
Sou próspera. Sou contadora. Sétima filha de uma família negra que começa, na minha percepção de mundo, com um casal negro no interior do Rio Grande do Sul e seus sete filhos.
Acho lindo quando, no movimento negro, dizemos que somos filhos de tal, netos de tal, bisnetos de sei lá quem… até onde a escravização permite.
Na minha família, não foi assim.
Precisamos recorrer aos documentos para descobrir o nome dos nossos avós. E, sim, isso também é herança do racismo.
Meu pai fugia da fazenda para onde foi levado ainda menino, tentando voltar para a família que fazia sentido para ele. Diziam que o Exército daria conta da rebeldia daquele preto fujão. Fugiu de lá também.
Minha mãe, criada por uma família branca no interior de Santa Catarina, também cresceu distante do seu núcleo familiar.
Os dois falavam das famílias de origem com carinho, saudade e pertencimento.
Fomos meio órfãos de avós, de primos e de histórias.
Éramos nove. Hoje, somos mais de vinte.
Três gerações da família Araújo vivendo ao mesmo tempo: os Alfa, os Beta e os Gama. Classificação das vozes da minha cabeça, tá?
Outro dia li uma frase de Grazi Mendes, escritora negra e head de diversidade em uma grande empresa de tecnologia. A fala dela me atravessou:
“Sermos ancestrais do futuro é nos dar conta de que tudo o que temos hoje nos foi entregue, e que nós estamos gestando um novo mundo a partir das decisões que tomamos e fazemos agora. É sobre nos responsabilizar pela possibilidade de futuro de quem vem depois de nós.”
Eita…
Sou a sétima filha. Sou da geração Alfa, estressada.
Fico lendo essas coisas sobre gestar um novo mundo…#asminapira
Quero prosperidade para as próximas sete gerações da nossa família.
Na minha cabeça, a solução apareceu rápido: criar negócios, fazer a família prosperar, trabalhar junto. Mas a riqueza econômica leva tempo para ser construída.
Foi então que alguém lançou uma ideia aparentemente simples:
— Vamos fazer um clube do livro da família?
Começamos com Olhos d’Água, de Conceição Evaristo.
Três gerações reunidas entre fungadas, olhos marejados e perguntas que insistiam em ficar.
Nosso último encontro está fresquinho, O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório.
Foi um soco no estômago.
O livro insiste em nos fazer mergulhar nas nossas próprias vidas.
Falamos do silêncio de quem presencia o racismo e não se posiciona.
Da ilusão de que um filho pode salvar um relacionamento adoecido.
Das mulheres que quase sempre carregam o maior peso.
Dos casais pretos que tentam construir afeto enquanto sobrevivem às violências do cotidiano.
Das feridas que, antes de salvar um casamento, precisam encontrar espaço para cicatrizar.
Alguém resumiu tudo em uma frase: — O final foi triste.
Outra pessoa nos fez perceber que o livro revelava algo ainda maior: racismo produz uma dissociação. É como se pessoas negras precisassem provar, o tempo todo, que podem pensar e sentir ao mesmo tempo. Talvez esse seja o verdadeiro avesso.
Quando a conversa terminou, senti que nosso clube nunca foi sobre livros. Ele é sobre uma família preta reaprendendo a conversar. Três gerações construindo, juntas, uma memória que nossos pais e avós quase não puderam viver.
Talvez seja isso que chamam de ancestralidade. Não apenas lembrar de quem veio antes, mas, sim, decidir em família, quem queremos ser daqui para frente.
Porque a prosperidade também se herda.
E, quem sabe, ela comece exatamente aqui: quando uma família preta decide ler, conversar, discordar, encarar dores, chorar e sonhar junto.
Essa, possivelmente, seja a maior riqueza que podemos deixar para as próximas sete gerações.
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Onília Araújo é contadora, empreendedora social e fundadora da ESFERA Afrocentricidades e da ICON Contábil. Escreve sob a assinatura Femina Economicus, um projeto de pensamento que traduz a economia para a linguagem da vida, explorando as relações entre dinheiro, cuidado, trabalho, amor, raça, gênero e prosperidade. Instagram: @oniliaaraujo