
Porto Alegre sempre me acolheu bem. Foi lá que construí as minhas melhores oportunidades, na profissão e na vida pessoal. Nasci em Pelotas, mas foi em Porto Alegre que me tornei quem sou. Sou cofundador da AG2 em 1998 com o Cesar Paz, o Daltro Martins e o Luciano Almeida, numa época em que a internet ainda era promessa e não certeza. Crescemos juntos, erramos juntos, aprendemos muito. E foi nessa trajetória compartilhada que uma amizade genuína foi se formando, a mesma que, anos depois, faria o Cesar me chamar para contribuir com algo maior do que uma empresa.
O POA Inquieta nasceu dessa inquietude que o Cesar carrega, e que eu reconheço porque também a sinto. É aquela sensação de que uma cidade com tanto potencial não pode ficar parada. Porto Alegre tem gente criativa, tem história, tem escala suficiente para ser um polo de inovação e transformação real. Mas uma cidade não se transforma sozinha. Ela precisa de pessoas que se incomodem o suficiente para agir. O coletivo existe exatamente para articular essas pessoas e fazer com que a cidade seja mais inclusiva, participativa, criativa e sustentável.
Quando Cesar Paz me chamou para criar o logotipo do movimento, entendi que esse era um trabalho diferente de tudo que eu havia feito antes. Não era uma marca comercial. Era a identidade visual de um propósito. E isso muda tudo: a abordagem, o peso das decisões, o que pode e o que não pode estar ali. A primeira diretriz que nos impusemos foi seguir literalmente o nome. POA Inquieta. Nada mais, nada menos.
As letras P, O e A foram construídas de forma geométrica, simples, quase elementar. Um círculo, um quadrado, um triângulo, as formas primárias do design. Essa escolha não foi por economia criativa. Foi intencional. Quando você vai ao básico, abre espaço para a interpretação de cada um. Um movimento social não pertence a quem o cria, pertence a quem o vive. A marca precisava respeitar isso. A tipografia itálica em caixa alta, levemente desalinhada, reforça a atitude: algo em movimento, inquieto, mesmo que estático em um símbolo parado. E o preto e branco é a base que torna tudo isso possível, neutro o suficiente para não tomar partido de cores que carregam simbolismos políticos ou ideológicos. O POA Inquieta não pertence a uma corrente. Ele visa o melhor de Porto Alegre, e ponto.
Uma marca que vai durar décadas não pode ser filha do seu tempo. Ela precisa ser atemporal. Esse foi o critério mais rígido que nos impusemos: quando alguém vir esse logotipo em 2040, não poderá dizer que ele parece dos anos 2020. A geometria resiste ao tempo. A simplicidade resiste ao tempo. O significado, esse é o que precisa ser construído pela comunidade, ano após ano.
Hoje moro em Pelotas, mas Porto Alegre continua sendo uma cidade que me importa profundamente. Estou distante geograficamente, mas próximo em intenção. Em breve, espero voltar. E, quando voltar, quero encontrar uma cidade que aproveitou esses anos para se preparar para as próximas décadas de desafios climáticos, econômicos e sociais. O POA Inquieta é parte dessa preparação. Não, porque vai resolver tudo. Mas porque mantém viva a pergunta certa: que cidade a gente quer ser?
Cristiano Fernandes é designer, empreendedor e estrategista. Co-fundador da AG2 (1998), uma das primeiras agências digitais do Brasil, vendida ao grupo Publicis em 2010. Ao longo de 25 anos, assinou mais de 1.000 projetos para marcas como Bradesco, Toyota, Natura, Nestlé e Embraer. Passou pelo MIT em Boston e é vencedor do A'Design Awards. Em 2026, fundou a Amplia (amplia.cc), produtora criativa focada em brand, conteúdo em escala, performance e inteligência artificial. Nasceu em Pelotas, construiu carreira em Porto Alegre e segue contribuindo para a cidade, mesmo à distância. www.cristianfernandes.com | LinkedIn
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