
Existe uma estatueta de uma mulher negra (centro da foto), Núbia, carregando duas crianças numa faixa de pano nas costas. É uma escultura muito pequena, menor que a palma da mão. Está na sessão sobre os Núbios, numa das grandes alas dedicadas ao Egito Antigo, no Museu Britânico. A peça arqueológica representa um instante cotidiano vivido, segundo o informativo do acervo, entre os anos 1560 e 1070 a.C., ou seja, 3.500 a 3.000 anos atrás.
Já nos dias de hoje, há uma grande circulação dos debates sobre identidade. Alguns dos discursos emitidos fundam suas convicções em alguns princípios de natureza tão metafísica quanto a noção iluminista de que a razão guia a história humana… Por sinal, a matriz iluminista (ocidental e liberal) é profícua em inventar essências etéreas que alguns têm como o mais concreto conteúdo de sua identidade: o que dizer da crença na natural supremacia branca-masculina?
Assim, tentando escapar do pecado das sacralizações, prefiro a palavra identificação à identidade. Pois, antes de pensar que o pertencimento já está dado por uma força sobrenatural que nos congregaria a um grupo, gosto de pensar que ele é sempre uma construção que edificamos em meio à nossa vivência em sociedade.
No imponente British Museum, que é uma das joias do finado Império Britânico, a provável mãe e seus dois filhos não estão em lugar de destaque; ficam dentro de uma vitrine com três subníveis, dividindo uma prateleira com resquícios de outras imagens femininas, inclusive maiores que ela. Por outro lado, em destaque, expostos em estante única, com alguma frequência, vamos encontrar marciais espadas e dourados adornos: a corporação de origem vitoriana, a despeito de seus valorosos esforços de atualização, tem uma identidade a preservar…
A milenar escultura nos conta que, no reino ao sul do domínio dos Faraós, já existiam mulheres que trajavam estampados kitenges, que se ornavam com grossos braceletes e brincos, enquanto levavam seus rebentos consigo. Seu dorso levemente projetado a frente por conta do peso, nos diz que a meninada era bem nutrida, a forma de seus grandes seios desnudos testemunha sua maternagem.
Do lado de fora da secular instituição, andando seja pela capital do Reino Unido, Lisboa ou Paris, Salvador ou Olinda, se encontra empoderadas mães pretas, também amparando sua prole em coloridas capulanas, assim como já fazem, desde tempos imemoriais, genitoras de Luanda, Maputo, Bissau e em toda África.
Por entre muitas e muitas relíquias (antigos fuzis da infantaria imperialista, esculturas gregas e romanas retiradas para Londres), há uma matriarca ancestral que, a passos firmes e persistentes, adornada em panos e enfeites, caminha sustentando seus herdeiros.
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