
Quase todo mundo tem um vício. Alguns são mais leves, tão leves que quase nunca são considerados vícios. A vontade quase reprimida de tomar café de hora em hora ou comer um chocolate após o almoço. A olhadinha nas redes sociais que quase se repete por muitos dias, a comprinha na internet que quase fica para o dia seguinte, a comida que quase espera uma data especial. A necessidade de repetir e repetir os mesmos hábitos por quase todos os dias até ele se tornar inevitável.
Eu sei que o uso exagerado de algumas palavras neste parágrafo causou certo incômodo. Sei também que as repetições poderiam ser atribuídas à falta de uma boa revisão por parte desta autora que publica aqui, rigorosamente, todas as quintas-feiras. No entanto, sinto informar que nenhuma destas linhas passou despercebida aos meus olhos e que cada expressão foi intencional, pois o que é o vício senão uma sucessão de práticas executadas tantas vezes a ponto de se tornarem indispensáveis?
Qualquer vício, leve ou não, corrói o corpo e a alma. Alguns, por serem mais discretos, demoram a ser notados. Outros escancaram de imediato o que há de pior em quem os carrega. Segundo a psiquiatra Anna Lembke, podemos nos tornar dependentes não só de substâncias, mas também de comportamentos. Para uns são os narcóticos; para outros, o trabalho, as séries de televisão, os exercícios físicos, as redes sociais. Estamos expostos diariamente a estímulos que nos convidam à repetição e à busca constante por pequenas doses de prazer ou alívio.
Eu nunca sequer experimentei cigarro ou drogas, mas tomo remédio para dormir. Durante um período da minha vida, gostei de álcool, mas não ao ponto de não conseguir ficar sem beber. Já fui viciada em gastar dinheiro com bobagens; hoje, embora não consiga economizar, estou mais seletiva nas minhas despesas. Sou chocólatra assumida e juro que um dia ainda vou me curar. Não saio de casa sem um livro. Quando não levo bolsa, carrego-o nas mãos. Já me disseram que sou viciada. E, se esse for mesmo mais um dos meus vícios, confesso que dele não pretendo me livrar. Talvez fosse mais prudente, nesse caso, trocar a palavra vício por hábito. No entanto, percebo que já ultrapassei esse limite: mesmo sem tempo de abrir um livro, basta saber que ele está ali para que eu me sinta menos só.
Se o hábito de leitura, para mim, já se tornou uma dependência, eu lamento. Não tenho mais jeito. Estou fadada a viver nos mundos paralelos da ficção, onde o tempo corre em outro ritmo e nenhum lugar é distante o suficiente para não ser alcançado. Muitas vezes me pego descrevendo com propriedade cidades e países onde nunca estive e épocas que não vivi. A vida alheia pouco me interessa, a não ser quando se trata da vida de um personagem. Aí me permito sentir amor, ódio, repulsa, sem reservas. Não hesito em desejar a ele o melhor ou o pior final possível. Sou tão viciada em ficção que, não bastando as histórias contadas por outros autores, passei a escrever as minhas.
Ler me faz tão bem que a pesquisa divulgada recentemente pela Câmara Brasileira do Livro me deixou entusiasmada. Em 2025, a venda de livros, tanto físicos quanto digitais, cresceu em relação ao ano anterior. Com isso, o Brasil ganhou mais de 3 milhões de novos leitores. Quem sabe o hábito da leitura não alcance — ou até supere — o tempo dedicado às redes sociais? Quem sabe, entre esses novos leitores, não surjam outros tantos viciados? Desses que, como eu, não têm a mínima intenção de se curar e pretendem induzir outros ao mesmo vício.
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