
Só o título já sinaliza a inquietação e o medo que vivemos no Rio Grande do Sul desde 2024, quando as chuvas intermitentes deixaram famílias inteiras sem nada. Desde então, nossos corações batem muito forte quando previsões anunciam temporais e chuvas intensas no Estado. Sentimentos que o livro “Quando Começa a Chover o Coração Bate Mais Forte”, da jornalista e fotógrafa Mirian Fichtner (São Paulo: Foto Editorial, 2026), traz com muita emoção, sensibilidade e consciência. As imagens falam e traduzem, em primeiro plano, o olhar dos atingidos que perderam tudo. A publicação registra a água que invadiu ruas de Porto Alegre e das ilhas, de Canoas, Eldorado do Sul e Vale do Taquari, onde comunidades inteiras ficaram desamparadas, física e emocionalmente. As 107 fotografias dividem espaço com textos de Mirian, do jornalista e curador Eder Chiodetto e dos climatologistas Carlos Nobre e José A. Marengo. E assim temos um registro fundamental, que transforma em memória e em alerta um dos maiores desastres socioambientais da história do Brasil.
O lançamento, no dia 25 de junho, na Cinemateca Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, teve ainda a exibição de um documentário sobre a tragédia, também produzido por Mirian e pelo jornalista e produtor cultural Carlos Caramez. O público espantou o frio e prestigiou um momento muito especial e comovente, que tem tudo a ver com as nossas vivências recentes. “Nas periferias e na região metropolitana, os pássaros pararam de cantar. Os cães não latiam. Nada mais parecia ter vida nestes lugares, a não ser a água”.
“É uma obra impressionante (mesmo!) sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. Eu nunca havia visto um livro de fotografias com tanta precisão e carga emocional sobre um desastre ambiental. São 212 páginas (com alguns textos) editadas de forma exemplar. Durante o lançamento, será exibido um documentário de curta-metragem com o mesmo título, dirigido por Mirian e premiado em festivais”, escreveu o jornalista Juarez Fonseca.
Para fotografar, Mirian precisou acompanhar o movimento das águas e o desespero das pessoas, com muita coragem e desapego, porque vivia o luto da morte recente da sua mãe. Mas “fotografar tornou-se imperativo”. E assim mergulhou “nos olhares perdidos dos flagelados e no silêncio fúnebre dos escombros abandonados, desolação e ruína”. Sabemos que o impacto das inundações causadas pelas chuvas extremas amplificou-se com os desmatamentos das margens de rios e lagos, principalmente da Mata Atlântica. A chuva que ali cai vai imediatamente para os rios, aumenta seus níveis e causa erosão. Situações que vão seguir acontecendo, acompanhadas pelos traumas que ainda não foram superados. As águas levaram vidas, pertences, memórias, o passado de tantas pessoas. Como e por onde recomeçar? Vai acontecer de novo? O medo do futuro se faz presente porque a emergência climática que atravessa o planeta torna estes eventos cada vez mais frequentes.
Ao percorrer as páginas do livro, lembrei muito do meu avô materno, Juvenal Lopes, que dizia: “Não morem em encosta de morros, nem em beira de rio, porque um dia o morro desaba e as águas dos rios extrapolam as margens”.
O livro foi concebido e produzido por Mirian e por Carlos Caramez, que é um amigo muito querido e de muito tempo. Não tenho dúvidas de que a publicação precisa ganhar o Brasil, chegar ao centro do poder, nas mãos de autoridades e políticos, porque medidas urgentes precisam ser tomadas para conter as tragédias e amenizar as tantas dores e perdas provocadas, se é que ainda é possível.
O meio ambiente pede socorro.
Sobre a autora
Mirian Fichtner é jornalista, fotógrafa e documentarista. Radicada no Rio de Janeiro, trabalhou nos principais jornais e revistas do país. Possui vários livros publicados e exposições realizadas no Brasil e no exterior. Recebeu mais de 18 prêmios nacionais e internacionais pelo trabalho fotográfico. Em 2006, criou a Pluf Fotografias e Audiovisual para atender o mercado editorial, corporativo e audiovisual. Em 2021, estreou na produção, direção e fotografia de longas-metragens com o documentário Cavalo de Santo, premiado em mais de 15 festivais no Brasil e exterior. Recebeu quatro Kikitos no 49º Festival Internacional de Cinema de Gramado. O documentário está em cartaz na plataforma GloboPlay. Em 2025, produziu, dirigiu e fotografou o documentário Quando começa a chover o coração bate mais forte sobre as enchentes de maio de 2024, no Rio Grande do Sul, que deram origem ao livro. Neste ano de 2026, Cavalo de Santo serviu de referência para o enredo da G.R.E.S. Portela.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.