
Desde a primeira vez que ouvi esse verso de Renato Russo, tive a impressão de que ele havia sido escrito para mim. Nunca soube explicar exatamente o motivo, mas a sensação de não pertencer a este mundo, de não conseguir corresponder às suas exigências e de tentar me encaixar em lugares onde nunca coube sempre foi insuportavelmente difícil. Eu poderia me reconhecer no arquétipo da sonhadora, alguém que anseia por um lugar que talvez nunca tenha existido. Poderia me incluir entre os idealizadores de uma realidade mais justa e mais humana ou, simplesmente, entre aqueles que ainda acreditam ser possível mudar o mundo com um passe de mágica. Mas, no fundo, eu era apenas alguém tentando ser igual aos outros.
Eu sempre preferi as linhas tortas, os caminhos pouco convencionais, as ruas que levam a muitos lugares. Tive aversão aos limites definidos, às prisões impostas e ao padrão único de ser. Quis ser eu, com todos os meus poros e o meu jeito inoportuno de ver a vida. Defini as minhas próprias regras e fiz da insistência o meu modo de segui-las, mesmo quando tudo em volta parecia desigual, mesmo quando os meus passos percorriam espaços indefinidos.
Eu quis ser eu. Mas a minha maneira desajeitada de existir nunca esteve de acordo com o padrão. Sempre faltava alguma coisa: um ajuste aqui, outro ali, uma nova aprendizagem, uma experiência ainda não alcançada. Era preciso segurar a caneta da maneira correta, pular a corda no momento exato em que ela batia no chão, tirar notas altas em todas as matérias, entender a professora de Matemática, acertar o alvo, arremessar a bola nas mãos do colega, traçar margens milimetricamente corretas, não apertar o lápis ao escrever, arrumar direito o quarto, ter mais amigos, ser proativa e não esperar que me dissessem o que fazer.
Eu tentei ser eu, mas havia um modelo a ser seguido e me faltavam requisitos para alcançá-lo. Então, acreditei que, se me esforçasse mais, desenvolvesse novas habilidades, fosse menos impulsiva, menos desastrada, menos imperfeita, talvez me equiparasse aos demais. Aos poucos, abandonei o lugar onde me sentia diferente para ocupar outro que tampouco me acolhia. Diziam que aquele era o lugar correto. Por isso, fui me adaptando até acreditar que uma versão mais sociável, mais disciplinada, mais segura e mais próxima do que esperavam de mim seria possível. Afinal, eu sempre tinha a impressão de estar apenas a um ajuste de distância de ser suficiente. Bastava um pouco mais de entusiasmo.
Igual ao protagonista de A parte que falta, de Shel Silverstein, perambulei em busca do encaixe perfeito, das pessoas certas, da peça exata que julgava faltar. Para isso, copiei cortes de cabelo, modos de vestir e diferentes maneiras de dizer a mesma coisa. Ouvi conversas vazias e debates que nada me acrescentaram. Frequentei lugares estranhos. Convivi com gente que nada tinha a ver comigo, mas que eu considerava importante, pois esse era o modelo que eu deveria seguir. Tentei me acostumar a um roteiro social sem levar em consideração que o personagem de Shel Silverstein só encontra liberdade quando deixa de procurar a peça que lhe falta e se percebe como alguém completo.
Por algum tempo, acho até que consegui me enganar, afirmando a mim mesma que, enfim, havia encontrado o que procurava. Mas, quando percebi que foi justamente a perda da identidade a responsável pela ansiedade e pela depressão que me acompanharam por quase toda a vida, deixei de encontrar razões para insistir em um objetivo inviável. Foi então que a frase de Renato Russo voltou com força à minha mente, dessa vez seguida de uma indagação: por que eu sempre achei que “não sou daqui”? O que me faz não conseguir encarar o cotidiano igual às outras pessoas?
Hoje, depois de uma pausa em muitas atividades, tento retornar de onde parei. Agora, não mais na correria à qual me submeti por tantos anos, mas respeitando o meu próprio ritmo. Não foi fácil no início, mas receber o diagnóstico que confirma a neurodivergência me ajudou a compreender melhor por que tantas coisas pareciam exigir de mim uma energia que eu não tinha.
De certa forma, foi um alívio perceber que não atingir o que esperavam de mim nunca foi falta de vontade, muito menos de entusiasmo. Na verdade, o meu esforço sempre foi maior do que os desafios que eu enfrentava e agora eu sei que não devo medir o meu valor pela quantidade de tarefas que consigo concluir. Prefiro celebrar cada passo, por menor que pareça, sem lutar contra a minha verdadeira essência, sendo, enfim, a pessoa que eu sempre fui e que nunca deveria ter deixado de ser.