
A noite/madrugada de sábado, 20 de junho, corria tranquila. A seleção tinha feito 3 x 0 no Haiti. O Brasil estava mais aliviado. Alívio, bem verdade, diferente em cada cabeça: nas otimistas, a certeza de que agora o hexa vem. As realistas sugerindo esperar mais um pouco… Afinal, ainda não se tem certeza da volta do Neymar. As pessimistas chamando a atenção para a fraqueza do adversário de sexta e deixam a dúvida: sexta-feira ou “time de sexta”?
E, assim, uns foram dormir, outros – muitos – como sempre, foram pros bares comemorar (imagina quando o Neymar entrar…), reclamar (por que o Hendrick ainda não é titular, por que o Casimiro segue titular?) e acalmar (já melhorou, mas vamos devagar, o Neymar não é Pelé… aliás, nem chega a Ronaldinho Gaúcho…).
Sentimentos diferentes. Só o alívio era comum. O caminho está aberto para a próxima fase. Que venham Holanda ou Japão!
Mas, atualmente, todo dia e em qualquer assunto sempre tem um “mas”, né?
Fulano está enrolado no caso Master…
É. Mas estão investigando o beltrano também…
O ministro do STF mandou investigar o fulano.
Mas deixa o sicrano liberado…
Estados Unidos e Irã assinaram acordo de paz. Mas Israel continua atacando o Líbano…
Voltando à madrugada de sábado. Tudo corria bem. Nos aconchegos dos lares, na agitação dos botecos, na volta para casa…
Mas, lá pela uma e meia da manhã, o mas apareceu…
Um chato – um criminoso chato qualquer – resolveu assustar todo mundo. E foi um susto pior que um gol contra no último minuto de um jogo decisivo. Em noite de vitória da seleção, o cara decide escancarar toda a própria misantropia. Invade o sistema da Defesa Civil e dispara um alerta nos celulares do país inteiro.
Na periferia, nas quebradas, a alegria da vitória, a cervejinha, foram interrompidas pelo lamento com o barulho da sirene: “Pô, operação na comunidade a esta hora?”
Cuidado com as balas perdidas. Vamos pra baixo da mesa! Bota as crianças embaixo da cama!
Os mais afortunados acharam que era incêndio no condomínio… A PF – ao contrário da Civil quando vai à periferia – chega em silêncio e sempre mais perto do alvorecer. Afinal, acordar de madrugada é para quem pega o trem…
Nas telas dos celulares – além daquela assustadora sirene – nenhum alerta de tempestade, de risco de inundação, nem a orientação para procurar abrigo. Só a palavra pouco conhecida de muitos: misantropia!
Não teve troca de tiros, sobrevoo de helicóptero, invasão de barraco, mandado de busca e apreensão, nem, muito menos, mandado de prisão.
Nada disso.
Foi um chato desses que andam por aí, sem mandado nem mandato, a azucrinar os outros, manipulando máquinas e ferramentas que deveriam servir para melhorar a vida de todo mundo.
Coisa que só um misantropo pode fazer, não é mesmo? Infernizar a vida de quem está usufruindo momentos em que até a polarização política perde espaço para a confraternização…
Da hora do disparo do alerta criminoso até o amanhecer de sábado, misantropia deve ter sido a palavra mais pesquisada no Google, nos dicionários virtuais e até naqueles velhos impressos que sobrevivem em raras bibliotecas, embora muita gente tenha fingido conhecer a palavra…
Está assim, por exemplo, no Michaelis:
Misantropia
Mis·an·tro·pi·a
sf
1 Qualidade de misantropo.
2 Horror à humanidade ou aversão à natureza humana.
3 POR EXT Estado que se caracteriza por profunda tristeza; depressão, melancolia.
4 POR EXT Tendência a evitar a companhia de outras pessoas ou a cultivar o isolamento.
Conhecendo essa definição, não dá para dizer que misantropia seja sentimento comum neste Brasil, onde a gente esquece todas as divergências só pela alegria de um golzinho num adversário qualquer… O país estava até bem feliz.
Vini Jr. tinha feito o dele, Matheus Cunha marcara dois. O Endrick entrou no segundo tempo e só não está na lista dos goleadores porque o VAR viu que a perna dele estava um pouco adiantada em relação à perna do haitiano…
Pois, com todo esse clima, o cara resolveu lembrar todo mundo de que existe misantropia… Justamente quando o Brasil estava abraçado, o cara vem com esse papo de depressão, isolamento…
Abro parênteses: se bem que uma característica dos misantropos – uma certa aversão a outras pessoas – possa brotar em nossos corações depois de passarmos alguns minutos lendo determinadas postagens nas redes sociais… Fecho.
Mas (de novo???) acho que nem isso o hacker misantropo conseguiu.
Passado o susto do barulho do celular, o Brasil amanheceu feliz e pronto para seguir assim até quarta, 23 de junho, quando – tudo indica – vamos pegar a Holanda.
O cara errou o dia. Veio com misantropia quando a gente só queria saber de altruísmo e filantropia… Invadiu um sistema e não roubou nada.
Tentou sequestrar o bom humor de uma noite vitoriosa e só conseguiu acrescentar uma nova palavra ao vocabulário de muita gente.
E as brasileiras e brasileiros, mais uma vez, mostraram, na noite/manhã de sábado, sua capacidade única de sobreviver a tudo: crises políticas, derrotas esportivas (já lá se vão 24 anos sem copa), golpes virtuais e até ataques filosóficos como esse do nosso misantropo da madrugada.
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