
Minha filha,
Quando descobri a sua existência, surpreendente e inesperada, confesso que fiquei com muito medo. Apesar de flertar com a ideia de ter um bebê há alguns anos, não existiu um momento em que essa decisão foi, de fato, tomada por mim (não sei se algum dia eu chegaria à conclusão de que era a hora certa…). Não me sentia pronta para ser mãe, e, principalmente, para me despedir de mim mesma enquanto mulher.
E minha empresa, que trabalhei tanto para conseguir que tivesse sucesso? E minha liberdade, as viagens espontâneas de motorhome, as idas ao Brasil? E minha tão sonhada volta ao surf diário? E o Vipassana que eu planejava fazer, 10 dias meditando em completo silêncio? Como vou dar conta de cuidar de você e dos nossos dois cachorros? E se eu me tornar uma mãe controladora e péssima? E se meu corpo nunca mais voltar ao que era antes? E agora? Eu, que nunca tive barriga, estranho sentir você crescendo em minhas entranhas, me mudando – visível e invisivelmente.
No dia em que te descobrimos, ao deitar na cama, mesmo ainda muito assustada, eu e Luigi agradecemos por termos sido escolhidos. Tomamos um tempo para reconhecer sua vida, sua vinda. Seu pai ficou feliz e emocionado desde o primeiro segundo em que a notícia surgiu: ele sempre te desejou e esperou.
E você chegou transformando tudo. Tudo. As prioridades, que antes eram muito voltadas ao trabalho, já são outras. As preocupações, antes tão pesadas e sobre coisas tão insignificantes, agora são de outra categoria. Há agora, contraditoriamente, uma leveza, uma serenidade, antes inexistentes.
Começamos a te imaginar: de que jeito vai rir, que cor ficarão seus olhos banhados pelo sol, como será a sua voz… Não vejo a hora de te mostrar como a natureza é deslumbrante, como é divino entrar no mar e agradecer, quanta magia existe no mundo, e como o amor é, definitivamente, a fonte de tudo. De te lembrar a estar atenta aos momentos ordinários: se o céu estrelado fosse um evento raro, a humanidade inteira pararia para apreciá-lo por alguns minutos, mas, pelo fato de estar quase sempre ao alcance dos nossos olhos, a maior parte das pessoas talvez nunca veja uma estrela cadente.
Depois de alguns meses me acostumando com sua existência, respiro em paz, tudo faz sentido. Alinhamento divino, como diz sua tia Flávia, desde que te descobriu. Agora sua presença é sentida não só dentro de mim, mas também fora: no escritório, que está tomado por seus presentes (roupinhas, naninhas, toalhinhas, babadores, sapatinhos…), na sala, onde está seu macacãozinho desenhado e assinado por pessoas que te amam sem mesmo te conhecer… você já é tão amada! Ainda tenho medo, mas encontrei também uma força colossal em mim, em nós. Era suposto que você viesse, nesse momento, desse jeito inesperado. Na hora certa.
Com amor,
Sua mãe.