
1 – Quase começo com um inventário das máquinas ligadas que me cercam. O café aqui ao lado, na manhã desabonadoramente quente de agosto e que logo estará perdida, saiu de um dispositivo a que se aplica uma cápsula de alumínio, por exemplo. Eu gostava de passar café, mas o conforto. A resistência às máquinas quase nunca é orgânica. É o café à prensa francesa, a máquina de escrever decorativa (é máquina, mas analógica e offline), a coleção de vinis, suprassumos de momentos instagramáveis. Tudo para acabar dentro de outras máquinas luminosas.
2 – Outro dia, vendo um filme dos anos 1950, eram poucas as máquinas, jamais dobradas ou triplicadas.
3 – Em um romance de 1857 só havia quase coisas em casa, coisas que não eram máquinas (máquinas só nas fábricas), coisas carregadas por nós há séculos: camas, mesas, panelas, livros.
4 – Coisas ainda resistentes entre as máquinas ativas de hoje, mas também elas, como nós, já semimáquinas, com timers, programações, plugadas à luz elétrica ou agora ao wi-fi.
5 – A tela do computador me devolve um reflexo opaco, um fantasma de filme B, cujo lábio pende cada ano um pouco mais. Talvez seja hora do visual maquinado das rearmonizações.
6 – Anos atrás, meu irmão e eu fazíamos uma piada diante das fotos cada vez mais decrépitas de nossos rostos no Natal. Ano que vem faremos uma dobradinho no visual Roberto Justos: tanto botox que lagartos haviam de nos invejar pelo lustroso imóvel de nosso couro.
7 – À esquerda da tela, está um vaso (mais bem cachepô), com uma folhagem vermelha de que gosto muito. Se a Alexa tivesse braços, estaria ela, por certo, a regá-la. E eu me admito: estaria menos seca.
8 – As novas máquinas sem máquinas dos aplicativos.
9 – Em 1993, virtual era ainda palavra fetiche de pós-modernos. Baudrillard escrevia uma delirante ficção científica conceitual, feita para universitários desprovidos de celulares.
10 – Antes se precisava de romantismo, agora um bom algoritmo basta.
11 – Luditas, esses incompreendidos.
12 – Por culpa da crônica, o café esfriou. Quem sabe possa passar um novo?
13 – O fantasma enfadado que o espelho negro da tela me devolve (este terá de ser o verão Roberto Justos — escutai-me, meu irmão), revela os olhos de um cordeiro tecnológico.
14 – As cápsulas na mão prometem Colômbia, Costa Rica, Etiópia, Kilimanjaro.
15 – Todas têm gosto de máquina.