
Trafegar no trânsito de Recife (e imagino em qualquer das grandes cidades do país) é um dos misteres mais propícios para colocarmos em prática nossos pendores para a meditação e elevação contemplativa dos sete níveis da mente.
Sou daqueles que acredita no poder do pensamento. Décadas atrás, acho que numa aula de introdução à Psicologia, a professora colocou a turma para o que foi para muitos, inclusive para mim, um primeiro exercício de concentração. O roteiro indicado consistia em, inicialmente, respirarmos pelo diafragma (que é praticamente expandir os pulmões pressionando o abdômen), sentirmos os pés, pernas, braços, couro cabeludo e desviarmos qualquer pensamento que se atravesse a essa contemplação. Tempos depois, correspondendo ao convite de uma namorada, escutei algumas coisas sobre a prática e visitei umas aulas de yoga. Contudo, minha herética racionalidade sempre me fazia duvidar das qualidades transcendentais que se atribuíam a esses momentos de pacificação mental. A desconfiança era ainda maior quando os testemunhos de suas propriedades metafísicas vinham de praticantes na aprazível clausura de um templo tibetano ou na serena reclusão de um mosteiro da Capadócia.
Por isso, meu cético espírito de São Tomé só se convenceria dos milagres da reflexão abstrata se se comprovassem no nível materialmente mais mundano. Pois conjecturava que até eu conseguiria ser uma pessoa zen se vivesse a meditar em frente a um suave lago de carpas ou diante do poente mediterrânico. Daí, nada melhor do que o inferno dos engarrafamentos recifenses para pôr à prova o poder celeste da cogitação relax.
Assim, é na constante elevação da quantidade de calma em minha consciência, quando trafegando em pleno rush, que cada vez mais me convenço de que alguma coisa acontece quando dobro da avenida da ansiedade para a rua da reflexão.
Adaptando as tarefas prescritas pela referida mestra em emoções, começo atentando para a respiração: inspiro profundamente e solto levemente umas dez vezes. Essa ação me faz esquecer os retrovisores (só uma pessoa atordoada por inquietudes é que tem que estar olhando o retrovisor numa fila quilométrica de carros parados). Focalizo meus membros, braços, pernas e pés; destes, especificamente o esquerdo, livro-o de pressionar inutilmente a embreagem, pois veículo nenhum marcha para frente ou para trás; quanto ao direito, desobrigo-o de tolamente se manter alerta e ereto diante do ocioso acelerador. Ao decorrer dessa vivência de libertação muscular, redireciono as ideias que vão chegando: desencaminho qualquer sentimento (e desejo) negativo contra os motoqueiros que batem no meu retrovisor, adversos também aos caminhoneiros das jamantas que me espremem a ônibus lotados.
Por conseguinte, entre inexplicáveis buzinadas, inúteis e verdejantes sinais de siga, rubras e desobedecidas sinalizações de pare, conduzo meu intelecto aos níveis cada vez mais elevados do equilíbrio interior.