
Décimo dia. Eu e D. acordamos e tomamos café. Há todo um discurso no ar de Lisboa de defesa da ecologia, coisa e tal, mas na hora de alugar um apartamento, os administradores colocam um aparelho de café de… cápsulas! Boa, vamos preservar o planeta, só que não. Como todo mundo, compro essas cápsulas aqui no Econômico da Graça, e aqui elas são mais baratas do que as brasileiras. Já o açúcar, ao menos, conseguimos o dessas caixinhas que vêm com mais de 1.200 pequenos comprimidos, cada um equivalente a uma pequena colher de chá de açúcar. Não vi nada similar em Porto Alegre, onde uso adoçante líquido. Queria ter pego várias delas para trazer no retorno porque são muito baratas, mas, como estou numa fase de desprendimento turístico, em que trazer menos coisas para casa é mais, não trago praticamente nada. Não me arrependo de não ter trazido uma dúzia de garrafas de vinho, mas me arrependo de não trazido o adoçante. Não sou perfeito.
Esse meu apartamento de plataforma tem várias características. A primeira é a sua água. Gosto da água desses apartamentos porque aqui tem água quente em todas as torneiras. Eu já aluguei em outras cidades, mas nunca havia água quente em todas. Aqui há. A segunda são seus sons. Ouço sons que vêm dos apartamentos vizinhos, atravessando suas paredes, e que são para mim um mistério. Esses ruídos noturnos interrompem o meu sono e estimulam minha reflexão. Hoje, ao ouvi-los, despertei rapidamente e lembrei que sonhei com o que deixei no passado ao me aposentar: dar aulas. Isso fez parte de mim, parte de meu passado. Hoje sou aposentado. O que foi Lisboa no passado, além de uma nação conquistadora? E o que é hoje, além de uma cidade global do turismo de massa? Essa questão me persegue nesses ensaios. Esse peso da conquista não abala os turistas. Ela está atualizada nos ruídos que fazem na paisagem esses imigrantes, taxistas, as pessoas com problemas mentais que circulam pelas ruas, os moradores de rua que só aparecem em alguns lugares menos turísticos da cidade, as pessoas desiludidas que caminham à toa porque são vítimas de desigualdade e da globalização. Eu as vejo ainda presentes nas zonas turísticas e no meio de multidões em Lisboa. Nessa cidade é tudo muito bonito, mas a que custo? Esse é o verdadeiro ruído da paisagem perfeita dessa cidade.
Uma cidade perfeita demais
Por que a acho perfeita? É a sedução dessa repetição da arquitetura, de um classicismo e ecletismo por todo lugar, motivo de nosso desejo de viajar para Lisboa. Viajamos para estar em lugares que consideramos belos, e a arquitetura do seu passado satisfaz essa necessidade porque, diferente das cidades atuais, das novas metrópoles, das grandes cidades, não é o império do igual desses prédios com que nos empurram as construtoras goela abaixo – é preciso baixar custos etc. -, ao contrário, suas construções estimulam nosso olhar porque constituem o império da diferença – cada casa é única, cada detalhe, original. Mas o paradoxalmente desta viagem por entre essa arquitetura, assim, sem destino, sem objetivo, é que acumula-se numa sucessão de paisagens iguais na sua diferença, se não conheço sua história. O que rompe esse novo igual é esse ruído surdo de suas ruas e, para conhecer sua história, é preciso tempo, o que há muito transformou-se no principal ativo do capital. Não é o que fez a minha guia de turismo outro dia, nos dando tempo, mas este, nas viagens dessas empresas, só tem um objetivo: transformar-se em tempo para… compras!
Turistar cansa. Nunca pensei que diria isso. É que eu levei anos para entrar na onda turística, para participar dela. Primeiro, porque não tinha dinheiro. Quando tinha, não tinha tempo. Quando tinha tempo, fazia só para onde tinha casa, Cidreira, objeto de meu primeiro volume desta coleção “Lugares para passar o fim do mundo”. Lisboa é o segundo. Praticamente viajar para outros países e estados é coisa dos meus últimos dez anos. Eu pensava que, se viajasse, ia acordar todos os dias cedo. Olha no que me transformei: hoje é mais um dia em que eu e D. acordamos cada vez mais tarde. E saímos cada vez mais tarde. E, o pior, voltamos cada vez mais cedo. Primeiro porque não há joelho suficiente para um idoso em Lisboa. São lombas demais. Segundo, porque você descobre que, mesmo na diferença, paradoxalmente tudo começa a ser igual. E olhar o igual cansa. Mas, se, de uma forma ou outra, é tudo igual, o que encontramos, o que estávamos procurando?
O macarrão conquistou o mundo
Quando saímos, procuramos um lugar para almoçar. Encontramos o restaurante chinês da Graça, o Ludan Noodle Bar & Asian Fusion. Ele está na rua São Vicente, prolongamento da Graça, e tem de tudo um pouco: cozinha chinesa, coreana, japonesa e tailandesa. Sua especialidade são noodles, o famoso macarrão asiático. Eu atravessei um oceano para comer comida portuguesa autêntica, mas o que encontro é de novo o que o empresário nipo-taiwandês Momofuko Ando inventou no Japão em 1958 e que comia na infância pelos mesmos motivos dos japoneses pobres daquela época: era barato e matava a fome. Meu clássico era o sabor carne. Quem vê dorama sabe do que estou falando. Neles, todo CEO de empresas come um. Que beleza: até o miolo é ressignificado. Na cidade famosa por seu bacalhau, estou num restaurante onde a fachada apresenta sinalização moderna, luminárias de rattan, plantas suspensas e grandes janelas que revelam mesas internas com tigelas decorativas e que serve… miojo! Uma indiana nos atende. Eu entrego os pontos: pedimos massa com legumes e carne. Chega rápido. Está excelente. A água que acompanha é pequena, mas também de qualidade, Castelo. Não tenho dúvidas: o macarrão conquistou o mundo. Na terra das fortalezas, só a água é autêntica.
Saímos e vamos à Humana da Graça, loja de roupas usadas, mas com menos glamour da que vimos no dia anterior. Há roupas de todos os países, mas, mais uma vez, os sapatos denunciam que tudo nesta loja e usado. Em Lisboa, roupa usada é chique, atende à ecologia. Pegamos um transporte por aplicativo e vamos para a saída do bondinho, o Elétrico 28, o clássico meio de transporte turístico de Lisboa. Só a fila de espera é maior em tempo que a duração do passeio. Passamos por uma galeria próxima que lembra a Galeria XV de Novembro de Porto Alegre. São lojas de muçulmanos de roupas baratas e de utilidades, tudo muito precário e simples. Mas aqui esse shopping, com toda sua precariedade, ainda está de pé; hoje, a nossa Galeria, nem existe mais. Lá o precário luta para sobreviver e muitas vezes consegue ser objeto de restauro; aqui nada disso, sua destruição é acelerada para que novos prédios imponentes e rentáveis possam ocupar o seu lugar. Ando mais um pouco. É a primeira vez que vemos moradores de rua em Lisboa, na praça em que esperamos pelo bondinho.
O Elétrico 28
Olho os demais turistas na fila e descobrimos que podemos usar cartão no Elétrico. Havíamos visto uma informação errada de que não podia, que era só a dinheiro. Como anunciado pela propaganda turística, a viagem é uma glória [contém ironia], só que não. O carro logo enche, você não vê nada durante quase todo o percurso e passa por ruas apertadas que parecem impossíveis para um bonde. E aí vem o pior, as manobras arriscadas onde você sente que será arremessado pela janela após cada curva e onde o balanço é constante. E, claro, você a cada curva teme o pior, tem medo de ser vítima de um novo descarrilhamento como o do funicular de Lisboa ou como o do bonde de Santa Teresa, na Lapa, em 2018. Mais uma ilusão da indústria turística de Lisboa é destruída diante de meus olhos: quem está dentro quer fotografar, mas não consegue porque não há espaço, quem está fora não consegue porque precisa se proteger para não ser atropelado pelo bondinho que quer fotografar. É a atualização da definição de esquizofrenia. Passamos, entretanto, por ruas de Alfama que não havíamos passado antes e assim descobrimos as mais movimentadas. Vejo uma Disneylândia de lojas de vinho, uma após a outra e diversas pastelarias em poucos metros. Aqui se faz de tudo para agradar os turistas.
O Elétrico 28 é chamado oficialmente de Carreira 28E da Carris. Pronto, já me lembro das políticas neoliberais colocando as mãos na nossa Carris, privatizando-a. Nós também tivemos a nossa empresa pública centenária Carris, com esses bondes nas ruas. Hoje não tem nem os bondes circulando e nem é mais pública. Já os deles cruzam a cidade de leste a oeste. Partimos da Praça Martim Moniz e todo o trajeto visa chegar ao Cemitério dos Prazeres, no Campo de Ourique, um percurso de 7 quilômetros que dura cerca de uma hora. Para o motorneiro, o problema sempre são os carros mal estacionados que atrasam a viagem. Eu via o Elétrico 28 quando ia para o Econômico, na Graça. E via os transtornos dos carros que paravam. Era um buzinaço só. Agora no bonde, se estico meu braço na janela, em determinados pontos, posso tocar as paredes. A praça Martin Moniz está no sopé do bairro Mouraria, um recanto que mistura artefatos medievais, com imigrantes de um lado a outro. E muitos moradores de ruas. É aqui que o noticiário avisa para ter cuidado com os carteiristas. Volta e meia olho a minha carteira no bolso: ainda está ali.
A sedução dos nomes antigos
Gosto de estar em lugares onde cada nome evoca uma lenda. A praça onde estou agora homenageia o cavaleiro Martim Moniz que, segundo a lenda, teria sacrificado a própria vida ao prender o corpo na porta do Castelo de São Jorge em 1147, o que impediu os mouros de fecharem a entrada e garantiu a conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques. Sua evolução passou por demolições, tentativas de modernização, e as lojas ao redor da praça concentram o maior número de comunidades asiáticas. Estou na fila esperando o bonde e vejo pessoas de Bangladesh, Índia e China, africanos e outros do Oriente Médio. Esses centros comerciais lembram também a Galeria XV de Novembro que também vendia esses artigos importados, bijuterias baratas e eletrônicos, e por isso você sente que de alguma forma já participava da globalização, pois Porto Alegre tem as mesmas lojas e produtos. Mas a nossa galeria não sobreviveu a demolição que abre mais um terreno para as construtoras bem no centro da capital. Agora a demolição desses prédios faz a festa dos capitalistas, como era uma festa passear por seus corredores na minha infância. Hoje olho nos andares superiores dessas galerias de Lisboa e vejo restaurantes de gastronomia internacional. Na Galeria do Rosário, na minha infância eu via barraquinhas de cachorro-quente que ainda estão lá. Aqui vejo adiante o Castelo de São Jorge, no topo da colina, que é mais bem visto do bar de cobertura do 6º piso deste centro comercial. Da Galeria do Rosário, logo na entrada, só dava para ver a lomba da Rua Dr. Flores. Há uma estação de metrô na praça, semelhante à entrada que há no nosso mercado para acesso ao Trensurb. Sei que há problemas de segurança nessa praça lisboeta por causa dos “carteiristas” do lugar. Cuido de um casal suspeito perto da fila, que olha os demais, e eu olho que eles olham. Parece que estou no verso famoso de Laços, obra do psicanalista Ronald D. Laing. Uma hora depois, entro no elétrico.
Olho essas ruas pelas quais o bonde sobe em seu caminho inicial. Sigo pela “Rua da Palma”, viro na “Rua dos Anjos”, passo pela “Rua Maria Andrade” e pela “Rua Maria da Fonte” e inicio a subida íngreme pelas curvas da “Rua Angelina Vida” e “Rua da Voz do Operário” até chegar ao topo da colina. Essa cidade teve coragem de preservar seus nomes antigos, ao contrário de Porto Alegre. Quanta poesia há nos nomes das ruas de Lisboa! Como pudemos perder a poesia dos nomes das ruas de nossa capital? Pode haver mais poesia do que acordar e caminhar pela Rua dos Anjos? Nós, ao contrário, preferimos renomear nossa Rua do Arvoredo para Rua Fernando Machado, um famoso coronel do exército imperial; preferimos renomear a poética Rua da Olaria para Rua General Lima e Silva, outro militar; preferimos renomear a Rua do Cotovelo para Rua Riachuelo, em homenagem à famosa batalha naval. A única rua que resistiu à troca de nomes foi nossa rua da Praia, que se recusa a se chamar rua dos Andradas. É pouco.
O coração medieval
O bonde, aos solavancos, passa pelo bairro histórico da Mouraria, o berço do fado. Estou passando pelas encostas abaixo do Castelo de São Jorge. Suas ruas são sinuosas, e sua origem está na pequena aldeia fundada em 1147, após a conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques. É mouraria porque o rei confinou a população muçulmana (os mouros) que quiseram ficar na cidade nesta encosta, fora das muralhas do castelo, o que transformou o bairro numa região segregada. Suas habitações baratas foram o destino da população operária e marginalizada de Lisboa. A região disputa com Alfama o título de berço do fado porque ali cantou Maria Severa Onofriana (a Severa), a prostituta do século XIX considerada a primeira grande fadista da história. Com sua guitarra portuguesa, ela cantava os sofrimentos do povo pelas tabernas da região. Não é apenas dado dos livros de história: um projeto de memória, desses que não existem mais em Porto Alegre, gravou pelo chão de pedras guitarras, com fotos de antigos moradores e fadistas, junto as paredes das casas de pedra. Hoje, é um bairro multicultural.
Depois de passar pela Mouraria, passamos pelo coração medieval da Graça e Alfama. É um dos trechos mais bonitos. Eu e D. já fizemos parte desse percurso a pé por essas vielas medievais. Nos trechos estreitos, é preciso ficar junto às paredes das casas para o trem passar. Passamos pela Calçada de São Vicente e vamos pela Rua das Escolas Gerais, Largo das Portas do Sol e Largo de Santa Luzia, estes dois últimos com amplos miradouros onde a população aproveita para ver a vista do Elétrico 28. Do Elétrico, vemos rapidamente os telhados dos casarios de Alfama e o Rio Tejo. Da Rua do Limoeiro, chegamos ao Largo da Sé. A parada das Portas do Sol é o caminho para ir ao Castelo de São Jorge, o que fizemos dias antes. O Elétrico contorna a Catedral da Sé, e eu comparo essa imponente catedral de Lisboa com a nossa catedral de Porto Alegre.
Entre duas catedrais
Ambas têm raízes no contexto de influência da coroa portuguesa. A de Lisboa, foi fundada em 1147, a nossa primeira catedral, seis séculos depois, em 1779, mas esta foi substituída por uma mais moderna, cuja pedra fundamental data de 1921. Gostaria que tivesse sobrevivido nossa antiga catedral, muito mais próxima da catedral da Sé de Lisboa, pois era de estilo românico com enxertos góticos e barrocos, ao passo que a nossa era de arquitetura barroca tardia, o estilo colonial português da época. Já nossa catedral moderna e contemporânea tem estilo neorrenascentista, mais distante da catedral da Sé. Não há como não se impressionar com as duas torres defensivas de pedra da Catedral de Lisboa, que transformam a igreja numa verdadeira fortaleza. Nossa antiga catedral, ao contrário, tinha uma fachada mais simples e austera, caiada de branco com duas torres simples. Olho as fotos antigas e ela me lembra a antiga Igreja do Rosário, também demolida. Esse ímpeto de modernização não é presente apenas hoje; também era presente nos dois séculos anteriores, que assim nos privaram de suas belezas arquitetônicas. É verdade que a cúpula de nossa catedral é enorme e não faz feio: são 65 metros e imita a do Vaticano. Mas sou um saudosista: preferia a outra.
Pesquiso um pouco mais e descubro que a Sé de Lisboa foi construída por cima de uma mesquita logo após o cerco que expulsou os mouros da cidade. É o símbolo máximo da consolidação da fé cristã no território português e resistiu ao histórico terremoto de 1755, embora partes de sua estrutura gótica tenham desabado, gerando reformas. Olho suas paredes e vejo que são espessas e possui poucas janelas. Não é notável que uma igreja seja pensada como fortaleza? Nossa Igreja Matriz de Porto Alegre não era assim. Não era necessário, porque antes a cidade é que se fez fortaleza, com sua paliçada de madeira que servia de muralha. Nossa antiga catedral foi, durante dois séculos, o centro da vida social e política da província gaúcha, até ser sacrificada e demolida no século XX sob o pretexto de ser “pequena e acanhada” para a capital que crescia rapidamente. Que bobagem! Essa má escolha destruiu uma fachada exterior muito sóbria que contrastava com um interior cheio de detalhes. A nova que nasceu em seu lugar, de forma lenta, já que durou quase meio século sua construção, pôs fim, de uma vez por todas, a tradição colonial lusa na capital. Quantas igrejas nos restaram desse período? Algumas, as principais, que me lembro, salvo engano, são as das Dores e da Conceição. Três se considerarmos a capela de Belém Velho. Essas linhas simétricas, colunas imponentes e cúpula imensa de nossa catedral dão a imagem do porto-alegrense que a inspirou: aquele que desejava chegar aos céus. Os lisboetas que inspiraram a sua Catedral da Sé desejavam ficar com os pés no chão como sua catedral. A Sé Lisboeta é uma construção de um povo que cultiva suas raízes e com suas paredes tão grossas e frestas típicas de fortificações, sobreviveu a um terremoto. Para a nossa, voltada para os céus, bastou uma opinião contrária e ela se foi.
Entre Altos e Vales
O passeio de Elétrico 28 continua agora pela Baixa Pombalina. Esse é o vale de Lisboa, a que acessamos depois de descer toda a Alfama, que é uma colina, para chegarmos a uma zona plana da cidade. Em Porto Alegre, é o contrário, saímos de um Vale na Praça da Alfândega e subimos uma colina, a Rua General Câmara, para chegar à Praça da Matriz. Ambas as referências estão em colinas junto a zonas planas. Interessante que, em ambas as igrejas, uma pequena, menor, se fazia presente: junto à Sé, de Lisboa, era a de Santo Antônio, onde se acredita que ele nasceu; em Porto Alegre, ao lado da antiga catedral, antes de sua demolição para dar lugar à nova, existia a antiga capela do Espírito Santo, que foi transferida para a Rua José Bonifácio. Chamo isso de pares-igreja, igrejas de referência que, no entanto, nascem ao lado de outra menor, quase como se precisassem de um apoio para cumprir sua enorme função. Na Baixa, passamos pela “Rua da Conceição” e podemos ver a “Rua Augusta” e seu arco, visíveis ao cruzar a artéria pedonal da baixa.
Já estamos na Praça do Comércio ou Terreiro do Paço, a um quarteirão ao sul da Rua da Conceição. Essas similaridades me fascinam: nós também temos em Porto Alegre a nossa Rua da Conceição, que margeia a igreja do mesmo nome e serve de caminho para nosso túnel; é como se o antigo se fundisse no novo em uma mesma rua de nossa cidade para sobreviver.; nós também tivemos nossa Praça do Comércio: poucos sabem que a atual Praça da Alfândega era, no passado, chamada por esse nome porque ali ficavam, coladas às margens do Lago Guaíba, feirantes, ambulantes e quitandeiras. A função comercial vinha da época colonial, quando o local era chamado também de Praça da Quitanda. Nossa Praça do Comércio perdeu seu nome em 1824, quando se construiu ali o prédio da Alfândega. Nós deixamos nossos nomes antigos de lado e os substituímos; não gostamos deles, temos motivos fracos para mudá-los – interesse político etc. Portugal não: em Coimbra, também há uma Praça do Comércio, localizada na Baixa, assim como no centro de Braga; na Espanha, há Praças do Comércio em Barcelona, Salamanca e Cáceres, mantendo o nome original; nós, no Brasil, ocultamos nossas Praças do Comércio: Alfândega, em Porto Alegre, Praça Rio Branco, em Recife, Praça Rui Barbosa, em Santos, Praça Riachuelo, em Salvador: todas estas já foram chamadas um dia de Praça do Comércio.
O mundo dos intelectuais
Saímos da Baixa e vamos em direção ao Chiado e Bairro Alto, onde vive a boemia literária da cidade. É o bairro mais intelectualizado, mas é preciso subir a “Rua de São Francisco”, o “Largo da Academia Nacional de Belas Artes”, a “Rua Vitor Cordon”, a “Rua Serpa Pinto” para cruzar o Largo do Chiado e entrar na Praça Luís de Camões. É quando passamos pelo Café A Brasileira e pela Estátua de Fernando Pessoa, que já havíamos visto no dia anterior. Na Praça Luís de Camões, ou Largo de Camões, vemos um espaço público vibrante e movimentado de Lisboa que funciona como a zona de transição entre o elegante Chiado e o boêmio Bairro Alto. Inaugurada em 1867, a praça foi projetada para celebrar o tricentenário do maior poeta de língua portuguesa, Luís de Camões, autor de Os Lusíadas. Em seu centro, um monumento de bronze fundido com quatro metros de altura, esculpido por Vítor Bastos, representa a figura de Camões. Ele está com uma coroa de louros e segurando a sua epopeia, num pedestal octogonal sustentado por oito estátuas menores de outras grandes figuras das Letras e das Ciências do Renascimento português, incluindo os cronistas Fernão Lopes e Gomes Eanes de Azurara, os historiadores João de Barros e Fernão Lopes de Castanheda, e o cosmógrafo Pedro Nunes. Esse monumento é complexo para retratar a cultura: lamento que nossos monumentos em Porto Alegre sirvam apenas para enaltecer a política, bastando ver que o que mais tem símbolos em nossa cidade é o de ninguém menos que Júlio de Castilhos.
Vejo, ao passar pela Praça Luís de Camões, o Quiosque de Lisboa. No meio da praça, feito de ferro, para sentar-se ao ar livre e tomar um café. Eu fico surpreso com o fato de que há tantos quiosques em Lisboa e tão poucos em Porto Alegre. Só nos meus passeios vi vários: às margens do rio Tejo, há o Ribeira das Naus; no Bairro Alto, o do Miradouro de São Pedro de Alcântara, que oferece uma das vistas mais deslumbrantes da cidade, ideal para o final de tarde. Mais além, no Jardim do Príncipe Real, há outro, cercado por palacetes e árvores centenárias, além de vários ao longo da Avenida da Liberdade. Eu olho as fotografias do antigo mercado público de Porto Alegre e os quiosques estão lá, a meio caminho entre o mercado e a doca do mercado. Eu li no meu curso de história o livro Trabalho Lar e Botequim (Brasiliense, 1986) de Sidney Chaloub, em que o autor fala da importância dos quiosques no Rio de Janeiro e seu papel de resistência na organização do trabalho e isso sempre me impressionou. “Resistencia ao trabalho: acabem com os quiosques”, imagino dizerem nossos capitalistas locais.
Contrastes com Porto Alegre
Eu olho Porto Alegre hoje e o que vejo? A cultura de aproveitar o dia a dia na rua, num pequeno espaço tomando um café num quisque antigo não existe mais. Não há mais quiosques de ferro ou madeira em Porto Alegre, como ainda há em Lisboa. Aqui eles foram substituídos por modernas instalações modulares (vulgo containers), como os do Trecho 1 do Parque Moacyr Scliar, entre a Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias. Há, de novo, contêineres diversos no Cais Embarcadero, no estilo street food, de frente para o rio. Eles querem imitar a atmosfera cosmopolita e descontraída desses quiosques antigos, mas falta algo: justamente o tempo que passou na estrutura que ficou. Apenas alguns cafés tradicionais, como o Mateus, tentam ainda resistir e trazem a lembrança dos anos 50. Em Lisboa, nenhum container pode substituir o histórico quiosque da Praça Luís de Camões. Como imaginar que um Café do Parcão, uma mini cafeteria colada ao Parque Moinhos de Vento, possa substituir um… quiosque? Só falar o nome já me transporta para a época clássica de nossa capital, longe dessas modernidades do ferro de consumo. Pois não é o tamanho diminuto que vale a troca, não são os bares de arquitetura moderna próximos à natureza, como os do Parque Farroupilha, ou tantos outros cafés espalhados pela Rua da República, ou mesas de bar na Cidade Baixa que podem substituir os quiosques. Estes são outra coisa. O que se perdeu e que não se pode mais recuperar é o espírito de um lugar. Porque, para ter um lugar, é preciso preservar sua arquitetura, sua história, sua memória, e isso o capitalismo selvagem de Porto Alegre já se adiantou para destruir.
Saímos do centro mais turístico e denso e começamos a entrar em uma Lisboa mais residencial e monumental. Estamos a caminho de São Bento e Estrela, o que nos leva a uma Lisboa grandiosa e política. Passamos pela “Calçada do Combro”, pela “Rua de Poiais de São Bento”, pela “Rua São Bento” e começamos a subir da “Calçada da Estrela” até o “Largo da Estrela”. Para quem não conhece, o Caminho de São Bento leva ao Palácio de São Bento, que é a Assembleia da República, o Edifício do Parlamento que tem no fundo a Calçada. Há, em seguida, a Basílica da Estrela, uma igreja barroca de enorme cúpula. Chegamos ao campo de Ourique e Prazeres. Este é um grande bairro residencial. Passamos pela rua Domingos Serqueira e Saraiva de Carvalho. O fim, no Largo dos Prazeres, nos dá a visão da Igreja do Santo Condestável, em estilo neogótico. O Campo de Ourique possui um mercado, e no final da linha, há o Cemitério dos Prazeres, verdadeiro museu a céu aberto. Ali estão enterradas grandes personalidades da história e da cultura do país, como o presidente Mário Soares, o compositor e guitarrista Carlos Paredes e um dos maiores poetas portugueses, Cesário Verde, oferecendo também uma vista soberba sobre a Ponte 25 de Abril e o vale de Alcântara.
Saudade dos meus bondes
Estou vendo a paisagem a partir da janela de um bonde elétrico, um dos mesmos que Porto Alegre teve no passado. Eu não posso viajar de bonde na capital dos pampas porque eles não existem mais e preciso atravessar o oceano para andar em um. O transporte de bonde existiu em ambas as cidades, apenas teve mais sorte de sobreviver em Lisboa do que em Porto Alegre. A tração elétrica chegou em Lisboa bem antes de chegar a Porto Alegre: chegou em 1901 e o elétrico em que viajo iniciou seu trajeto em 1914; já Porto Alegre começou em 1908 a eletrificação do seu sistema de bondes; ambos surgiram para substituir o sistema de transporte que existia antes, de carros puxados a burros, os maxambombas. Mas em Lisboa os animais não conseguiam puxar os bondes nos morros de Alfama, os bondes elétricos sim e por isso sobreviveram.
Os carros deste Elétrico 28 são da série “Remodelados”, com carroceria clássica de madeira dos anos 1930 e motores, freios e sistemas eletrônicos modernos dos anos 1990. São veículos curtos de dois eixos, tamanho necessário para vencer as curvas fechadas e ladeiras íngremes de Alfama. Nossa frota veio da Inglaterra e, depois, dos Estados Unidos, até fabricarmos carros próprios em Porto Alegre. Chegamos a ganhar o título de capital mundial de bondes entre os anos 1950-1960, tamanho era a nossa frota. Mesmo com o surgimento de metrôs e ônibus em Lisboa, os bondes se provaram insubstituíveis frente à geografia dos bairros históricos, mais apertada e de lomba. Em Porto Alegre, os bondes não tiveram essa sorte. Sofreram com pouco investimento e o aumento do número de automóveis. Quando trabalhei no Museu Joaquim José Felizardo, havia um bonde ali, velho e abandonado no seu pátio. Soube que um dos remanescentes destes bondes está no pátio do Museu de Arte Contemporânea recém-inaugurado no Quarto Distrito. Lembro dos trilhos em frente ao mercado público, que perguntávamos as razões de sua existência. De nossos bondes, sabemos apenas por sua ausência. Em Lisboa, eles são presença.
Os bondes lisboetas aparecem pelas.ruas de bairros como Graça, Alfama, Baixa, Chiado e Campo de Ourique até hoje. Em Porto Alegre, nossos bondes foram desaparecendo aos poucos linha por linha: das linhas do Menino Deus (a pioneira), Glória, Teresópolis, Partenon, Petrópolis, Independência e Navegantes, todas foram extintas, uma a uma. Eram vocações diversas: os bondes de Lisboa, feitos para subir colinas de pedra; os de Porto Alegre, para ligar o Centro Histórico às zonas Sul, Leste e Norte da cidade. Lisboa conseguiu equilibrar modernidade e história; nós não. O Elétrico 28 é uma atração turística mais do que transporte público, mas bem que Porto Alegre, que teve um centro histórico de relevo, poderia ter preservado apenas uma linha ali. Não preservou. Em 8 de março de 1970, os últimos bondes elétricos circularam em Porto Alegre; eram das linhas Partenon, Glória e Teresópolis, com passagens gratuitas e em clima de grande comoção popular.
Por que destruímos nossos bondes?
É isso o que fazemos com nossa história dos nossos transportes de bonde: passamos asfalto por cima. Não foi exclusividade nossa, é verdade, já isso também aconteceu com muitas capitais europeias, que de fato também desmantelaram suas redes de elétricos para substituí-los por ônibus. Lisboa também os fez nas zonas planas, mas o relevo era uma barreira, pois mesmo carros teriam enorme desgaste nas lombas que chegavam a 13,5% de inclinação. Isso sem contar as curvas impossíveis de virada, como as de Alfama, digo impossíveis para ônibus modernos, que são extensos. Os bondes não, são curtos, como nossas lotações, que também estão em extinção graças ao transporte por aplicativo. Em Lisboa há linhas em que há uma única via para bondes nos dois sentidos, com zonas de desvio. Foi a natureza desses bairros que exigiu o bonde, não o contrário. Hoje, em Porto Alegre, um dos últimos que restou é o bonde histórico icônico carro 90, fabricado em 1909, na sede da Carris, que preserva sua história. O nosso bonde vive em museus, enquanto o de Lisboa compartilha espaço com os cidadãos. O nosso foi isolado; o de Lisboa vive de forma orgânica na cidade.
Termina o passeio de bonde e voltamos de Uber. O motorista erra o trajeto e quase bate em outro carro. Penso: “Se não morrer em Lisboa pelo fim do mundo, ainda tenho chance de morrer ao estender roupas, pela ameaça de tsunamis e terremotos, e agora, por acidentes de trânsito”. Turismo deveria ser uma atividade de alto risco, penso aos risos. Em casa, de noite, termino de ler o Le Monde Diplomatique. Olho de novo pela janela. Os tonéis de lixo estão lotados. Aqui os lixeiros vêm duas vezes por dia; os de Porto Alegre, uma vez por dia; e os de Cidreira, dia sim, dia não. Do lado das lixeiras, eu olho o avanço da reforma num prédio antigo. O prédio não será demolido, será refeito, diz o painel que o cobre. Sem torres de apartamentos. Sem mudança de identidade. Ali nascerá um novo prédio, igualzinho ao que estava ali. Que inveja! Saio de manhã e ele está de pé; chego à noite e já não há mais telhado, e no dia seguinte, e um terreno vazio. Aqui, novos prédios só se forem iguais aos velhos. Vejo isso exatamente no dia em que a casa do famoso advogado gaúcho Lia Pires, localizada na Avenida Dom Pedro II, em Porto Alegre, é derrubada, sem dó nem piedade. O casarão foi construído em 1954 e tinha estilo eclético de influência ibérica. Por isso, a política neoliberal alavanca o enfraquecimento das políticas de proteção da memória: como a propriedade não era tombada pelo patrimônio histórico, era permitida a sua derrubada pelos novos proprietários após a venda pelos herdeiros do jurista. Não foi somente o prédio: antes da demolição, os móveis e decorações foram leiloados. Mais uma casa notável e um patrimônio que poderia ter se transformado em museu desaparece frente à fúria do capital imobiliário. Ele não perdoa acervos ou patrimônios; tudo é negócio. Em Lisboa, não. Aqui história importa. Lisboa: isso sim é que deveria ser uma cidade. Será? É sobre isso que desejo refletir no próximo ensaio.