quando, na verdade, muitas vezes apenas tornam o problema mais complexo e afastam da discussão o cidadão comum, que no fim é o maior impactado quando as ruas perdem qualidade e se tornam inseguras. A partir daí, instala-se um carrossel de efeitos: desestimula-se o uso do transporte público, diminui o número de pessoas circulando, e os negócios de rua começam a perder fôlego.
Enfim, seja pela matemática ou pela observação mais intuitiva, uma sensação permanece: os cálculos, no fim das contas, não estão fechando.
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