
Amiga querida, mal agosto começou e, em meio aos compromissos e acontecimentos do cotidiano, nos permitimos parar e revisitar o que vivemos. São instantes que se farão sempre presentes em nós por terem sido repletos de aprendizados, de amor compartilhado com generosidade e da lembrança eterna da sua presença, mesmo após três anos da sua partida.
Olhando para trás, já tínhamos passado pela perda de outros amigos, alguns muito próximos, outros um pouco menos, e de familiares de pessoas queridas, ausências que sempre pareceram difíceis de superar. E sabemos que, ao longo da caminhada, outras perdas vão acontecer. Mas o seu amor e a sua determinação frente à vida representaram um enorme ensinamento. A forma leve e corajosa como você se preparou para o seu momento não apenas nos amparou, mas nos transformou, trazendo para todos nós um entendimento muito maior do que poderíamos imaginar e uma compreensão, ao longo do tempo, mais pacífica sobre a responsabilidade de se decidir sobre crenças e valores.
Se pudéssemos estar à sua frente, neste exato instante, vendo seus olhos brilharem enquanto sua voz firme e repleta de doçura nos trouxesse palavras de incentivo, seria muito provável que tivéssemos novos momentos amorosos e de conforto, em que você nos ensinaria a transformar adversidades em experiências, com palavras resgatadas da essência do que você sempre acreditou e viveu.
Tenho certeza de que você começaria a conversar conosco, dando a sua própria mão à palmatória, nos lembrando de que a vida nos ensina algo em cada curva do caminho e que o tempo é um presente precioso demais para ser vivido no modo automático. Você mesma nos confessaria o quanto precisou pausar atividades ao sentir o seu corpo e a sua mente darem sinais claros de como o ritmo havia ultrapassado a medida.
Ouviríamos atentos o seu relato deste período delicado de saúde, em que aprendeu a avaliar decisões com profunda gratidão e se deu o direito de olhar para dentro de si para se cuidar e ressignificar prioridades. O tempo da descoberta foi curto, mas suficiente para nos ensinar a tratar os outros com profunda solicitude ao lidar com outras situações inquietas e semelhantes.
Aprenderíamos sobre o valor do autocuidado diante das incertezas, a colocar limites com sabedoria, a dizer “não” para os excessos e “sim” para o que importa. Você nos lembraria de que não precisaríamos carregar o mundo nas costas nem manter uma aceleração constante para gerar impacto real. O segredo estaria no reconhecimento da presença, na entrega generosa, em atuar de forma qualitativa e que nos guiaria nas causas em que acreditamos.
Todos nós sorriríamos com você ao ouvi-la afirmar que a vida é um convite diário à celebração e que merecemos nos dar o direito de viver momentos simples, dar boas risadas, desfrutar de conversas afetuosas e acolher cada novo ciclo com entusiasmo, alegria e serenidade. Você nos incentivaria a trilhar esse caminho com propósito e afeto, a seguir em frente com firmeza e leveza. Fecho meus olhos e consigo imaginá-la nos chamando de queridos amigos e parceiros de jornada, compartilhando sugestões de comportamento, conselhos sobre prudência e exemplos de atitudes equilibradas para buscarmos a sensatez, lembrando-nos de cuidarmos uns dos outros com empatia, verdade, coragem e, sobretudo, amor à vida. Seguimos juntos na memória e no coração.
Compreender que a ausência não é o fim do afeto, mas a sua continuidade em forma de gratidão, foi o que mudou o nosso rumo. Olhar para o espaço que ficou e ver a beleza do que foi construído nos dá a certeza de que podemos viver o presente com a mesma coragem que você teve e nos lembrarmos sempre: não do que você deixou para nós, mas do que fica em nós.
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Isabel Carvalho-Kristin é administradora, especialista em projetos sociais e culturais; artista visual; gestora de negócios em arte e design na Kristin Gallery e mentora de processos funcionais para empreendedores criativos.