
Mesmo que os indígenas representem somente 0,8% da população brasileira, sua cultura é introjetada na identidade nacional, infelizmente de maneira quase folclórica. Enquanto torcedores da seleção brasileira na Copa do Mundo exibiam cocares nas arquibancadas estadunidenses, os povos indígenas continuam marginalizados no Brasil.
Sempre chama minha atenção, sobretudo ao viajar para o litoral, hotéis e restaurantes decorados com motivos indígenas, ao mesmo tempo que os indígenas de verdade perambulam pelas praias e calçadões quase invisíveis, não fossem os artesanatos que tentam vender aos turistas.
Não foi diferente neste final de julho, quando estive em Ubatuba (SP) e em Paraty (RJ), durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Ambos os municípios fazem parte do Patrimônio Mundial de Paraty e Ilha Grande, o primeiro na América do Sul e Caribe considerado misto, ou seja, estão tombados por sua importância arquitetônica e histórica, mas também devido à biodiversidade e às populações tradicionais.
No lindo Centro Histórico de Paraty, porém, enquanto intelectuais e festeiros em geral desfilavam entre os inúmeros eventos da Flip, adultos e crianças indígenas tocavam, cantavam, dançavam e comercializavam do lado de fora, como imigrantes pobres em sua própria terra.
Nestes tempos de mudanças climáticas, muito se fala (e estudos confirmam) a importância dos povos indígenas brasileiros para a conservação de nossas florestas e ecossistemas, e de quanto precisamos aprender com seus modos de vida para enfrentarmos os desafios do Antropoceno. Lideranças indígenas começam a ser respeitadas, seja como representantes no Congresso Nacional, como as deputadas federais Célia Xakriabá, Juliana Cardoso e Silvia Waiãpi, seja na Academia Brasileira de Letras, com o alçamento de Ailton Krenak à “imortalidade”. Na prática, porém, os avanços rumo aos direitos dessas populações ou à incorporação de suas lições de como lidar com a natureza têm sido, na maior parte das vezes, apenas retóricos.
Durante uma mesa sobre mudanças climáticas e territorialidade, em um dos eventos oficiais da Flip, ouvi o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, contar uma ocorrência que indica uma mudança nesse cenário. Com a perspectiva do super El Niño e a ameaça de seca na região do Tapajós, o rio necessitaria ser dragado para suportar a passagem das barcaças de grãos em um trecho de 280 km entre Miritituba-Itaituba e Santarém, no Pará.
Lideranças indígenas se opuseram à dragagem por considerar que o rio é sagrado e que a obra não atende às populações da região, mas apenas ao transporte de grãos. Questionado sobre o tema, o presidente Lula pediu para que os indígenas fossem levados até ele para explicar a reivindicação. Segundo Capobianco, os líderes compareceram pintados para a guerra e disseram que preferem lidar com as mudanças climáticas à sua maneira e não com intervenções no rio. Apesar da pressão do agronegócio, foram atendidos.
O caso é emblemático porque não é a primeira vez que povos indígenas avisam que obras de infraestrutura feitas priorizando os interesses econômicos não só prejudicam as populações locais, como não trazem os benefícios que prometem. Entre os exemplos, podem ser citadas as usinas hidrelétricas de Belo Monte, no rio Xingu, subutilizada nos períodos de seca, ou a de Balbina, que alagou uma área gigantesca de floresta (cerca de 2.360 km²) para uma potência muito baixa, gerando pouca energia em relação ao enorme estrago ambiental, sem conseguir abastecer nem mesmo a demanda esperada de forma eficiente.
A exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, mesmo já contando com um vazamento de 18.000 litros de fluido de perfuração, em janeiro de 2026, ainda na fase exploratória, é uma novela ainda em produção. Talvez devêssemos olhar menos os povos indígenas como produtores de artesanato e ouvi-los como os sábios habitantes originais destas terras, o que eles efetivamente são.