
Um dos meus primeiros sonhos de adolescente era ter um Fusca.
Ou, pelo menos, achei que fosse meu. Afinal, era exatamente isso que a publicidade dizia. O jovem da propaganda conquistava sua independência comprando o primeiro carro — e aquele carro só podia ser um Fusca.
Fazia sentido.
Numa cidade onde pegar ônibus frequentemente significava acrescentar meia hora ao trajeto, esperar longos minutos na parada, enfrentar veículos lotados e, muitas vezes, fazer baldeações, desejar um carro parecia quase inevitável.
Mas o contrário também é verdade.
Tive uma experiência curiosa ao criar meus filhos fora do contexto brasileiro e depois voltar para cá.
Meu filho, ainda muito pequeno, adorava passear de metrô. Não importava o destino. A viagem era a atração principal. Trocar de linha era uma aventura ainda melhor. Ele ficava fascinado observando os trens chegarem e partirem. Como passavam a cada poucos minutos, a diversão parecia infinita.
Uma história me marcou especialmente.
Certa vez, amigos que moravam em outra cidade nos convidaram para ir ao zoológico com as crianças. O plano era simples: eles passariam de carro para nos buscar e seguiríamos todos juntos.
Meu filho já saiu de casa um pouco frustrado.
— Mas não vamos de trem?
Não, dessa vez iríamos de carro.
A frustração aumentou quando chegamos ao zoológico.
Ou melhor, quando tentamos chegar.
Não faltavam vagas de estacionamento. O problema era o preço. Naquela época, cerca de quinze anos atrás, deixar o carro na rua não compensava: o tempo máximo de permanência era de apenas duas horas e um estacionamento particular dificilmente custava menos de 20 euros.
Começamos então a rodar pelas ruas procurando uma vaga gratuita.
E rodamos.
E rodamos mais um pouco.
Até que, do banco de trás, veio a observação mais sensata do dia:
— Se tivéssemos vindo de metrô, já estaríamos vendo o show dos golfinhos.
Ele tinha razão.
Naquele caso, o carro não tinha tornado a vida mais fácil.
Vale uma pausa para uma pergunta que frequentemente escuto: como Barcelona resolve o problema dos estacionamentos em uma cidade tão densa?
A resposta é simples: não resolve. Ou melhor, resolve de outra forma.
A prioridade é sempre para a mobilidade sustentável. Para isso existem metrô, ônibus, ciclovias, bicicletas compartilhadas, patinetes e calçadas que permitem caminhar com conforto. Estacionar um carro é difícil e caro. Para locomoção individual, tudo é facilitado para as motos, pois não pagam para estacionar na rua. O sistema inteiro comunica uma mensagem clara: o carro pode ser útil, mas não é a opção mais eficiente para a maioria dos deslocamentos cotidianos.
A infraestrutura faz sua parte. O bolso completa o trabalho.
Quando voltamos para Porto Alegre, meu filho tinha cinco anos.
No final daquele ano letivo, a escola enviou para casa uma pasta com desenhos e atividades.
Um deles se chamava “Minha Rua”.
Abri a folha e encontrei duas linhas paralelas representando as calçadas. No meio, uma sequência de carros.
Muitos carros.
Nenhuma árvore.
Nenhuma bicicleta.
Nenhuma pessoa caminhando.
Apenas carros.
Naquele instante percebi que ele havia notado a mudança de ambiente. Eu também.
Investir em transporte público não é apenas uma questão de mobilidade. É uma forma inteligente de utilizar recursos públicos, reduzir desigualdades e construir cidades mais sustentáveis.
E o problema nem sempre é a ausência de metrô; muitas vezes está na falta de incentivos para quem escolhe o transporte coletivo.
Em Barcelona, por exemplo, existem diferentes modalidades tarifárias. Durante anos utilizei um passe mensal que permitia usar metrô, ônibus e trem quantas vezes fossem necessárias. Como o valor já estava pago, acabava utilizando o transporte para tudo: trabalhar, resolver pequenas tarefas, voltar para casa no almoço quando dava tempo. Para quem utiliza menos, há modalidades de compra antecipada de 10 passagens com desconto, e para menores de 30 anos também existe uma tarifa especial.
O sistema estimulava o uso. O custo máximo estava precificado.
Em Porto Alegre, o Cartão TRI se tornou digital e mais moderno. Mas perdeu algumas vantagens que incentivavam a utilização frequente. Não há benefícios para compras antecipadas de passagens, nem um valor máximo mensal ou planos familiares. O resultado é que a tecnologia avançou mais do que a atratividade do sistema.
Enquanto isso, as ciclovias parecem viver uma espécie de paradoxo.
Quando surgem, atraem usuários; quando se deterioram, perdem usuários.
E a manutenção raramente recebe a mesma urgência que receberia uma pista destinada aos automóveis.
Posso falar por experiência própria.
Sempre utilizei a bicicleta como meio de transporte. Foi emocionante acompanhar a transformação provocada pela ciclovia da Avenida Ipiranga. A cada mês parecia haver mais pessoas pedalando.
Mas, depois das cheias que atingiram a cidade em 2023, alguns trechos permaneceram danificados por muito tempo. Em vários pontos, grades de proteção desapareceram e a sensação de segurança diminuiu.
O resultado foi imediato. Muita gente voltou para o carro.
Eu, inclusive.
Hoje sou mais um veículo ocupando espaço no trânsito, gastando combustível e aumentando minhas despesas mensais.
E sinto falta da bicicleta.
Sinto falta daquele momento do final da tarde em que o deslocamento deixava de ser uma obrigação e se transformava em uma pausa para observar o céu alaranjado de Porto Alegre.
Curiosamente, enquanto o transporte coletivo perde usuários e a bicicleta enfrenta dificuldades, os aplicativos de transporte ganham cada vez mais espaço.
E é fácil entender por quê.
Para deslocamentos curtos, especialmente quando duas pessoas dividem a corrida, muitas vezes o custo se aproxima do valor de outras alternativas.
A escolha parece racional.
Mas toda escolha produz consequências coletivas.
Quando parte da população abandona o transporte público, o sistema perde passageiros, arrecadação e capacidade de investimento. E quem mais sofre são justamente aqueles que dependem dele diariamente.
Especialmente quem mora mais longe.
Aí surge uma contradição importante.
As moradias mais acessíveis economicamente costumam ser construídas cada vez mais distantes das áreas centrais, justamente onde se concentram empregos, serviços e oportunidades.
Quem possui menos recursos acaba gastando mais tempo para chegar aos lugares que precisa frequentar.
A desigualdade também circula sobre rodas.
Por isso, transporte público de qualidade deveria interessar até mesmo a quem prefere andar de carro.
Afinal, uma cidade onde ônibus, bicicletas e caminhadas funcionam bem é uma cidade com menos congestionamentos para todos.
No fundo, a questão não é ser contra o automóvel.
É ser contra a dependência dele.
Porque, quando a única solução possível é o carro, a cidade deixa de oferecer escolhas. E cidades boas são justamente aquelas que nos permitem escolher.
Enquanto isso, sigo aguardando a recuperação completa da ciclovia da Avenida Ipiranga.
Talvez seja apenas uma ciclovia.
Mas, para quem já fez daquele caminho parte da felicidade cotidiana, ela representa algo maior.
Representa a possibilidade de trocar mais um carro no trânsito por um fim de tarde pedalando sob o céu de Porto Alegre.
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