
Em Teoria da Viagem: poética da geografia (LPM, 2009), Michel Onfray afirma que nosso desejo de viajar começa antes mesmo de nós nascermos. O líquido amniótico é essa espécie de “banho estelar primitivo” que encarna simultaneamente uma “superfície metafísica” e uma “ontologia germinativa”. “Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-múndi” (p. 9). Gosto dessa sugestão de inconsciente de Onfray, de que já como bebê viajamos no útero materno, e isso diz muito de nosso movimento em direção ao ato de viajar. É ali que nos descobrimos nômades ou sedentários.
Eu já firmei aqui que viajava primeiro em Porto Alegre. Viajar nunca foi sair do lugar em que estou, simplesmente porque, na infância, não tinha dinheiro para pagar as passagens de ônibus e, quando o fazia, era rigorosamente acompanhado por minha mãe. Então, descobri que podia viajar simplesmente caminhando e apreciando a cidade em que morava, visitando seus espaços culturais. Movimentava-me em Porto Alegre como se fosse um turista de primeira viagem. Isso mudou quando comecei a estudar e trabalhar: primeiro, as viagens de estudante para participar de congressos, e depois, casado, as primeiras viagens internacionais, Uruguai e Argentina. E isso não faz muito tempo, não.
Viajar é uma afirmação do ser
Viajo, logo existo. Onfray afirma que ser sedentário ou viajante afirma modos de ser no mundo, arquétipos atualizados dos nômades ou pastores do passado, ou dos sedentários e daqueles que têm raízes no presente: “Os primeiros amam a estrada, longa e interminável, sinuosa e ziguezagueante; os segundos se comprazem com a toca, sombria e profunda, úmida e misteriosa. Para figurar esses dois modos de ser no mundo, a narrativa genealógica e mitológica produziu o pastor e o camponês. Cosmopolitismo dos viajantes nômades contra o nacionalismo dos camponeses sedentários. Os pastores percorrem e levam rebanhos a pastar em vastas extensões, sem preocupação política ou social; já os camponeses se instalam, constroem, edificam aldeias, cidades, inventam a sociedade, a política, o Estado, portanto, a Lei” (p. 10-11). Eu sempre fui aquele da toca, sedentário, fixo em minha casa, mas sempre de alguma forma sonhei com as viagens quando via filmes de ficção científica com suas viagens interplanetárias. O menino que mal saía de casa sonhava em alcançar o universo. E finaliza Onfray: “tudo o que recusa essa nova ordem contradiz o social: o nômade inquieta os poderes, é o incontrolável, o elétron livre impossível de seguir, de fixar, de designar” (p. 11). Até o nascimento do turismo de massa.
O turismo de massa é diferente do turismo antigo. Viajar nem sempre era feito da mesma maneira que é hoje. Até o século XVIII, viajar era algo raro e motivado pelo comércio, guerra ou peregrinações. Você podia ir ver as pirâmides se vivesse no Antigo Egito, ou lotar o santuário de Delfos se estivesse na Grécia, ou viajar para Pompéia para um banho público se estivesse no Antigo Império Romano, mas qualquer uma dessas atividades era sempre privilégio das elites. A razão era que as viagens eram perigosas e demoradas e custavam caro. Quando Thomas Cook organiza a primeira viagem organizada em 1841, surgem as primeiras agências de viagem que organizam o turismo moderno. Elas são popularizadas pela Revolução Industrial, quando as ferrovias e a máquina a vapor tornam o transporte mais rápido e barato. Não apenas as elites viajam, mas também a classe média, no século XIX. Esse modelo é aprofundado com o turismo de massa, típico do século XX e efeito da civilização do automóvel, que populariza as viagens. Agora, os aviões passam a ser o veículo principal e as conquistas trabalhistas permitem que mais pessoas viajem, já que têm direito a férias remuneradas. A atividade se massifica e se torna um pilar da economia global. Se antigamente o acesso era da elite, o moderno é de massa, que se beneficia do tempo que levam agora as viagens: no passado, meses; hoje, horas. Não se viaja mais por necessidade ou motivo religioso; simplesmente se deseja uma experiência.
O turismo de massa transforma a viagem
O turismo de massa transforma a viagem. Ele mata o gosto pelo movimento livre e o substitui pelo movimento administrado, substitui a paixão do ir e vir pela imobilidade das filas no aeroporto. Agora, o desejo ardoroso de mobilidade é substituído pela total incapacidade de se movimentar no meio da massa controlada que frequenta os grandes prédios turísticos. Viajei para Lisboa e o que vi? Vi dezenas de grupos de turistas, com um guia à frente e sua bandeirinha, a se cruzarem por centros históricos, prédios de castelos, ruas estreitas e ladeiras íngremes. Nesse imenso frenesi, descobri que o turismo de massa mata a comunhão gregária do viajante com outras comunidades, pois é impossível estabelecer uma ligação eventual com moradores trabalhadores se você mal consegue falar a sua língua: na terra onde a maioria deveria falar o português, ouço apenas o indiano, o japonês, o turco, o inglês e o alemão.
É como se houvesse outra cidade dentro da cidade. Uma Lisboa da globalização enterra ao meu redor a cidade histórica. Meu taxista é turco, o dono do armazém da esquina é muçulmano, o dono da loja de 1,99 é chinês: todos se comunicam o mínimo com o turista e o máximo em seus guetos a cada esquina. O turismo substitui a vontade de conversar com o morador pelo silêncio, a independência da exploração da cidade pela dependência dos guias de excursões, a paixão pela improvisação pelo estabelecimento de roteiros fixos das agências que matam a descoberta. Viajar na era do turismo de massa é não poder improvisar, é perder a paixão que a descoberta possibilita. “O errante cultiva o paradoxo da forte individualidade e sabe se opor, de maneira rebelde e radiosa, às leis coletivas. Viajar supõe, portanto, recusar o emprego do tempo laborioso da civilização em proveito do lazer inventivo e alegre. A arte da viagem induz uma ética lúdica, uma declaração de guerra ao espaço quadriculado e cronometragem da existência” (p. 14). Aqui, o produtivismo mata a viagem: é preciso passar pelo maior número de monumentos possíveis, de cidades possíveis. Como conhecer algo nesse mundo?
Viajar na era do turismo de massa é descobrir que a cidade que você elegeu para visitar já se tornou um lugar condenado à perda do sentido de viajar. O viajante é recondicionado: o tempo pessoal é substituído por um tempo coercitivo dos programas de viagem, as durações subjetivas são objeto de cálculo milimétrico – o tempo não é mais daquele que viaja, mas daquele que administra sua viagem, o guia turístico. E você paga por isso. Você se torna o nômade administrado; eis a utopia da indústria turística: fim de se orientar pelos astros e estrelas, pelas trajetórias dos astros no céu. Agora o que importa é o turismo de massa, que guia você pelos lugares históricos tradicionais e sem descoberta de novos. São sempre os mesmos. É a imagerie de que fala Brissac Peixoto em seu “Cenários em Ruínas” (Brasiliense, 1984). Você deixa de pôr o pé na estrada obedecendo à sua força interior, que lhe orienta por um caminho e o substitui por um caminho a seguir; agora, quando o caminho a seguir é predeterminado, você é conduzido aos lugares onde o mercado julga disponível uma mais-valia que você quer incorporar, um valor. Diz Onfray que o viajante “desde o primeiro passo, realiza o seu destino”. Falo isso porque são as primeiras ideias que tive logo ao chegar a Lisboa, experiência que passo a compartilhar com meus leitores. Descobri que não é bem assim como descreve Onfray a viagem na sociedade em que o turismo virou uma indústria. Minha experiência durou 18 dias. Eu escrevi, nos quatro meses que passei na praia, meu “Cidreira, um bom lugar para passar o fim do mundo”, e apresento ao leitor a minha viagem em Lisboa como o segundo volume, descontadas as dificuldades que a indústria do turismo promove.
A escolha de Lisboa
Escolhi Lisboa junto com minha esposa. Há muito tempo queríamos atravessar e chegar ao Velho Mundo. É a busca da ancestralidade de que nos fala o povo negro. Sou Barcellos e há uma cidade em Portugal com esse nome, assim como minha esposa, que é Machado, tem outro sobrenome de origem portuguesa. Eu sei que as origens de Porto Alegre estão nos 60 casais açorianos que desembarcaram na cidade no final do século XVIII, mas, de fato, quem são os portugueses de minha origem? Barcelos é uma cidade de Portugal e o nome está associado a “vargella”, terreno próximo ao rio; é nome de nobres e figuras históricas, como o primeiro Conde de Barcelos, e é citado entre os primeiros açorianos. Já os Machado, de minha esposa, remontam ao século XII em Portugal. O nome surgiu de um feito militar, quando Dom Mendo Moniz, cavaleiro, e os seus filhos (Pedro e Nuno Mendes de Gandarei) arrombaram as portas de Santarém com machados na tomada da cidade aos mouros em 1147. Se o povo negro recupera sua ancestralidade para desfazer um apagamento histórico e reconstruir sua identidade, eu posso, como aposentado, agora que tenho tempo, reconstruir minha identidade e de minha esposa visitando Portugal. Estou pelas ruas de Lisboa e sei que por ali passaram meus ancestrais. É o meu passado que pouco conheço. Eu pouco sei de minhas origens familiares, somente até minha avó, que viveu em Uruguaiana; antes, nada mais, e isso vale para minha esposa. O que deveria ser, no entanto, um turismo de memória, se transforma em turismo de massa quando as caminhadas partem de patrimônios materiais consagrados e não dos invisibilizados, como os de minha família.
É mais do velho capitalismo: o que era para ser uma ferramenta de pertencimento se transforma em nova fonte de alienação e acumulação. Não encontro nas ruas de Lisboa nenhum cidadão Machado ou Barcellos, apenas uma multidão de nomes muçulmanos e asiáticos. Gostaria de redescobrir minhas linhagens, mas, quando visito a Biblioteca Nacional de Portugal para fazer uma doação de uma obra de minha autoria, o máximo que vejo é o atendente atarefado procurando encerrar seu expediente porque é véspera de feriado e eu chego quase ao meio-dia. Eu queria me conectar com minhas raízes, fazer uma pesquisa, mas tudo o que consigo é me conectar com as mesmas formas de consumo que tenho em meu país. “Quando se olha o planisfério, de início não se percebe bem as distâncias. A escala só tem um significado claro e distinto aos acrobatas em aritméticas, aos superdotados em cálculo. De imediato, somos pegos neste estranho paradoxo: o planisfério parece pequeno, e o mundo, vasto, ou então o inverso que é verdadeiro: o planisfério é vasto, e o mundo, pequeno. Pois, não obstante sua natureza e distância, todo o lugar se atinge agora, com a modernidade dos transportes, em prazos bastante curtos. Todas as destinações se tornaram possíveis – questão de tempo. Nesse campo dos possíveis, como escolher um lugar?” (p. 20).
Lisboa deveria ser nossa escola de viagens.
Eu e minha esposa escolhemos Portugal, especialmente Lisboa, sua capital, por ser o melhor lugar para iniciarmos nossa experiência na Europa. É que é preciso aprender a sobreviver em outro continente e, por isso, via Portugal como uma escola de viagem. Viajar é sempre uma aventura. Mas é preciso aprender a viajar. Havia, é claro, um elemento que nos animava e entusiasmava: o fato de ser a mesma língua. Era preciso apreender os meandros de uma viagem internacional, como deslocar-se, pegar um ônibus ou trem em outro país. Daria para usar cartão de crédito? Se sim, onde? Como usar totens automáticos? Eu consigo entrar em um ônibus e não me perder? Como são feitas as cobranças e pagamentos nos trens? Para tudo isso, falar a mesma língua ajudaria. E seguir, é claro, as imagens que tínhamos de Lisboa, com suas ruelas antigas e castelos banhados pelo rio Tejo ou Douro, conforme o destino. Eu buscava a história e a antiguidade, e minha esposa, a experiência do dia a dia numa grande cidade. “Cada corpo busca reencontrar o elemento no qual se sente mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e de prazeres confusos, mas memoráveis. Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la” (p. 21).
Lisboa é o lugar que escolhemos para nossa viagem ao Velho Mundo, mas sabíamos que o país, Portugal, era tão pequeno que cabia com sobra no Rio Grande do Sul. Isso facilitava conhecer cidades próximas e, até se fosse o caso, países, dada sua proximidade com a Espanha. Ainda que haja inúmeros pontos turísticos em Lisboa, do castelo de São Jorge passando por museus, como o do Terremoto, sabíamos apenas o nome da cidade, e essa indistinção é natural nos viajantes de primeira viagem. Sabíamos o país para onde queríamos ir, mas não os lugares de nosso destino. É aí que entra a descoberta. Os documentários de viajantes que assistimos antecipadamente mataram parte da surpresa que a viagem poderia nos proporcionar, pois com eles vinha a descrição de algumas regiões: Alfama, Bairro Baixo, Chiado. Nossos sonhos eram diferentes daqueles que já visitaram diversas vezes Portugal, pois já conhecem de alguma forma suas atrações. Para nós era apenas um imperativo, e, nos termos de Onfray, também é nosso corpo que fala por meio de nossas viagens: “o corpo armazena imagens transformadas sem ícones” (p. 22), diz. Não exatamente somente isso, já que a memória do cansaço também bate naqueles de terceira idade que, como nós, que com joelhos frágeis se arriscam nas ruas de Lisboa.
Meu método de trabalho
Anotei durante as viagens impressões e detalhes que organizo aqui. Ao final de cada dia, repassava o WhatsApp como se fosse uma espécie de diário de campo antropológico adaptado a nossos tempos virtuais. Tristeza já reconhecida por Onfray: “o texto vai desaparecer, o livro também, em favor de signos icônicos, pixelizados, escaneados; o real recua em sua espessura carnal em favor da sua modalidade virtual: atingimos o auge da imagem e, como sempre numa tal ocasião, o excesso mata a possibilidade mesma das que poderiam verdadeiramente significar. Os lugares do mundo convergem para as telas informáticas ou televisivas, tristemente semelhantes à sua realidade, mas engaiolados, limitados pela exigência da fidelidade sumária” (p. 22). Por isso ainda importa anotar em um diário o que se faz em uma viagem e, mais ainda, o que faço aqui, transcrever sob o formato de livro as reflexões que produzi, às quais meus leitores têm acesso em primeiro lugar, mesmo que sejam quatro ou cinco, como diz Carlos André Moreira. Fiz uma viagem a Lisboa e o que isso significa? Trouxe inúmeros folhetos de viagem, fotografias em meu celular, vídeos gravados, imagens digitais. Qual o sentido disso tudo? Só há uma forma possível: fazer o relato dessa viagem se tornou minha obrigação. Dar sentido aos vestígios digitais que criei é um dever. “Entre o mundo e nós, intercalaremos prioritariamente as palavras”, finaliza Onfray.
A viagem de Onfray começa numa biblioteca ou livraria. Mesmo numa viagem, ele é sedentário; ele vai às prateleiras de uma sala de leitura para procurar pelos atlas e todas as obras que colaboram para a escolha do destino. “Todas as seções de uma boa biblioteca conduzem ao bom lugar; o desejo de ver um animal extravagante, uma borboleta rara, uma planta quase inencontrável, um veio geológico numa pedreira, a vontade de andar sob um céu como o fez um poeta, tudo leva ao ponto do globo cujo sinal carregamos às cegas” (p. 25). Minha viagem não: ela começa por uma danação, a pesquisa inicial não em livros, como faz Onfray, mas na IA Perplexity, pois minha viagem já não nasce só da ilusão de um sonho, mas da crua realidade: eu preciso passar, em primeiro lugar, pela Imigração Portuguesa.
As malditas pastas
Depois que você comprou a passagem e alugou seu apartamento pelo Booking, vem o pior: organizar a… pasta! Todos os documentos que você precisa para passar na imigração precisam estar lá. E, de fato, há os mais diversos tipos de organização de documentos quanto há de passageiros, desde aqueles para quem basta estar tudo no celular até aqueles como eu, das antigas, que preferem usar as tradicionais pastas transparentes de doze divisões. Tudo precisa estar em um lugar de fácil acesso na hora da entrevista e, para mim, as pastas eram as melhores, pois ali coloquei desde comprovantes de residência, passagens, comprovantes de valores em dinheiro, cópias de documentos, etc. E você faz isso antes, pois a correria do dia da viagem é uma experiência única: reunir tudo nas malas, mas também deixar Lola, nossa collie, no hotel, despedir-se dela, voltar para casa na capital, fazer as últimas compras, decidir os livros que levará na viagem. Onde ficaram as meias de pressão? Um detalhe: você, minutos antes de ir para o aeroporto, já está dentro da lixeira do prédio vendo se não jogou elas lá por engano. E, na correria para o voo de partida, você sempre se esquece de algo: meu filho teve de voltar em casa após me deixar no aeroporto para buscar a única nota de 20 euros que tínhamos para qualquer imprevisto e que foi esquecida na correria de saída. Como pode ver, mesmo indo para a Europa, eu continuo… pobre! Mas eu não esqueci as… pastas!
A IA me disse para organizar duas pastas individuais, uma para mim e outra para minha esposa, cada uma com os próprios documentos, mesmo que fossem repetidos, já que eu e minha esposa ficaremos na mesma acomodação e mesmo que o meu dinheiro esteja na conta dela, como é natural nos casais. A IA me disse que, assim, cada um fica responsável pela própria documentação, o que simplifica checagem em imigração, hotel e seguros. Quer dizer, a ideia central é que você deve trabalhar para a imigração de véspera. Eu sou muito dócil em relação às IAs, obedeci e organizei minhas pastas com plásticos e fichários separados. Na primeira parte, o passaporte válido dentro do prazo ideal de 6 meses de validade, cópia do bilhete de ida e volta, e atendi o pedido de incluir o PDF destes documentos na nuvem e no celular; meu comprovante de hospedagem em Lisboa, a reserva do Booking que fiz de um apartamento em São Vicente, a apólice de seguro de viagem que fiz para mim e minha esposa, e em todos os documentos, em destaque, os valores, as coberturas e telefones de emergência em caneta hidrocor amarela. Cópias de RG, CNH, os documentos oficiais, também depositados em PDF na nuvem, além do, claro, extrato financeiro em cartão Nomad. Por exemplo, eu escolhi um ótimo e caro seguro; vá que aconteça o pior. É que não convidei a sogra, que sempre quer nos acompanhar nas viagens e nunca quer ajudar, e isso seria, como diria, um fator cósmico a considerar.
O novo imperativo categórico: não posso ficar sem celular.
O passo seguinte era, conforme minha pesquisa, garantir que algo nunca falte: o celular. É o novo imperativo categórico: quem viaja não pode ficar sem ele. Ali tem o Google Maps, essencial para viajar. Para isso, eu precisava contratar uma empresa nativa, de Portugal, já que o roaming nacional é muito caro, o que fiz com o eSIM da Holafly, que, apesar de todas as garantias, ainda assim, me deixou na mão – para não perder a piada. Eu já viajei para Montevidéu e Buenos Aires, mas isso era coisa de criança. Ir para Lisboa, isto sim é coisa de adultos. Primeiro pela duração da viagem: nada de 1h30 de viagem, mas um voo direto de 9h40min. Decidir quando ir também não foi fácil; mudamos a data do voo por causa das filas da imigração no aeroporto, passando a data da viagem para três meses depois do previsto, para quando o novo sistema foi suspenso. Descobrimos perto de Alfama uma região agradável de moradias, São Vicente, cujos prédios nada devem à arquitetura do Baixo, com seus três andares e escadas de madeira. Falarei disso nos próximos ensaios.
No aeroporto Salgado Filho, vivo por instantes momentos como os descritos por Alain de Botton em seu Uma semana no aeroporto (Rocco, 2010). Botton ficou uma semana no aeroporto de Heathrow, entrada e saída de Londres, vendo como se dão as esperas, chegadas e partidas. “Basta observar para ver o quanto um aeroporto diz sobre nós e o mundo que criamos”, diz. Como ele, na espera de meu avião para ir para Lisboa, também transitava entre as salas de embarque, terminais de check-in e restaurantes do aeroporto. Só não visitei os galpões onde se consertam as aeronaves como ele fez. Quem entra na fila para entregar as malas enturma-se com os viajantes. Olho à minha frente e vejo um passageiro com as malas plastificadas. “É preciso cuidar-se dos que fazem verdadeiras cirurgias no depósito dos aeroportos, abrem suas malas para colocar drogas. Por isso plastifiquei. Se entrar com drogas em Lisboa, você é preso”, ele me diz. Pronto, é o suficiente para eu ir lá no prestador desse serviço no aeroporto, pagar 400 reais para plastificar minhas malas de um vermelho chamativo para viajar e não correr o risco de ser preso ao chegar por tráfico internacional de drogas.
A entrada no avião é um desses momentos da viagem que faz a alegria dos discípulos de Karl Marx, como eu, pois é sempre o lugar onde vemos a luta de classes: vejo a primeira classe, a Premium, e os outros, ainda que os outros, os da Econômica, também sejam divididos. É que eu sou classe econômica, mas sou Plus, e por isso tenho direito a ter mais dez centímetros de espaço entre as pernas do que os outros da mesma categoria. Isso que é ser privilegiado! O avião em que vamos é o primeiro Airbus A330-900neo que conheço. Eu viajava nos aviões da TAM Airbus A330, um avião de um corredor e 140-220 passageiros e com motor da classe CEO. O que vou agora é um dos 19 que a TAP possui em operação, prevendo a chegada de mais dois até 2028. Ele tem dois corredores e capacidade de 298 passageiros, sendo 34 na Executiva e 264 na Econômica. Possui motores Rolls-Royce Trent 7000 e, portanto, maiores que os da classe CEO. Não sei por quê, sinto-me mais seguro por isso. Estou na classe econômica, mas, como estou nas fileiras dianteiras, tenho mais espaço. Mais moderno e mais econômico, exatamente como sonha a indústria.
Passando voando… pela imigração!
As quase 10 horas de viagem passam rápido; você teme quem tosse ao lado, acha inconveniente quem fica na sua frente com fones de ouvido rindo desesperadamente. Se houve no fone, deveria ser silencioso, não? Há leve trepidação e tudo você acompanha pela TV de bordo. Chegamos em Lisboa, mas o desembarque provoca nova decepção. Eu sabia que teria fila. Duas horas de espera, pouco perto da crise de janeiro. Mas o pior foi a passagem na imigração com as duas pastas arrumadas, respostas ensaiadas, documentação reunida. O policial olhou silenciosamente minha pilha de pastas. Ele olhou seu relógio, pois estava perto de encerrar seu turno. Perguntou só duas coisas: motivo da viagem e dias. Nada mais. Nada. Pegou seu casaco dependurado e saiu da cabine. E assim se foram 1 hora preparando duas pastas, duas horas de fila para trinta segundos de imigração.
Passada a imigração, vamos pegar as bagagens. Tudo ok, mas, na saída, eis mais uma ironia do destino: as malas vermelhas protegidas para não colocarem drogas na ida para não sermos presos pela Polícia Federal Portuguesa são as que chamam a atenção das autoridades. Sou selecionado para raio-X. Pronto. Se tu queres te proteger de ser preso por tráfico, é preso por ser chamativo. No mundo em que a imagem manda, uma bagagem plastificada chamativa é um perigo. Quem não deve não teme e passamos. Pego um translado do aeroporto para o apartamento. E claro, não foi nada fácil, pois, mesmo contratado, após mais de duas horas de espera na fila da imigração, descubro que há limites de tempo para usar o táxi cortesia do Booking. Resultado: perco a cortesia e tenho de pagar vinte euros para o motorista, o que descubro depois ser meu primeiro roubo em terras lusitanas. Valeu a pena: tive na viagem o diagnóstico de Lisboa, pois o motorista era um dos raros brasileiros. Ele me diz que Lisboa é uma cidade histórica bonita, mas é decadente. Hoje quem tem apartamento não faz sua manutenção. Ele veio nos bons tempos, dez anos atrás. Agora Portugal está igual ao Brasil: políticos corruptos, deterioração da saúde. A diferença é que Lisboa, diferente de Porto Alegre, virou uma imensa Airbnb. Aumentam os preços dos aluguéis ano a ano, expulsando os moradores. Para ele, Portugal é um país que vende uma imagem, mas, por dentro, é outra coisa. Como não comparar com o Brasil das propagandas da Embratur? Chego no meu apartamento. A moça que me entrega as chaves diz que ainda tem 15 entregas naquele dia. Tudo é muito rápido. O apto. é bom. Nos instalamos. Mas o motorista estava certo: falta manutenção. Há rachaduras nas paredes. Damos um pequeno passeio e descansamos.
As primeiras impressões
À noite, vejo a notícia de demolições de casas na região do Talude, Lisboa. A moradora diz: “Eu sei que o terreno não é meu, mas preciso de um lugar para viver.” Outras reportagens falam da especulação imobiliária do Airbnb, que pega imóveis e aumenta os aluguéis; de filhos que não saem mais da casa dos pais e de outros que falam da felicidade de terem comprado seu imóvel há cinquenta anos e, por isso, terem um imóvel seu. O noticiário é da RTP1. Ele coincide com matéria do jornal do meio-dia, que também fala disso. Viajei e olho pela janela e penso: agora eu estou no meio disso tudo. Logo agora, quando tenho condições de viajar, viajo em um contexto diferente do que era no passado. Se antes as pessoas ficavam em hotéis, hoje ficam em Airbnb. E, por isso, a massificação do turismo da qual participo expulsa e gentrifica as moradias.
Estou no bairro São Vicente, um pouco mais afastado de Alfama, mas ainda em área turística. O problema não é a violência contra o turista. No pequeno passeio que faço, descubro uma rede de prestadores de serviço ao meu redor: os armazéns falam árabe, hindi e outras línguas. A única língua comum é a da desigualdade, pobres de um lado sobrevivendo como podem e ricos de outro lado – ou não tão ricos como eu – turistas ingleses, franceses, japoneses, alemães e brasileiros. Eu estou viajando para conhecer um lugar que nunca tive oportunidade de ir, mas, de novo, me encontro com as contradições do capitalismo de plataforma que critico, como Booking, Airbnb e Uber. É terrível ver o quanto estamos perdendo essa guerra contra a precarização capitalista urbana. Democratizar o turismo não deveria ser assim, massificá-lo, e nem viajar deveria ser à custa da precarização dos seus moradores, que são obrigados a deixar suas moradias. Pronto, cheguei a Lisboa e já me sinto culpado.
Todos os textos de Jorge Barcellos estão AQUI.

