
Sou mãe há não muito tempo. Já era mãe de pet antes, mas há alguns meses sou mãe de uma filhota humana. E declaro aqui que me enganaram. Na verdade, sempre desconfiei, mas, para fazer o jogo da contente, o jogo da cultura, me deixei levar pelo pensamento mágico do “ser mãe (de humano) muda tudo”. Isso leva à ideia ingênua de que ser mãe é uma virada de chave, um botão biológico que indefectivelmente materniza tudo.
Mas não. É preciso colocar de si na experiência. Deixar-se atravessar. E, se pensarmos bem, além de mais bonito, faz todo o sentido que seja assim. Afinal, há mães e mães: maravilhosas, comuns – ou seja, maravilhosas – e horríveis. E elas, nós, estão/estamos em todas as raças, classes sociais, religiões e extratos.
Por agora, as adaptações da vida, as mudanças no olhar, nas expectativas e considerações pós-maternidade me fazem lembrar do meme do raio gourmetizador. Lembram? Aquele raio que transforma cachorro-quente numa “experiência” e quadruplica o preço.
Como funciona? É assim, você vê que tem um filme novo em cartaz. Logo vem o pensamento: quero assistir! Aí vem o raio maternizador e te lembra que você teria que arranjar alguém para ficar com a bebê por, pelo menos, 3 horas. Acontece que a bebê ainda não fica tanto tempo com alguém que não seja você, a mãe. No máximo com o pai. É aí que o raio maternizador quintuplica o valor da experiência que você não vai ter. É, você não vai. E o mais louco… Quer saber? Tá tudo certo, porque você já não quer.
O raio maternizador tem outras incidências interessantes, automáticas e úteis. Por exemplo, ele quer redecorar a casa. Só que ele não pensa na beleza e funcionalidade padrão. O raio maternizador dá o poder de só ver quinas de mesa pontudas, tomadas meio soltas, cortinas pouco firmes, estufas muito baixas etc. Ele pensa na segurança das operações mãe-bebê.
Além disso, o raio também aumenta a tolerância à repetição. E você vai cantar e ouvir Palavra Cantada em looping achando o máximo, porque a sua audiência – o bebê – acha aquilo o máximo. E é isso o que importa.
E você vai lidar com urina e cocô todos os dias como se fossem rosas. E, ainda por cima, vai ficar ansiosa para que venham: outro efeito do raio. Te deixa meio escatológica para acompanhar certas funções vitais. Mas, então, preciso me redimir com a biologia. É biológico também.
Raio maternizador. Cultural, biológico, pouco lógico, talvez, mas, verdadeiramente, aumenta e muito o valor da experiência.