
Há um debate contundente sobre o interesse internacional, especialmente estadunidense, pelas terras raras brasileiras. Você sabe por que as maiores potências do mundo passaram a disputar um grupo de minerais que poucas pessoas conhecem, mas dos quais depende praticamente toda a tecnologia do século XXI? No caso de nosso país, essas terras significam uma riqueza importante para a nação. Será que as terras raras significam, para o século XXI, aquilo que o petróleo representou para o século XX?
A CNN Brasil noticiou no dia 30 de março passado – matéria de Jonatas Martins – que o pré-candidato à presidência, filho do ex-presidente presidiário, pronunciou conferência nos Estados Unidos, durante a Conservative Political Action Conference. Assim, não restam dúvidas de que ele defendeu que o Brasil é “a solução para os Estados Unidos quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”. O senador de São Paulo argumentou que “sem esses componentes, a inovação tecnológica americana torna-se impossível e a produção do sistema militar avançado que mantém a superioridade americana cai nas mãos dos adversários”. A cereja do bolo parece ter sido a afirmação do político do PL de que “quando os Estados Unidos ficam vulneráveis, todo o mundo livre fica vulnerável”. Daí, mirar o Brasil como celeiro e quintal norte-americano.
Luana Zanobia, chefe subeditora de Conteúdo na editoria Money da Forbes Brasil, em 29 de junho de 2026, partilhou que um novo capítulo na relação Brasil/EUA está inaugurado com a corrida global por minerais críticos. A jornalista informa que a cooperação na exploração e no desenvolvimento da cadeia de terras raras deixou de ser apenas uma agenda econômica. Ela passou a ocupar uma agenda estratégica em meio à disputa global por insumos essenciais para a transição energética, a indústria de defesa e as tecnologias avançadas.
Um documento oficial dos Estados Unidos foi enviado a Brasília para tratar da elaboração de um memorando de entendimentos para cooperação em minerais críticos e terras raras. Entretanto, ele demonstra que o Departamento de Estado norte-americano trata nosso país como qualquer um, quando somos o segundo maior detentor de terras raras no mundo. Na verdade, o teor e o descuido com o qual ele se apresenta levantam questionamentos sobre o real interesse americano em uma parceria mutuamente benéfica. Nele, O Brasil foi indevidamente identificado como “Equador” e “país X”.
O assunto tem sido exaustivamente tratado pela imprensa falada e escrita. Lamentavelmente, a linguagem técnica utilizada e as mensagens subliminares não proporcionam um entendimento acurado do assunto pelo cidadão. O entendimento sobre o assunto fica represado entre aqueles que estão na gestão da coisa pública e as minorias elitizadas afetadas pelo tema. A emoção da política polarizada manipula a temática, fazendo-a soar como fake news em detrimento das candidaturas que se alinham a ideologias de extrema-direita e fascista. Contudo, além de não ser verdadeira a crítica que se faz, não há como recuar na defesa da soberania nacional.
Terras raras é o nome que se dá a um grupo de 17 elementos que não são exatamente raros, mas sim de exploração complicada, presentes nos celulares, nas telas, nas turbinas eólicas, nos carros elétricos, nos painéis solares e até nos mísseis supersônicos. A geógrafa e pesquisadora Julie Klinger, especialista em mineração. Assim, não restam dúvidas de que a geógrafa e pesquisadora Julie Klinger explicou à BBC Reel por que esses elementos se tornaram tão cruciais:
“Eles têm propriedades magnéticas e de condutividade fantásticas, que permitiram a miniaturização dos nossos eletrônicos: para que nossos computadores ficassem do tamanho de celulares e laptops, em vez de serem do tamanho de um prédio. Permitiram também veículos mais eficientes, por simplesmente torná-los mais leves e resistentes ao mesmo tempo”, disse ela, em entrevista concedida em março de 2025.
Outra utilização crescente está na área militar. A Otan, Aliança Militar Ocidental, declarou a imprescindibilidade das terras raras na produção de caças, tanques, submarinos e mísseis. Conforme declarou, o abastecimento desses minérios, inclusive os terras raras, é “vital para manter a vantagem tecnológica e a prontidão operacional da Otan”. (Paula Adamo Idoeta e Camilla Veras Mota, BBC BRASIL, 27 de julho de 2025)
Única produtora de elementos de terras raras em escala comercial fora da Ásia, Serra Verde, localizada em Minaçu (Goiás), foi vendida para a americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, em abril passado. A venda, além de chamar a atenção do setor mineral brasileiro, chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) no intento de suspender a operação. Dela são extraídos minerais de argila iônica, essenciais para a fabricação de ímãs de alta potência usados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, drones e equipamentos militares de ponta. Nesse caso, trata-se de um posicionamento estratégico dos Estados Unidos, que assegurou, assim, sua participação acionária na empresa. É só o começo de uma guerra que ameaça a soberania nacional e promete chegar muito longe.
Uma vez mais, a ambição norte-americana ameaça a soberania nacional por concentrar o controle estrangeiro sobre minerais estratégicos vitais para a transição energética e defesa. Como o Brasil não domina o refino e a industrialização desses materiais, corre o risco de se limitar a exportar a matéria-prima barata, enquanto potências estrangeiras agregam valor e ditam as regras geopolíticas globais.
O Brasil tem 23% das reservas mundiais de terras raras — a segunda maior do mundo, atrás apenas da China. Tem 94% do nióbio do planeta. Tem 8% do lítio global. Tem a segunda maior reserva de grafita. E produz menos de 1% do que poderia em terras raras — cerca de 20 toneladas em 2024, num mercado que movimenta bilhões. Uma tonelada de espodumênio — lítio bruto — sai do Brasil por cerca de US$ 800. A mesma tonelada, transformada em hidróxido de lítio grau bateria, vale US$ 8.000. O Brasil exporta o minério. Outro país faz a química. Outro país fabrica a bateria. Outro país coloca no carro elétrico. E captura dez vezes mais valor em cada etapa que o Brasil não realiza. O Brasil é um país de concentrações extraordinárias. E historicamente não sabe o que fazer com elas além de exportá-las na forma mais bruta possível (Neomundo, 26/02/2026).
O governo brasileiro tem como tarefa indeclinável manter o domínio sobre os recursos naturais de nosso imenso Brasil; desenvolver, inovar e expandir nossa capacidade tecnológica e o processo de industrialização de nossa produção. Sobretudo, não renunciar à autonomia política nas decisões estratégicas. São condições necessárias à soberania nacional. Mas a discussão sobre as terras raras ultrapassa a exploração de recursos naturais e remete ao desafio histórico do desenvolvimento brasileiro.
Celso Furtado (2007) advertiu que países ricos em matérias-primas tendem a permanecer em uma posição de dependência quando não transformam suas riquezas em capacidade industrial e tecnológica. Nessa mesma perspectiva, Sachs (2004) defendeu que o verdadeiro desenvolvimento deve conciliar crescimento econômico, justiça social e sustentabilidade, evitando a simples exaustão dos recursos naturais em benefício de interesses externos. Ha-Joon Chang (2004), por seu turno, esclarece que nenhuma nação alcançou elevado grau de desenvolvimento sem políticas industriais capazes de agregar valor às suas riquezas e proteger setores estratégicos de sua economia. Para Mariana Mazzucato (2014), o Estado deve assumir papel protagonista na indução da inovação, do investimento em pesquisa e da construção de capacidades tecnológicas nacionais. Assim, a questão das terras raras não se resume à posse de reservas minerais, mas à capacidade do Brasil de transformá-las em conhecimento, inovação, indústria e soberania econômica.
A ocasião é propícia para lembrarmos a intensa campanha – O Petróleo é nosso! – realizada no Brasil entre os anos 40 e 50, pressionando para que a exploração e o refino do petróleo fossem monopólio do Estado brasileiro. Graças a ela, em 3 de outubro de 1953, o presidente Getúlio Vargas sancionou a Lei nº 2.004, garantindo o monopólio da União na área e criando a Petróleo Brasileiro S.A. Por analogia, parece que precisamos enveredar na mobilização social para garantir que assumamos o protagonismo na posse e produção de produtos advindos de nossas terras raras.
Sim, não somos um país “X” qualquer a ser mirado como estratégia de invasão e extração de nossas riquezas minerais. Nossa riqueza é nossa e nossa soberania não está à venda. O desenvolvimento de políticas de pesquisa e inovação que assegurem a permanência entre nós das riquezas que a natureza nos oferece é fundamental para o combate à pobreza e elevação dos patamares de qualidade de vida, de forma que não restam dúvidas: a exploração das terras raras deve ser compreendida como uma questão de soberania nacional, desenvolvimento tecnológico e estratégia geopolítica.
Oxalá todo cidadão brasileiro possa entender que se trata de uma questão de soberania nacional. Nós somos um povo cordial, com direitos e deveres. Somos o país do carnaval e do futebol. A alegria é nossa estupenda matéria-prima. Primamos pela paz e pelo diálogo. Mas não somos idiotas; não podemos e não devemos renunciar àquilo que, pertencendo ao povo brasileiro, é de cada um, de cada uma e de todos nós.