Será que existe alguém que vai chegar à velhice sem sofrer algum trauma emocional?, me pergunto.
Os mais recentes traumas que sofri foram dois. O primeiro: um acidente de carro na rodovia. Eu dirigia quando o pneu estourou em alta velocidade, me fazendo perder o controle, o que culminou em uma colisão quase frontal. Eu, Luigi e nossa cachorra Sol estávamos os três de cinto, o que salvou nossas vidas. Só havia uma pessoa no outro carro, que também sobreviveu. Mas esse fatídico dia me marcou, deixando sequelas emocionais que até hoje, quase quatro anos depois, não foram superadas. O completo descontrole causado por fatores aleatórios não me deixou espaço para entender e consertar o erro, que, afinal, não foi inteiramente meu. Caso fosse, seria mais fácil compreendê-lo para não repeti-lo e seguir em frente.
O segundo veio logo depois: uma chefe dissimulada e cruel que me causou um quase burnout e muito, muito estresse, deixando cicatrizes. Desde então, desconfio mais das pessoas e me sinto fechada a novas amizades. Afinal, pessoas, assim como decisões, também são portais: algumas para o céu, outras para o inferno.
O trauma gera uma resposta emocional para que continuemos sobrevivendo apesar dos perigos externos, um instrumento primitivo de defesa do nosso corpo. Quando nossos ancestrais eram atacados por outra tribo e sobreviviam, adquiriam medo e reações de luta ou fuga para quando se deparassem novamente com seus inimigos e, assim, resistiam. A questão é que agora nosso sistema nervoso não consegue distinguir um perigo real de uma mensagem de trabalho ou de uma notícia de um fato ocorrido do outro lado do mundo, o que nos mantém o tempo todo tensos.
Ouvi em um podcast recentemente que um evento traumático é capaz de alterar como nosso cérebro funciona: ativa um mecanismo que faz com que muitos passem a viver de maneira radicalmente diferente após a situação experienciada. Pessoas que eram felizes, abertas, que buscavam melhorar a vida e ajudar o próximo, passam a procurar formas de evitar ou anestesiar a dor, e assim podem se isolar e se afogar em vícios como álcool, drogas, comida, telas. Portanto, parece que estamos fadados a sucumbir e morrer ainda em vida, à mercê do que vier a nosso encontro. E isso, pra mim, é aterrorizante, porque significa que não temos controle sobre a nossa própria sanidade.
Então me lembro da minha professora de yoga, Ana Brites. Em uma das nossas muitas conversas pós-aula, ela me apresentou ao conceito de Atma: a essência mais profunda e imutável de cada indivíduo, que transcende o corpo e a mente. Não é algo que se conquista ou se constrói; ela já existe em nós, incondicionalmente. O trauma pode adoecer nosso corpo e distorcer nossa percepção do mundo e dos outros, mas o Atma é aquilo que nenhum acidente, nenhuma perda consegue tocar. É o observador silencioso que existe por baixo de tudo, por baixo do medo, da raiva, da vergonha, da dor. Como uma pedra no fundo do mar, que não se move enquanto as ondas agitam a superfície.
Refletir sobre essa ideia me trouxe esperança. A sensação de que, por mais que os acontecimentos externos me transformem – e eles transformam -, há algo que permanece, que não pode ser tirado de mim. E meu voto, para mim e para você, é este: que, apesar dos traumas que inevitavelmente virão ao nosso encontro, eu continue sendo eu, e você, sendo você.
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