
Nossos sentidos nos concedem a capacidade de experimentar o mundo, percebê-lo, interpretá-lo e atribuir-lhe significado. Contudo, parece-me que vivemos um processo contínuo de destruição simbólica dessas capacidades. Não se trata de uma perda biológica dos sentidos, mas de um enfraquecimento de sua potência para acolher a complexidade da realidade.
Em 2023, o filme Zona de Interesse mostrou de maneira contundente como nossa capacidade de evitar elementos que geram conflitos internos pode ser imensa. Em alguns casos, essa evitação alcança a própria suspensão da capacidade de sentir horror diante de nossas ações ou daquilo que ocorre ao nosso redor. O título da obra é particularmente elucidativo. Trata-se, precisamente, de uma “zona de interesse” que direciona nossos sentidos para determinadas regiões da experiência, fazendo-nos enxergar algumas coisas enquanto ignoramos outras. Constitui-se, assim, uma percepção de mundo que não considera a totalidade de seus elementos, mas apenas aqueles que julgamos próximos, úteis ou suportáveis.
Essa reflexão remete à teoria do pensar de Bion. Em “Aprender com a Experiência” (1962), o autor propõe a existência dos chamados elementos beta: fragmentos da experiência emocional que não puderam ser transformados em pensamento. São experiências não digeridas psiquicamente, incapazes, naquele momento, de compor o campo do pensamento consciente. Entretanto, parece-me que parte desse material não desaparece simplesmente. Ainda que não seja pensado conscientemente, ele permanece operando em algum estrato da vida psíquica, influenciando percepções, afetos e modos de relação com o mundo.
Quando discorro sobre a possibilidade de uma obliteração da capacidade de pensar, refiro-me não apenas ao pensamento em si, mas também à exclusão dos elementos que se vinculam àquilo que é vivido como aversivo ou ameaçador. O sujeito não apenas evita determinados conteúdos; ele tende a afastar tudo aquilo que, de alguma forma, possa conduzi-lo novamente a eles. Desse modo, a defesa psíquica não atua apenas sobre uma ideia específica, mas sobre regiões inteiras da experiência.
O que pretendo afirmar é que, da mesma forma que não somos integralmente aquilo que pensamos ser, tampouco conhecemos o mundo e a trama de suas relações tal como efetivamente são. Entre nós e a realidade existe um campo ficcional constituído por fantasias, narrativas, identificações, desejos e defesas. Esse campo captura e organiza nossa percepção, determinando o que pode ou não ser visto. Não é possível eliminá-lo por completo, pois ele é parte constitutiva da experiência humana. Nesse sentido, a destruição simbólica dos sentidos não é uma exceção, mas uma condição permanente da existência. O que podemos fazer é desenvolver, paralelamente, uma capacidade mais sofisticada de elaborar a nós mesmos e à realidade que nos cerca.
Nesse ponto, cabe uma aproximação com o ensaio “O Último Messias” (1933), de Peter Zapffe. O filósofo norueguês sustenta a provocativa tese de que a consciência humana constitui uma espécie de erro evolutivo, responsável por um sofrimento singular da espécie. Embora o ensaio possua um tom marcadamente pessimista, parte de sua análise parece bastante coerente, sobretudo quando descreve as estratégias pelas quais os seres humanos procuram restringir ou anestesiar a consciência. Nesse aspecto, sua reflexão dialoga diretamente com o argumento aqui desenvolvido. Se a consciência nos expõe à angústia, ao desamparo e à percepção de nossa finitude, torna-se compreensível que haja uma tendência constante à sua limitação.
Poderíamos afirmar, portanto, que existe um impulso inicial em direção à inconsciência. Diversas teorias do desenvolvimento humano apontam nessa direção. A tradição kleiniana (1935; 1940; 1945), por exemplo, demonstra que a capacidade de integrar aspectos contraditórios da experiência constitui uma conquista psíquica complexa, e não uma condição originária que nasce com o sujeito, mas sim um desenvolvimento. A inconsciência, em muitos aspectos, apresenta-se como uma forma mais econômica de sobrevivência do que a consciência. Ser consciente é algo que inicialmente evitamos, mas que inevitavelmente precisamos construir para compreender a nós mesmos e ao mundo.
É nesse contexto que a reflexão de Adorno e Horkheimer se torna particularmente relevante. Na “Dialética do Esclarecimento” (1944/1947), os autores argumentam que o próprio esclarecimento, embora tenha produzido formas inéditas de dominação e instrumentalização da razão, permanece sendo a única via possível para a emancipação humana. O problema não reside no esclarecimento em si, mas em sua redução à racionalidade instrumental. Em outras palavras, a forma contemporânea de esclarecimento frequentemente esclarece pouco, pois não promove sujeitos verdadeiramente livres, autônomos ou maduros. Ainda assim, a fuga da ignorância, a sua saída, continua exigindo mais consciência e esclarecimento (principalmente sob a forma de uma racionalidade objetiva), e não menos.
Essa orientação não se fundamenta em uma luta direta contra as defesas psíquicas, mas na construção de um espaço mental continente, capaz de acolher a complexidade do mundo sem reduzi-la imediatamente a certezas simplificadoras. Trata-se de um espaço em que os diferentes elementos da experiência não precisam destruir uns aos outros para coexistirem; onde a contradição pode ser observada, suportada e elaborada antes de ser julgada ou eliminada.
Afinal, pensar não é apenas produzir ideias. Pensar implica tolerar a dúvida, sustentar a ambiguidade e suportar a frustração decorrente do encontro com aquilo que desmente nossas convicções. Talvez seja justamente nessa capacidade de permanecer diante do desconforto, sem recorrer imediatamente à negação, à anestesia ou à simplificação, que resida uma das formas mais genuínas de preservação dos sentidos. Preservá-los, nesse caso, significa manter viva a possibilidade de encontro com a realidade em sua complexidade irredutível. E talvez seja precisamente nessa abertura ao que nos desestabiliza que se encontre uma das condições fundamentais para uma existência mais consciente, mais livre e mais autenticamente humana.
Mas, diante de uma época marcada pela dispersão, pela aceleração da experiência e pela multiplicação de mecanismos de fuga, resta uma pergunta inevitável: será que hoje pensamos mais? Ou será que, apesar de todo o conhecimento disponível, nos tornamos menos conscientes de nós mesmos, dos outros e do mundo que habitamos?
Se a segunda hipótese estiver correta, talvez isso signifique que nossos sentidos encontram-se simbolicamente obliterados; que ainda não somos suficientemente conscientes e que perdemos, ao menos em parte, a capacidade de sentir o mundo em sua plenitude. Nesse caso, a tarefa de pensar não seria apenas um exercício intelectual, mas uma forma de recuperar aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: a possibilidade de experimentar a realidade para além das zonas de interesse que construímos para nos proteger dela.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo, psicoterapeuta e docente no ensino superior. Participou do Programa de Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar. Sua produção intelectual e interesses de pesquisa concentram-se no campo da Psicanálise, com ênfase nas contribuições de Melanie Klein e Wilfred Bion, do Marxismo, da Teoria Crítica e da tradição da Escola de Frankfurt.
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.