
Prezada COMPESA,
Sei que vocês são especialistas em buracos, com uma grande expertise técnica em abri-los, especialistas, sobretudo, na barulheira noturna que são capazes de produzir ao abri-los e nunca fechá-los: a responsabilidade é da Enlurb, da Secretaria de Obras, dos coveiros de cemitério…, arte que vocês praticam com maestria nas ruas e avenidas de nossas cidades; buracos, aliás, de dimensões vulcânicas, onde cabem carros, motocicletas, indignações, reclamações e de onde escorre aquele esgotinho escuro, de odor tão conhecido dos pernambucanos e decantado pelos poetas das profundezas inferiores!
É exatamente a respeito de sua expertise em buracos que venho, humildemente, solicitar ajuda. Ao longo de minha vida — da longa avenida de minha vida —, olhando pelo embaçado retrovisor da memória, percebo que ficaram abertos, exalando um odor de incompletude, de lacuna, de dívida, de imperfeição, buracos de tamanho e profundidade variável. Gostaria, claro, de repavimentar a estrada de minha existência com a gratidão, o reconhecimento, o ressarcimento e o perdão a quem sou devedor. E sei também que, embora Vossa expertise técnica seja em abri-los, penso que é exatamente aqui onde nossas competências se encontram: também soube abri-los e gostaria agora de começar a fechá-los! Declaro que já consultei a Enlurb, a Secretaria de Viação e Obras, a Infraestrutura Urbana, mas eles disseram que eu deveria me dirigir a vocês. E silenciaram! Um silêncio tão profundo quanto, desculpe a comparação, certos buracos que vocês escavam e que ficam, digamos, “a céu aberto”. Confesso que gosto dessa última expressão, uma vez que ela me dá a esperança de que, saído das profundezas de cada buraco, há sempre a possibilidade de redenção: um “céu” que me espera aberto, compreensivo e generoso!
Que tipo de buraco? Ah!, de todo tipo: buracos intelectuais pelos livros que nunca li e não terei mais tempo; arrependimento por não ter aprendido piano como deveria; buracos afetivos produzidos pelos amores que deixei ou em que fui deixado; buracos na alma pelos amigos que perdi, pelos professores que se foram; buracos de compreensão pelo que nunca entendi; buracos na renúncia e covardia diante do que não soube enfrentar; pelas perguntas de meus alunos que não soube responder. Cada um desses buracos exala eflúvios que só eu mesmo sinto e sei identificar, no tempo e no espaço: sei exatamente em que rua, viela, esquina eles se encontram. Posso até ajudar — caso vocês se interessem pelo meu caso — seus funcionários a medir o tamanho e a profundidade deles, o tempo em que estão lá, a dor que provocaram. Vocês sabem muito bem que há buracos em que cabe um carro inteiro dentro; penso que há buracos em que cabe uma vida inteira, mas espero que não seja o meu caso: confio no diagnóstico de seus funcionários.
Peço, assim, encarecidamente, que os Senhores façam esse gesto de solidariedade asfáltica, pavimentar ou paralelepípeda para que eu possa continuar a viver sem me lembrar do quanto uma vida pode ser… esburacada!
Atenciosamente…
Resposta da COMPESA
A COMPESA agradece ao Sr. Flávio Brayner, que nos envia carta para informar sobre a ocorrência de buracos em sua existência, danificando sobremaneira a visão que ele tem de seu passado, um passado, diga-se, mais perto da caixa de esgotamento do que do registro de luz, e que não é de nossa responsabilidade.
Estamos enviando uma equipe aos locais e tempos onde o Sr. Flávio afirma ter observado aquelas lacunas, buracos, ausências na “avenida” de sua vida, mas desde já afirmamos que a competência para reparar tais danos não é nossa, como sempre dizemos em nossas respostas: suspeitamos que o Sr. Flávio, no correr de sua vida, foi deixando brechas, rachaduras e trincas na sua relação com os outros e com o mundo que, talvez, seja necessário mais do que um trabalho de reparação asfáltica — que não é de nossa responsabilidade: como todos sabem, nossa tarefa é trazer à luz os subterrâneos da cidade e expô-los a céu aberto. Trata-se de um trabalho semelhante ao da psicanálise, em sua arqueologia do inconsciente: nós trazemos as pulsões residindo no “esgoto” metafórico da cidade à consciente luz do dia. Desejamos que o Sr. Flávio, faça o mesmo, trazendo à luz de sua própria consciência sua caixa de esgotamento existencial.
Atenciosamente…
PS. Confesso que adorei a resposta da COMPESA, sobretudo na passagem sobre a “psicanálise urbana”, escavando a alma da cidade!
Todos os textos de Flávio Brayner estão AQUI.

