
Uma amiga um pouquinho mais velha com quem trabalhei me ensinou: “Pri, o diabo não é sabido por ser um gênio, o diabo é sábio porque ele é velho.” Acredito piamente neste dito. E é por isso que aprendi muita coisa com ela, que me repetia esse mantra a cada vez que me ensinava algo. E aprendi com tantos outros e, sobretudo, outras mais velhas. Aprendi muito ao ver as pessoas trabalhando, mas também com as suas histórias.
Meu avô, o amigo mais velho que já tive, me ensinou muitas das coisas das quais hoje me utilizo: escutar, escrever e ler. Tudo com muita paciência. Amiúde, enquanto ele estava trabalhando – ou tentando – eu ficava na volta. Acontece que sempre fui uma criança inquieta e que se acreditava sabida. E, como muitas, estava ávida em mostrar esse “saber”.
Uma vez, cheguei na casa dele muito entusiasmada e ansiosa para comentar que havia descoberto um erro de português em uma letra de música. Não uma qualquer, por certo.
– Vô, tem um erro de concordância na letra da música do Lupicínio.
Sem alterar o tom, ele soltou um:
– Ah, é? Qual?
– “…as rosas não falam, as rosas exalam o perfume que roubou de ti”.
Ele ainda me deu um tempo. Na verdade, uma chance. E ficou assim, sem dizer nada, por uns segundos. Até que, bem calmo, me disse:
– Que roubam, o perfume que roubam de ti.
– Ah…
Com vergonha, recolhi minha arrogância e surdez para já não perseguir mais o Lupi e o vô com essas pequenezas.
Essa anedota nunca contei a ninguém até agora, mas achei que valia. Com esse amigo, que foi meu avô, também aprendi e lapidei essa forma de comunicação que é o contar histórias e anedotas.
No âmbito pessoal, eu até gosto de saber sobre o que as pessoas assistem, leem ou escutam. Mas, para criar intimidade, de duas, uma: preciso viver coisas que se transformem em anedotas ou necessito que me contem uma bem boa. Nada supera a alegria de que me contem uma história pessoal. De preferência engraçada – melhor ainda se vexatória –, mas, principalmente, pessoal.
O valor na história vexatória é porque amizade e intimidade, para mim, é também partilhar umas vergonhas. Guardo histórias como estas para minhas amigas e amigos. É que acredito que o oposto, contar vantagens, serve mais para se defender e se distanciar das pessoas.
Só posso concluir que, nas amizades, vai mesmo um pouquinho desse pior de mim. Se não, como poderia chorar nesses ombros se eles só estivessem esperando as minhas glórias?
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