
No sábado, dia 25 deste abril de 2026, completaram-se 42 anos da rejeição da emenda constitucional que restabelecia as eleições diretas no Brasil. Rejeitada por pouco. Faltaram apenas os votos de 22 deputados federais para que a PEC fosse aprovada e enviada ao Senado. A chamada emenda Dante de Oliveira – nome do deputado autor da proposta – teve 298 votos a favor e precisava de 320.
A rejeição da emenda foi o penúltimo suspiro da então quase finada ditadura imposta ao Brasil desde 1964. Pressionados, os militares ainda forçavam a barra contra o movimento popular que defendia a restauração da democracia. Em 1983, cresciam em todo o Brasil as manifestações em defesa da redemocratização. Brasília participava.
Volto àquele ano, o terceiro da minha vida em Brasília. Era um sábado, 17 de dezembro. Tínhamos, na Rede Globo, um sistema de plantão alcançável para as chefias, que não precisavam estar na redação, mas eram obrigadas a estar em lugar de fácil localização para qualquer eventualidade.
Como em todos os fins de semana, saí de casa para ir ao Clube da Imprensa, onde passaria boa parte da manhã correndo atrás de uma bola na esburacada quadra de cimento do nosso futebol de salão. Por descargo de consciência, resolvi dar uma passada na redação para ver se estava tudo calmo.
Não havia nada de muito extraordinário na agenda daquele dia. Uma solenidade qualquer no Setor Militar Urbano e, sem confirmação oficial, a provável libertação dos padres franceses Aristides Camio e François Gouriou, ligados às Comunidades Eclesiais de Base, presos desde 1981 sob acusação de incitarem posseiros contra grandes proprietários de terras. Camio fora condenado a 15 anos de cadeia. Gouriou a 10 anos.
Pois então… naquele sábado, eu não joguei a minha pelada… Uns 15, 20 minutos depois de chegar na redação, toca o telefone na minha mesa. De um orelhão (telefones públicos, jovens, telefones que usávamos na rua no século passado), a repórter Beatriz Thielmann, com voz assustada, dizia a frase que viraria manchete: o general Newton Cruz agrediu um repórter!
Como agrediu? Ofendeu?
Não! Agrediu! Deu um tapa!
Foi assim… No final da cerimônia militar, os repórteres cercaram o general Newton Cruz, então comandante militar do Planalto. Ele tinha sido o executor das medidas de emergência decretadas pelo general-presidente João Figueiredo dois meses antes, em outubro de 1983, para reprimir as manifestações e o movimento Diretas Já.
Brasília tinha passado 60 dias sem direito de reunião com os meios de comunicação sob censura, a cavalaria da PM contra protestos populares. Até a sede da OAB/DF foi invadida por agentes da repressão.
O general dizia aos repórteres que a capital federal tinha passado dois meses de muita tranquilidade, quando o repórter Honório Dantas apartou e perguntou se ele estava pedindo que esquecessem as emergências.
O general, irritado, mandou o repórter calar. Honório desligou o gravador – um daqueles enormes National de antigamente – se afastou um pouco e voltou a gravar: acabo de ser empurrado pelo general…
Newton Cruz ouviu. Os ajudantes de ordem correram, pegaram o repórter e o entregaram ao comandante. Aí, cresceu a valentia do general, como você pode ver aqui. Dá para ouvir a Beatriz Thielmann orientando o cinegrafista Nilson Chagas em meio ao tumulto.
Mas, enquanto no Setor Militar Urbano rolava a tentativa do general de demonstrar ainda alguma força da ditadura, na Superintendência da Polícia Federal, no Plano Piloto, um fato atestava a força dos movimentos em defesa da volta da democracia.
Naquela mesma hora, os padres François Gouriou e Aristides Camio eram libertados por ordem da Justiça.
Editamos a briga general x repórter e geramos para o Rio. Com toda a pressão exercida pela censura, na redação da Globo chegou a pintar um bolão: O JN vai dar? Vai dar tudo? Só uma nota?
O material teve destaque no JN naquele sábado. A edição feita em Brasília foi incrementada com legendas pelos editores no Rio. Festa na redação em Brasília. Os padres franceses viraram nota na TV e quase ficaram invisíveis nos jornais do dia seguinte.
Os fotógrafos das sucursais foram deslocados para registrar a soltura dos missionários. Os jornais não tinham nada da agressão do general. A solução foi fotografarem, na redação da TV Globo, as imagens do Nilson projetadas em monitores…
Pronto! Os movimentos pela redemocratização tinham mais dois fatos para fazer crescer a mobilização antiditadura. E é aí que a briga do repórter com o general, de trágica, vira quase cômica.
O sindicato dos jornalistas do Distrito Federal, como era de se esperar, convocou assembleia geral de desagravo ao jornalista agredido. No dia aprazado, assembleia com enorme quórum; até o Castelinho – o grande Carlos Castelo Branco, colunista do JB – estava lá.
Depois de vários discursos inflamados e bem fundamentados contra o governo militar, chegou a hora de dar a palavra ao protagonista da noite. Chamaram Honório Dantas ao microfone. E o herói vira vilão…
Fala o Honório:
Meus irmãos! Eu sou cristão. Aprendi a dar a outra face. Já perdoei o general!!
Silêncio maior do que o imposto pela censura das medidas de emergência do general Figueiredo executadas por Newton Cruz. E a assembleia foi se esvaziando…
Uns dois dias depois daquela triste assembleia. O repórter e o general estiveram, outra vez, cara a cara. Trocaram amabilidades ao vivo num programa de TV. Honório presenteou Newton Cruz com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida… E, alguns anos depois, o repórter voltou a aprontar… Durante uma greve de jornalistas, ele foi visto jogando laudas por cima do muro do grupo onde trabalhava, cumprindo jornada dupla na rádio e no jornal…
Alguns meses depois, em 25 de abril de 1984, a ditadura conseguia sua última vitória no Congresso Nacional. A Câmara dos Deputados enterrou a emenda das diretas.
Mas a alegria durou pouco. Uma dissidência no PDS, liderada por José Sarney, ajudou na formação da Aliança Democrática, que permitiu a formação da chapa Tancredo Neves/José Sarney para derrotar, em 15 de janeiro de 1985, a chapa Maluf/Flávio Marcílio, no colégio eleitoral, por 480 votos contra 180.
Neste ano, comemoramos 41 anos (1985/2026) de democracia. Teremos a 10ª eleição direta seguida. Nessas reminiscências, lembrei de fatos mais recentes a mostrar que os autoritários andam, sempre, por aí a intimidar jornalistas, como você pode ver aqui.
O general Newton Cruz nunca foi preso. Ele mandava prender. O Messias autoritário do século 21 está preso por atentar contra a democracia. Ele quis mandar prender, mas, na democracia, não é o querer de um que vale. É a vontade do povo…
Só não se pode baixar a guarda. Afinal, gente que, naqueles anos 80 do século passado, combatia o autoritarismo, hoje defende os novos autoritários (saudosos da ditadura e dos ditadores) e pede a libertação dos golpistas de 2023.
A eleição deste ano é um pouco sobre isso: vamos entregar o país ao pessoal que age como agiam os ditadores do século passado?? Vamos deixar voltar o pessoal saudosista dos generais, da tortura, da censura?
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