
Deixa eu te fazer uma perguntinha indiscreta, tá? Quantas vezes você já procurou o paraíso lá fora? Naquele emprego dos sonhos que ia resolver tudo. Naquele amor perfeito que iria te completar. Naquela conquista que, uma vez alcançada, finalmente ia te fazer sentir… suficiente. E quantas vezes você jogou a culpa do seu inferno nos outros? Naquela pessoa que te feriu. Naquele dia que deu errado. Naquela lembrança teimosa que não te larga. Pois é, talvez o céu e o inferno não sejam destinos. Talvez sejam malas de mão. E o pior é que quase sempre viajamos com os dois.
Foi ouvindo o episódio 127 do podcast Elefantes na Neblina que esse tema me pegou pelo pescoço. Eles falaram sobre a série A Nova Vida de Toby e eu fui assistir: chocante! Em outro momento, um dos apresentadores contou que uma vez foi morar num vale bucólico no sul de Minas Gerais. Parecia um cenário de filme: natureza, ar puro, silêncio, passarinhos afinados e uma vida tranquila. Afinal, com aquele lindo pôr do sol, o espírito certamente entraria em estado de graça. Para sua surpresa, descobriu que muitos vizinhos viviam entre antidepressivos e ansiolíticos.
A série A nova vida de Toby também escancara outra verdade incômoda: nos conflitos humanos, quase nunca existe um herói impecável e um vilão de novela. Cada pessoa, do seu próprio ponto de vista, acha que está certa. E, convenhamos, isso explica muita coisa. Quantas discussões começam porque duas pessoas estão absolutamente convencidas de que são as únicas portadoras da verdade, como se o universo tivesse enviado uma delas com manual e a outra com erro de fábrica?
Além dos conflitos com os outros, existem os conflitos mais difíceis de administrar: os nossos. O desejo de conquistar algo, de ser reconhecido, de alcançar aquela versão idealizada de nós mesmos que imaginamos aos 20 anos e cobramos aos 40. E quando a realidade não acompanha o roteiro? Vêm a frustração, a ansiedade, a sensação de atraso, como se a vida estivesse sempre um passo à frente ou um passo atrás do que gostaríamos.
O que seria o paraíso? Pensa naquele dia em que você acordou e sentiu uma paz inexplicável. Respirou fundo, depois tomou um café do jeito que gosta, num ambiente tranquilo, a sua mente estava calma e o seu corpo não reclamava de nada. Aquilo ali era o seu paraíso, a capacidade de se sentir bem no meio do caos que é o mundo de hoje.
Agora lembra daquela noite em que você ficou rodando na cama, remoendo por algo que lhe disseram, pela culpa que latejava, o medo de que você não era suficiente, a solidão que doía? Isso era o seu inferno, não havia fogo e nem diabo, havia apenas você contra você mesmo.
Talvez uma das grandes armadilhas do nosso tempo seja essa vontade de viver o paraíso editado das redes sociais. Todo dia alguém te mostra o paraíso que você não tem: o corpo que você não tem, a viagem que você não fez, o sorriso que você não sorriu, o sucesso que você ainda não alcançou. Por melhor que você esteja, nunca vai ser suficiente diante desse paraíso fictício, cuidadosamente iluminado, com legenda inspiradora e hashtag de gratidão.
Eu acredito que o paraíso e o inferno não são lugares para onde vamos depois da morte. São escolhas que fazemos a cada instante. Pode ser o perdão que recusamos a dar a nós mesmos. As gentilezas que fazemos e a tolerância com os outros. São os sentimentos que alimentamos e os que deixamos murchar por falta de atenção.
A vida pode ser cruel, mas ela sempre deixa uma porta aberta, sempre nos permite recomeçar. Há perdas, tropeços, expectativas frustradas e recomeços desafiadores. Mas também há beleza, pausa, afeto, coragem e aquela pequena revolução íntima que acontece quando decidimos não transformar dor em moradia. Na verdade, vivemos entre o que odiamos e o que amamos. O desafio não é acabar com o que não gostamos, mas acolher os dois sentimentos e superar o que nos desagrada. Haverá dias de luz e dias de sombras e sempre podemos tornar nossos dias um pouco mais iluminados.
Referência:
Elefantes na Neblina – Episódio 127 – A Missão
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