
Estando em plena época eleitoral, acompanhando inclusive a recente vitória do partido neonazista alemão, semana passada, tenho que reconhecer que o crescimento da ultradireita é um fato. Esta constatação se dá via o incômodo de aceitar que, nos grupos de WhatsApp da família, do condomínio e do trabalho, pessoas que conhecemos racionalmente apresentem algum argumento em defesa de pautas e noções radicalmente conservadoras.
Tentando acionar uma chave de interpretação diante dessa realidade, me vem à mente uma máxima atribuída ao filósofo alemão G.W. Hegel, que reza algo do tipo: a racionalidade é o que se efetiva, o que se efetiva é a racionalidade.
Primeiramente, acho ingênuo atribuir às (nem tão) recentes mídias sociais e aos aplicativos de bilhetinhos eletrônicos (WhatsApp, X/Twitter) o poder de converter as consciências. Pois não vejo poder de formação dessas novas tecnologias. Constato isso quando me dou conta de que não dá para argumentar com profundidade via mensagens de zapzap. Nesses “espaços”, não se troca ideias. Então, cabe perguntar: onde estão se dando as experiências que formaram as retrógradas visões de mundo engordadas pelos memes, fake news e trolagens veiculados nas mídias sociais?
Assim, tentando responder conforme a dica de Hegel, devemos olhar para a efetividade das experiências vividas em sociedade, procurando identificar a racionalidade que se constitui. Isto é, as práticas reais e concretas que engendram o conjunto de “razões” que determinam a ação e o gosto dos sujeitos.
Neste sentido, a resposta para a pergunta acima é simples e já conhecida: as experiências que formaram essas visões de mundo (racionalidades) se dão nas igrejas, escolas, universidades, imprensa, na mídia de entretenimento… Posto que já faz muito tempo que os discursos recorrentes nas Igrejas Cristãs (de neopentecostais a católicos carismáticos) são de “vitória sobre o inimigo” e bênção como riqueza material. O “inimigo” é o “coisa ruim” e qualquer modo do que se acredite ser sua expressão: o comunismo, a ideologia de gênero e outras invenções. Já a bênção como riqueza, propalada, por exemplo, pela Igreja Universal, está na escala do consumismo a dezenas de degraus acima da ideia calvinista tradicional de prosperidade. Em relação às escolas e ensino superior, seus respectivos currículos são estruturas montadas prioritariamente para lançar os jovens no mercado de trabalho. Observem: não é prepará-los para contribuir com a sociedade; é prepará-los para competir nas disputas por salário, ganhos e renda. Tornam-se dispositivos de formação de ansiosos competidores, constituídos com pouca ou nenhuma sensibilidade para a dimensão social e histórica do trabalho e da produção de riquezas.
Quanto à imprensa e à mídia de entretenimento… Dispensa-se a perda de tempo com maiores comentários…
Desta forma, creio que a efetividade das experiências vividas por grande parte da sociedade brasileira estrutura um modo de racionalidade bastante peculiar e bem distinto do modo de logicidade que legitima e dá sentido aos discursos do vasto campo político republicano democrático. A extrema direita não é apenas antissistema político tradicional: ela é antirracionalidade democrática e republicana. Corresponde à extinção do espaço político comum e à extinção das relações de soberania popular. O crescimento da direita troglodita é a emergência de uma racionalidade irracional.