
1 – Meu avô materno tentou até o fim aprender a usar o computador. Expliquei-lhe não poucas vezes que não era tão diferente de uma máquina de escrever. Eu acho que se houvesse um aparelho dedicado, ele teria conseguido sem problemas. Passava que entre teclar os textos e sua disposição estava o Windows.
2 – Um daqueles atrasos que a humanidade deve ao azar, a um desses desvios que não ofertam nem praticidade, nem beleza.
3 – Seguidamente me vem a desistência do meu avô em se atualizar. Este ponto camoniano em que já não se muda mais como soía.
4 – São muitos os aparatos que há de dominar nas últimas décadas. E talvez nossa consciência seja moldada apenas por aqueles que mais nos marcaram, que estiveram conosco por um tempo decisivo.
5 – Muitos como eu ainda veem o avançar e o retroceder de imagens acompanhados pelos ruídos da fita VHS, suas linhas horizontais sobre as cenas, a precisão de um trecho marcada no contador analógico, aqueles quatro cilindros numerados que não poucas vezes emperravam.
6 – Para muitos as músicas seguem sendo faixas, ainda que hoje estejam condensadas em invisíveis bits.
7 – E quem há de negar que isso molda nossa experiência sensorial, a maneira como estamos no mundo.
8 – Quem viveu na resistência das teclas de uma máquina de escrever, em sua sonoridade de tacos finos num imenso assoalho, como poderia se adaptar ao sopro plástico dos teclados do computador.
9 – De maneira que talvez não seja apenas o horroroso Windows o que desanimou meu avô.
10 – Carros elétricos, IAs, uma cultura inteira de vídeos curtos e danças sem balé.
11 – Camões está certo. Envelhecemos quando deixamos de mudar ao natural e nos espantamos com as mudanças.
12 – Resta o consolo de ser old school. Não está mal. Ao menos não é preciso pagar a multa da locadora porque meu irmão nunca rebobinava as três fitas para entregar segunda que marcaram nossos fins de semana.
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