
Gosto das discussões do podcast “Elefantes na Neblina” e, no episódio 127, chamou a atenção o debate sobre o recente recorde mundial de vendas de bíblias. Segundo as fontes mencionadas, em 2025 as vendas nos EUA teriam alcançado o maior nível em duas décadas, enquanto no Reino Unido teriam mais do que dobrado desde 2019. A questão, porém, não é apenas comercial: o dado provoca uma reflexão mais profunda sobre o que leva tantas pessoas a retornar à bíblia.
Esse movimento pode ser interpretado como um sinal de renovação da fé, mas pode revelar algo menos confortável: em momentos de incerteza, medo e desorientação, cresce a busca por respostas prontas ou promessa de proteção. A fé, nesse contexto, pode ser vivida como encontro, mas pode também ser usada como instrumento de controle.
O cristianismo ensina que somos todos pecadores. Essa consciência de que somos imperfeitos pode ser saudável se for um convite à revisão de vida e à responsabilidade ética. O “livrar-nos do pecado” teria o sentido de nos tornarmos pessoas melhores a cada dia, mais parecidas com Jesus. O problema começa quando esta mensagem passa a ser usada como mecanismo de culpa e submissão. Em certos ambientes religiosos, a ideia do pecado serve para manter os fiéis dependentes de um líder ou instituição que se apresenta como mediadora da salvação.
Muitas vezes, forma-se uma divisão simbólica entre “os bons” e “os maus”, “nós” contra “eles”, como se pertencer a uma igreja, cumprir os ritos e obediência aos líderes garantisse automaticamente uma proximidade de Deus. As pessoas não costumam se questionar: se eu tivesse nascido do outro lado da fronteira, seria justo ser considerado uma pessoa “do mal”?
Nesse ponto, o comportamento de Jesus é altamente subversivo. Quando ele reapareceu aos 30 anos e iniciou a sua trajetória, ele procurou as pessoas do bem que faziam tudo o que imaginavam que Deus esperava delas? Não! Ele procurou os líderes religiosos ou os poderosos? Não! Nada disso, ele procurou trabalhadores humildes, pescadores como Pedro, André, Tiago e João. Ele se aproximou dos rejeitados social ou religiosamente, como Mateus, Zaqueu e Maria Madalena. Jesus propôs a construção de um templo? Não! Pediu dízimo ou contribuições para a sua causa? Não! Ao contrário, entrou no templo e virou as mesas dos vendilhões. Criticou a corrupção religiosa que usava o espaço de oração para fazer dinheiro. Jesus dividia as pessoas entre “nós” e “eles”? Entre os do bem e os do mal? Não! Ele convivia com os pecadores, com as prostitutas e os excluídos socialmente. A sua lógica era de primeiro acolher, depois transformar.
Então, em que se baseiam os líderes religiosos de hoje que pregam que os membros da sua igreja serão salvos e os demais irão para o inferno? De onde vem esta ideia de que Jesus virá buscar os bons? Essa formulação não parece refletir a mensagem de Jesus, mas sim interesses institucionais, disputas por poder e estratégias de persuasão. Em muitos casos, o medo vende mais do que o amor, e a polarização mobiliza mais do que o perdão.
A própria Bíblia precisa ser lida como um documento histórico, dividido entre o Novo e o Antigo Testamento, com vários livros, dos quais católicos, protestantes e judeus usam os que lhes agradam. O Antigo Testamento conta a criação do mundo, a origem da humanidade, os dez mandamentos de Moisés, a aliança entre Deus e o povo de Israel e, em algumas passagens, aparece “olho por olho, dente por dente”, que hoje é interpretada por alguns como direito à vingança. Tudo voltado para um contexto muito específico, o Israel antigo. Já o Novo Testamento narra a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo e apresenta a mensagem de amor, graça e salvação. O foco deixa de ser Israel e se torna universal. Jesus condena o uso da violência e prega o amor e o perdão.
Por que algumas correntes do cristianismo preferem usar mais o Antigo Testamento? Porque lhes serve para justificar suas ações e padrões morais. Quando partes das escrituras são selecionadas apenas para sustentar poder, punição ou superioridade moral, a fé deixa de iluminar e passa a aprisionar.
Não é o aumento da procura por bíblias que deveria nos chamar a atenção, mas sim a razão desta procura. Segundo os debatedores do podcast, algo semelhante ocorreu na crise econômica de 1929. Naquela época, as pessoas também procuraram mais as igrejas e compraram mais bíblias. Em tempos difíceis, muita gente abre uma bíblia procurando consolo. O perigo está em fechá-la com mais medo do que abriu. Porque uma fé que humaniza liberta, mas uma fé que aterroriza deixa de ser esperança e se torna instrumento de domínio.
Referências:
– Elefantes na Neblina #127 – Primavera II – A missão
– Venda de Bíblias no Reino Unido e EUA bate recorde em 2025: “Busca por esperança”
– Vendas de Bíblias no Reino Unido atingem recorde histórico – Correio da Manhã.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.

