
Queria poder te contar das saudades que sinto. Da solidão que é alcançar um jeito de se enxergar e enxergar a total falta de controle que se tem sobre si próprio e, por isso mesmo, estar mais no controle do que nunca, ainda que cansada. Queria poder dizer que mudamos e que nada mais nos impede de ficar juntos além da nossa teimosia e do nosso cansaço. Queria poder te dizer que enxerguei tuas metamorfoses, ainda que tu as tivesses sempre escondido de mim. Nos conhecemos como ninguém mais e, ainda assim, somos o maior mistério um para o outro.
Minha bolha estourou e todo o líquido que ali trabalhava para cuidar de uma pele ainda não pele, um projeto de pele virgem, sensível demais para estar exposta a oxigênio, se esvaiu pela minha mão. Eu quis bebê-lo para que minhas carnes de dentro também pudessem ser cuidadas. É preciso cuidar da pele estourada, mesmo que não contenha mais o líquido curativo. Ainda assim, a presença dela ali protege a pele virgem.
Queimamos tudo, não é mesmo? As cinzas não se mostram assim de cara.
Queria poder te contar das belezas que tenho lido, das dores que têm me acontecido, das feridas que tenho sarado. Existe um momento atual de solidão em minha companhia que tu não acreditarias, eu que sempre fui do barulho. Uma amiga perdeu o pai hoje. Ela mora no exterior e a morte dele parece que foi repentina. Instagrams têm sido os novos obituários. Fiquei pensando na dor dela à distância e onde doem essas dores indizíveis. Semana passada foi aniversário de morte da minha mãe e fui pensando no quanto me parece hoje que os aniversários de sua partida têm me sido mais marcantes do que os de seu nascimento. É a partida dela que vai ficando mais velha, mais madura, mais experiente. A chegada dela parou no tempo. Ela congelou nos 61 e sua partida ainda é uma adolescente de 14 anos em plena puberdade, mudando de corpo. Assim como uma mãe, tento entendê-la, conectar-me com ela e ouvir suas angústias. E, ainda assim, como na vida, ela me ensina muito mais do que comigo aprende.
Queria poder te contar tudo que vem acontecendo comigo, essa solidão interessante que independe das companhias. Queria que tivesses amigas confidentes como eu tenho. Poucas e mergulhadoras como eu. Talvez o mais correto seria dizer praticantes de saltos ornamentais ou nado sincronizado. Quem vê aquele balé e sincronia por cima da superfície não vê a força e a bagunça que ficam debaixo d’água. E elas me levam para nadar com elas e eu as trago para os saltos comigo. Ainda que nossas piscinas nunca sejam as mesmas.
A água do meu ferimento me lembra de eu prestar mais atenção à minha mão. À minha mãe, a ser minha mãe. Sou um líquido amniótico sem ventre definido, gestando uma bebê. Não há cordão, não há batimentos, nem esforço. Há queimaduras, movimentos na barriga, vida nova por chegar.
Quem sabe um dia eu ainda te conto.
Todos os textos de Luciane Slomka estão AQUI.

