
“Meu programa é muito melhor do que o seu.”
Esse é um meme de eleições passadas que continua circulando até hoje. E, infelizmente, ainda parece retratar boa parte do debate político que oferecemos aos eleitores.
Respostas vagas, discursos bem ensaiados, frases de efeito que desfilam diante das câmeras, mas que, quando terminam, não deixaram nenhuma proposta concreta.
Às vezes, isso ainda é o melhor que conseguimos assistir.
Porque há momentos em que o debate desce mais alguns degraus e se transforma em uma disputa para descobrir quem tem mais podres do que o outro. Acusações graves se misturam a denúncias oportunistas. Corrupção, incompetência, erros, suspeitas e estratégias para desqualificar adversários aparecem quase no mesmo pacote.
E nós, eleitores, ficamos tentando separar o que realmente importa do que foi produzido apenas para destruir a imagem de alguém.
Sinto falta de ouvir propostas. Estratégias, em vez de xingamentos. Possibilidades, em vez de desqualificação pessoal.
Não precisamos de candidatos que saibam tudo. Aliás, estou em uma fase da vida em que valorizo cada vez mais quem tem a honestidade de reconhecer que não sabe.
Mas precisamos de representantes capazes de pensar.
Pessoas que conheçam os problemas, tenham estudado possibilidades, debatido alternativas e estejam dispostas a defender ideias — e também a explicar como pretendem colocá-las em prática. Quando falo em pessoas preparadas, não estou falando necessariamente de formação acadêmica. Diploma, sozinho, nunca foi garantia de comprometimento. Já encontrei lideranças comunitárias muito mais preparadas para compreender seus territórios do que muitos ocupantes de cargos públicos importantes.
Talvez nos faltem menos corredores de ocasião e mais maratonistas. Porque uma coisa é vestir o equipamento, posar para a fotografia e falar sobre a corrida. Outra é saber o quanto custa chegar ao final. Precisamos de gente que conheça o esforço necessário para transformar uma ideia em realidade.
E, principalmente, precisamos desconfiar das certezas vazias.
Mas como mudar a fórmula dos debates atuais?
Existem tentativas. Algumas incorporam novos formatos, perguntas de instituições e participação da sociedade. Mas, no fim, quase sempre voltamos ao velho modelo do confronto.
Dois candidatos. Um contra o outro. Uma frase para atacar. Outra para responder. E, no dia seguinte, os melhores momentos transformados em cortes para as redes sociais. A preocupação passa a ser quem “lacrou” mais. Não necessariamente quem explicou melhor.
Foi justamente depois de sair da peça The Jury que comecei a imaginar que poderia existir outra maneira. O que mais me encantou no espetáculo não foi apenas sua interatividade.
Foi outra coisa.
A possibilidade de mudar de ideia.
Ou, pelo menos, de ter menos certeza.
A peça começa com uma explicação breve da denúncia, apresentada pelos dois lados. Em seguida, a plateia vota.
Quem é a favor?
Quem é contra?
A decisão inicial é registrada. Depois começa o julgamento. Testemunhos, acontecimentos, dados, evidências, argumentos. A história vai ficando mais complexa. E, ao final, a plateia vota novamente.
Foi aí que aconteceu algo que considero um pequeno sopro de esperança.
Os números haviam mudado. Algumas pessoas tinham mudado de posição. Outras continuavam com o mesmo veredito, mas já não pensavam exatamente da mesma maneira. Porque tinham compreendido melhor os argumentos do outro lado. E havia algo ainda mais interessante: as pessoas conversavam entre si.
Com quem já conheciam. Com quem acabavam de conhecer.
Sem tanta certeza assim.
Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis da vida pública: compreender que conhecer mais não necessariamente nos torna mais certos. Às vezes, apenas nos torna mais conscientes da complexidade.
Saí encantada.
E feliz por ter assistido à peça com meu filho. Ao final, votamos de maneira diferente. Mas isso não parecia um problema. Cada um conseguia compreender melhor a posição do outro.
Uma pequena aula de cidadania.
Outro aspecto que me chamou atenção era a possibilidade de a própria plateia escolher o tipo de pergunta que seria feita ao réu. As perguntas, previamente elaboradas, tinham naturezas diferentes: pessoais, técnicas, estratégicas ou legais.
A plateia definia o caminho. E isso fazia com que o debate respondesse às dúvidas que realmente interessavam às pessoas.
Saí pensando nos nossos debates políticos.
Em um dos primeiros debates que tentei acompanhar do período eleitoral, achei interessante a participação de entidades, instituições e organizações trazendo perguntas.
É um avanço.
Mas perguntar melhor não adianta muito se continuamos recebendo respostas que não permitem compreender o que realmente será feito. Temos muito a melhorar. Fiquei imaginando debates mais interativos. Debates temáticos nos quais os candidatos apresentassem claramente suas estratégias para diferentes problemas. Mobilidade, políticas públicas, estratégias de desenvolvimento econômico, moradia, etc.
O que pretendem fazer?
Como?
Com quais recursos?
Em quanto tempo?
Quais são os riscos?
O que pode dar errado?
E, principalmente, como saberemos se deu certo?
É isso que todos gostaríamos de saber. E, se não for respondido, o público vota por uma nova explicação.
Porque, sem objetivos claros, não conseguimos discutir resultados.
E, sem resultados, também não conseguimos cobrar metas.
Sem metas, a política vira torcida.
E aí caímos naquela velha lógica de um Grenal que termina em briga.
Uma vergonha para todos.
Talvez porque estejamos perdidos.
Torcendo por personagens.
Torcendo por partidos.
Quando deveríamos estar escolhendo projetos.
Nossa comunidade, nossa cidade, nossa economia e nosso meio ambiente enfrentam problemas complexos demais para caber em frases de efeito.
Não precisamos concordar em tudo.
Precisamos, pelo menos, conseguir compreender as propostas, os argumentos, as virtudes e os riscos de cada caminho. Aprender no processo. Porque bons debates são educativos.
Uma escolha democrática não precisa ser consensual.
Precisa ser informada.
Um bom debate não deveria servir para confirmar certezas, mas para nos fazer pensar melhor, inclusive a ponto de mudar de ideia. Talvez seja essa a grande contribuição que um novo formato de debate poderia oferecer: não dizer às pessoas em quem votar, mas criar condições para que elas compreendam melhor aquilo que estão escolhendo.
Não existe caminho fácil para os desafios que temos pela frente.
Mas permanecer presos a modelos que não nos ajudam a compreender a complexidade talvez seja uma das escolhas mais arriscadas.
Por isso saí do The Jury pensando que talvez devêssemos usar melhor a tecnologia, a interatividade e a inteligência coletiva.
Não para falar mais.
Para pensar melhor.
E talvez essa seja a mudança mais urgente.
Porque, quando todos falam ao mesmo tempo, o debate não precisa focar no conteúdo. Ninguém consegue compreender o que está sendo proposto, continuamos apenas dando voltas.
E uma democracia que só sabe dar voltas, dificilmente consegue chegar a algum lugar.