
Em 1970, eu tinha 11 anos e assisti à Copa na casa da vizinha, que tinha TV. O Brasil conquistou o tricampeonato e eu tive a felicidade de ver o Pelé jogar sua última copa. O Brasil inteiro cantava “Pra frente, Brasil, salve a seleção”; naquela época, o otimismo era obrigatório. Era a época do “Ame-o ou deixe-o”. Ah, tempos mais simples. Naqueles tempos, era até permitida propaganda de cigarro durante os jogos, e o Gerson ficou eternizado com o comercial: “Eu gosto de levar vantagem em tudo, por isso fumo Vila Rica”. Uma ideia que inspirou as gerações futuras. Hoje, claro, evoluímos: trocamos o cigarro pelas BETs, e os jogadores, em vez de anunciarem algo que mata aos poucos, anunciam algo que arruína rapidinho. Progresso!
Depois dessa Copa, assisti a todas as outras. Continuo gostando de futebol, mas estou com um sentimento estranho no peito e resolvi investigar antes de ligar para o SAMU. Estamos a poucos dias de começar a maior — e mais cara — Copa da história, e eu não sei nem o nome da metade dos jogadores. Quando li a lista dos convocados: Rayan, Endrick, Weverton, Wesley, pensei que era a da Escócia. Lembro que antigamente o Brasil todo entrava numa euforia coletiva: meio-fio pintado de verde e amarelo, bandeirinhas nos postes, vizinho tocando zabumba de madrugada. Hoje? Silêncio. Nem o meu vizinho, que grita durante os jogos, parece empolgado. O que estará acontecendo com a Seleção? E o que estará acontecendo comigo?
Toda seleção precisa de um ídolo em que a torcida confie. Uma figura capaz de fazer o povo ir às ruas de bermuda e chinelo, gritando coisas sem sentido. O nosso maior ídolo ainda é o garoto Neymar, o Peter Pan do futebol brasileiro, que já participou de três copas e não ganhou nenhuma, mas aos 34 anos continua sendo tratado como “promessa”. Depois de uma polêmica enorme sobre a sua convocação, que foi vencida pelos patrocinadores, descobriu-se que ele estava lesionado. Segundo o programa de humor “Falha de Cobertura”, o Neymar está tendo todo o cuidado e tratando com muito muito carinho da sua lesão. Ora, com todo este tratamento, é óbvio que a lesão não vai querer ir embora.
O que teria me tornado tão cético? Serão sequelas do 7×1 em casa? Aquele jogo contra a Alemanha, em que a gente não sabia se era um novo gol ou replay dos anteriores. Ou será que o fato de o Brasil ter se classificado para a Copa em quinto lugar nas eliminatórias, atrás de Argentina, Equador, Colômbia e Uruguai, e empatado com o Paraguai? Sim, o Paraguai teve o mesmo número de pontos que o Brasil. Pensando bem, o perigo é chegar até as semifinais, como em 2014, e repetir o trauma coletivo causado pela derrota para a Alemanha. O melhor cenário é ser eliminado nas quartas de final, pois o Brasil já tem experiência, foi eliminado em 1954, 1986 e, mais recentemente, 2006, 2010, 2018 e 2022. Temos agora a chance de sermos “hepta em quartas de finais” e finalmente nos igualaremos à Inglaterra, que foi quem inventou o futebol. Veja o patamar que alcançaremos com esta conquista. Se chegarmos às quartas e perdermos de forma digna, mesmo que seja para Curaçau ou Cabo Verde, provavelmente na volta haverá desfile dos jogadores em caminhão de bombeiros pelas ruas das principais capitais.
Diferentemente das Copas na Rússia e no Catar, nos EUA vivem mais de dois milhões de brasileiros e seus descendentes. Some os que foram daqui; provavelmente seremos uma das maiores torcidas na competição. O meu temor é que o Trump considere que isso represente uma ameaça aos interesses da seleção americana. Aí pronto: ele pode muito bem taxar o Brasil, proibindo que 50% dos brasileiros entrem nos estádios, ou cobrar um imposto dos que gritarem gol. Por outro lado, se isso acontecer, será mais uma injustiça histórica e passaremos os churrascos das próximas décadas reclamando da FIFA e exigindo o título que nos foi roubado.
No fundo, acho que esta será a nossa copa mais tranquila. Qualquer resultado será bem aceito e com resignação. Já os argentinos, esses sim, se não ganharem, sofrerão muito. Veja pelo lado positivo, pelo menos nesta rivalidade, estamos em vantagem. Então, mesmo sem empolgação, assistirei a todos os jogos com sangue doce, sem estresse e sem ilusão. Será provavelmente a Copa mais zen da minha vida.
E se der zebra, se por algum milagre inexplicável o Brasil chegar à final, coisas que acontecem no futebol, aí, meu amigo, o estresse volta. Eu terei que explicar para o meu cardiologista que tomei todos os remédios, mas o coração saiu do controle. Deus nos livre e guarde, mas se ele nos deixar passar das quartas, que seja para ser campeão. Tenha piedade do povo brasileiro.
Referência:
Falha na Cobertura #269: Preparação pra Preparação.
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