
Para as turmas do CIB e do Obata,
Na virada dos anos 60 para os 70, eu era criança e “lutava” judô no então Círculo Social Israelita, hoje Hebraica, na Rua João Telles. Éramos uma geração inteira ali “lutando”, filhos e netos de imigrantes judeus e não judeus. O nosso professor era, igualmente, um imigrante, nascido em Yokohama, e chamado Obata. Teruo Obata.
Embora desejássemos “lutar” como gente grande, ainda não sabíamos escrever, por isso nos guiávamos pela oralidade dos nomes. Portanto, para a maioria de nós, o nosso professor se chamava simplesmente Bata. O Bata.
Bata ou Obata era um professor calmo e atento, capaz de manter a autoridade com um olhar e pelo exemplo de quem era: um modelo sério, ético, dedicado. Mas também sabia brincar e, ao contrário daquele personagem de Eça de Queiroz, sempre ria na hora certa. A hora certa podia ser até durante uma luta, espécie de brincadeira para ele, desde que respeitasse o adversário, a quem sempre chamava de camarada. Quando repetíamos, como crianças que éramos, “Obata come queijo com barata”, “Obata come queijo com barata”, ele acolhia e levava na brincadeira, entendendo muito bem o português. E a infância.
Havia outro aspecto na pedagogia de Obata que orgulharia analistas como Winnicott. Ao final dos campeonatos, ele oferecia medalha de ouro para todas as crianças menores. Ele sabia que elas precisavam se sentir vencedoras, mesmo se iludidas. Depois, quando já estavam cativadas para a “luta”, sabia a hora de lhes apresentar a realidade da derrota e a importância de aprender a perder.
Lembro de outro episódio que me marcou. Durante uma luta, fui atingido no nariz pelo meu adversário, digo, camarada, e quando vi que estava sangrando, revidei o soco. Bata ou Obata interrompeu a luta e nos deixou frente a frente, com ele no meio. E ficou muito tempo em silêncio, pelo menos o suficiente para que entendêssemos que ele não tinha palavras para a nossa violência. Ele deixou que as encontrássemos e, meia hora depois, nós pedimos desculpas um para o outro, mas o professor disse que não era suficiente:
– Por que não?
– Porque falta pedirem desculpas para mim, que não fui ouvido nas minhas aulas sobre as regras de uma luta.
Pedimos desculpas a ele, continuamos bons amigos e, sobretudo, orgulhosos de nosso professor. Ao que me consta, salvo alguma exceção que me foge à memória e para a qual peço atléticas desculpas, nenhuma daquelas crianças se tornou um João Derly. Mas todos, ou pelo menos a maioria, aprenderam com o mestre japonês o que significa respeito.
Dia desses, numa brincadeira casual no grupo de WhatsApp da turma do colégio, evoquei o nome do professor. Foi então que descobri que ainda está vivo*, com direito a tese de doutorado sobre ele, chamada “O Judoca, O Kamikaze e o Toureiro”, escrita pelo também sensei Felipe Perisoto. Claro que ele merecia essa vida longa, já nonagenária, bem como todas as homenagens, embora já tenha se tornado eterno na memória de cada um de seus alunos.
*Nota do Editor: Este texto foi escrito em junho de 2026. O sensei Teruo Obata faleceu em 10 de julho, em Porto Alegre.