
Vou confessar um delito: roubei da minha coleguinha de colégio e queridíssima amiga Katia Schames o irmão dela, um par de anos mais velho que nós, o verdadeiramente magnífico Sid Schames. Nada de tão grave: eu e a Katita só compartilhamos o mano e fica tudo em casa. Com o Sidão eu cultivo o hábito nada lisonjeiro de, diante de um café com torta de limão, uma casquinha de siri ou um assado regado a cachaça (o Sidão tem as melhores cachaças da cidade, e eu sou um inveterado cachaceiro), seja em Capão, Araçá, Porto Alegre ou Viamão, em meio às árvores de frutas cítricas (que afano no fim do dia sob a aquiescência do afanado; logo, não se configura um furto), desferir sentenças e falar mal da vida alheia. Mas fique tranquilo, leitor, só falamos mal da vida de quem merece, e você certamente não está incluído na nossa lista. Teve uma vez que passamos a manhã lavando roupa e, ao nos encontrarmos à tarde, comentamos, “bah, faltou aquela”, mas aí rimos muito, porque em seguida concluímos que “aquela” é tipo self service, basta-se em si. E até hoje, uns dez anos depois, ainda rimos dessa rematada bobagem. Enfim, assim somos.
Mas, numa dessas charlas, entre goles de purinhas e dentadas no pão com alho, falamos sobre os oportunistas. Porque o assunto é mais antigo. Fazia anos que compartilhávamos da mesma dúvida: o que tem mais no mundo, pessoas más ou burras? Nem vou ingressar no quesito “chatos”, porque aí o texto vai muito longe, e isto aqui se propõe a ser uma crônica (talvez os chatos, ou “sem noção”, venham numa próxima). A conclusão a que chegamos é que a figura mais usual e frequente é a do oportunista. Aí, o Sidão ponderou: “O oportunista é um tipo de mau, entra nesse quesito”, e conviemos também que o oportunista é diferente do meramente interesseiro, porque perceba que sempre nos movemos por interesse, nem que esse interesse seja pelo amor sincero ou por uma amizade verdadeira. Nunca deixa de ser interesse, e não necessariamente isso é algo negativo.
Ok. O oportunismo é uma espécie de maldade. Tanto faz.
Em respeito ao meu amigo, usei a palavra “dominante” no título em que o cito. Se fosse por minha própria conta e risco, o título seria “O mundo é dos oportunistas”, porque é assim que a vida me ensinou a ver. Mas não chegamos a formular juntos essa sentença tão peremptória e, talvez pra ele, exagerada. E agora apertem os cintos, porque, sobre o resto que vem aí, sou eu ao volante, pisando fundo com ganas e intensidade. O radicalismo (ir à raiz) em alguns temas e algumas percepções é meu, assumido, consciente, orgulhoso, frequentemente individual e sobretudo intransferível.
Entender que o oportunismo é uma praga disseminada com mais intensidade que qualquer outra ajuda a dar leveza à vida, porque explica que aquela ex-colega relinchante que deixou de te seguir em rede social quando tu saiu de um emprego glamouroso é oportunista; aquele amigo que te exclui de um novo grupo que passa a ser mais conveniente (e oportuno) é oportunista; aquela namorada ou namorado que te deixou por alguém oportuno e sob motivos misteriosos muitas vezes é oportunista (pode trocar por “amigo ou amiga”, também); o chefete ordinário que te veta ou ignora sem explicações razoáveis frequentemente é oportunista; o cara que te evita porque tu te posiciona em assuntos semi-intocáveis e sensíveis (algo comum em aldeias povoadas de imaginários) e isso pega mal com quem interessa e monetiza (dá lucro) é oportunista; aquela figura que se afastou quando tu entrou num aperto financeiro e não precisa mais de ti é, além de constrangedoramente interesseira, oportunista, porque todo oportunista é necessariamente movido por interesses, só que no caso dele sempre por mal. Sacou a diferença entre oportunismo e interesse? Logo, a vida real nos dá infinitos exemplos, cotidianos (creia que citei alguns muito aleatórios).
E este é o ponto. O oportunismo é a característica mais frequente dos seres humanos, mais que a maldade pura (sem motivo aparente) ou a burrice e inclusive mais que as inclinações movidas genericamente apenas a puros interesses.
Tipo assim: todo oportunismo envolve interesse, mas nem todo interesse é oportunista.
A minha conversa com o Sidão sobre os oportunistas é de duas semanas atrás. Foi num sábado ensolarado prévio às pancadas de chuva já anunciadas, que chegaram na manhã de domingo, o domingo de decisão da Copa do Mundo. Voltei pra casa já sarado da cachaça, porque eu, ele, a Dione e a Aninha ficamos um dia inteiro conversando, e a cachaça é tomada estrategicamente no início da tertúlia (por algum motivo, as gurias vão de espumante, devo ressalvar). O carro veio cheio de bergamotas, limões e laranjinhas, aquelas que tu come com a casca. E eu vim pensando na nossa conversa, na quantidade de figuras que se enquadram no quesito “oportunistas”. Muito me incomodam, em tempos de antissemitismo normalizado e deslavado, os judeus que se configuram como “bons judeus”, que põem uma suposta ideologia na frente da identidade. Vou abrir um parêntese pra reproduzir algumas frases que tive numa conversa com queridos amigos judeus, progressistas como eu, sobre esse assunto. Aqui vão uns trechos, e em seguida volto ao texto, porque vou entrar na impressionante e absurda campanha anti-Argentina.
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“(Falávamos sobre um semovente do PSOL que definiu expressamente que estuprar mulheres judias como forma de resistência é aceitável e foi justificado pelos seus cúmplices pares) O que deveria ser óbvio, mas as pessoas comodamente não enxergam quando não lhes convém é que, se um monstro desses fala 10% de algo assim sobre negros, homossexuais ou mulheres (não judeus e não judias), no mínimo a candidatura do sujeito é cassada pelo partido ou pela aliança que o integra. SQN. Com judeu tá valendo. Ninguém liga, até endossam. Somos invisíveis. Somos meia dúzia de votos. Por isso que rompi emocionalmente com pessoas que supostamente um dia foram minhas amigas e inclusive em quem votei a vida inteira. Algumas supostas amizades de décadas acabaram, e eu faço questão de dizer o motivo pro ex-suposto amigo. Precisam entender que existimos e que, sim, essa permissividade com o racismo antissemita terá um custo pra eles.”
“Essa atitude não é ‘fácil’ (é muito difícil, tem rompimentos dolorosos aí) e não é meramente ‘por etnia’ (é contra o racismo antissemita normalizado). Fácil é fazer vista grossa ‘por ideologia’ (serão mesmo progressistas?!) a esses absurdos, por tapinhas nas costas, pra manter uma posição político-partidária cômoda e pra não ser visto com desdém por antigos ‘companheiros’. Rompi com tudo isso sem me jogar no alardeado ‘fascismo’. E é MUITO difícil, mas me parece a atitude correta até no sentido moral.”
“Na minha visão de genuíno e convicto progressista (que sou e sempre serei), empunhar a bandeira do grupo extremista e obscurantista Hamas, apoiar os asquerosos aiatolás (as figuras mais fascistas do planeta) e normalizar a justificação do estupro (como vimos acima) não são atitudes de reais humanistas e progressistas (eu sou isso, convictamente e sem contradições). Onde fica a ‘ideologia’ nisso?”
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E por aí seguiu.
Me assombra o duplo padrão de escandalizações seletivas ao sabor das conveniências oportunistas. Escândalo ou não dependendo de onde e com quem é uma guerra e suas sempre trágicas consequências (“no jews, no news”). Escândalo ou não dependendo da origem étnica de mulheres estupradas. Escândalo ou não com a homofobia, tolerada ou não (nunca deveria ser tolerada) se a “flexibilidade cultural” justifica uma estupidez universal. Silêncio quando o Ortega anuncia o fim das eleições na Nicarágua, mas gritos contra a política de pulso firme da segurança do Bukele em El Salvador. Ou seja, tudo ao sabor das circunstâncias. Sempre o oportunismo, algo tão profundo que é capaz de fazer “progres” apoiarem aiatolás e negarem o direito de a etnia mais perseguida da História ter a sua comprovadamente necessária e legitima autodeterminação no lar ancestral e médicos conservadores se porem contra a vacina, defenderem placebos e concordarem que a Terra é plana, sorrindo amarelo pra não brigar com aliados de ocasião. Gados destros e canhotos, todos, ao fim e ao cabo, oportunistas. Experimente tocar num assunto que é senso comum ou mainstream. Experimente confrontar um imaginário. Experimente zelar pela sua identidade quando ela configura a Geni do Chico. As redes sociais dão números aos bois (isso é literal). Um estúpido com seguidores vira referência, o bom conteúdo é desprezado.
Assim está o mundo. Os oportunistas, essa vertente da maldade (como bem ressalvou o Sidão), têm a chave da porta de entrada da Casa Verde do Alienista.
Ah, importante dizer que o silêncio também, por vezes, é cúmplice e oportunista. Exemplo? O cara vê um amigo ser massacrado num grupo de Whatsapp, com postagens francamente antissemitas (algo completamente normalizado e até incentivado) e alega “não entender do assunto” pra silenciar. Ou diz se tratar de “ideologia” (!!!). Ora, além de absurdo (se realmente não entendeu, o entendimento requer um pequeno esforço, e racismo não é “ideologia”), desde quando isso foi motivo pra pusilanimidade do silêncio diante de uma evidente agressão?! Mas a questão do oportunista é não sair do compasso da boiada.
A ótima Mariliz Pereira Jorge escreveu na Folha: “Num outro momento do mundo, um ataque contra a Parada do Orgulho em Berlim (por um extremista islâmico), com um morto e dezenas de feridos, teria inundado as redes de mensagens de repúdio à homofobia. O mesmo ocorreria com a noticia do cruzeiro gay impedido de atracar no Egito e na Turquia em nome da ‘defesa dos valores morais’. O que se vê é silêncio ou manifestações cheias de cautela.” Vamos ao grão: puro suco de hipocrisia e oportunismo, querida Mariliz.
Volto a pontuar as diferenças entre interesse e oportunismo. Dou a mão para quem me estende a sua. E isso não é oportunismo; é legítimo e honesto interesse.
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Mas falemos, então, da Argentina.
É curioso como uma conversa sobre temas gerais surgem por algum motivo que muitas vezes nem percebemos. A vida é assim, você já percebeu? Ocorre com alguma frequência. Um exemplo meu: escrevi meu primeiro livro, sobre a Coligay, há 12 anos. Na época, além do assunto em si e dos seus vários e fortes significados, hoje está claro pra mim que eu enxerguei os rumos do jornalismo, que escrever um livro desse tipo era uma forma de manter intacta a idealização que tenho do ofício que tanto amo, porque, por mais que me chamem de “escritor” (nada contra), na verdade, me considero um jornalista que escreve livros, e amo a minha profissão e a forma como a exerço na plenitude.
O querido Kevin Levin, judeu, argentino, progressista, muito culto e inteligentíssimo, disse, ao ser entrevistado no canal Todo Noticias (TN), uma espécie Globonews local: tenho dito para os meus amigos não judeus que agora eles podem entender um pouco como nos sentimos.
O fato é que, depois da Copa, surgiu uma onda em redes sociais, tonificada por figuras públicas muito levianas e irresponsáveis, definindo a Argentina como “o país mais racista do mundo”. Vi espanhóis dizendo isso. Manja a Espanha? O país que colonizou inclusive a própria Argentina, espoliou, fez a inquisição e convive com xingamentos absurdos contra o Vini Jr por conta da sua negritude.
Figuras como o repulsivo ator Javier Bardem, podre de antissemita, e a cantora sem noção Rosalia saíram a vomitar impropérios contra a Argentina, numa generalização inacreditável. E onde entra o oportunismo nisso? Quando ele se deu conta que tem um grande público entre os argentinos e ela se lembrou que estava agendado um show em Buenos Aires, saíram a público tentando desdizer os absurdos que disseram.
Puro cálculo oportunista de figuras que se mostraram desprezíveis.
Aliás, escrevi dois textos aqui sobre a minha assumidíssima “argentinidade” e sobre o fato de eu ter torcido pra Scaloneta na Copa. Morei lá no fim do século passado e me identifiquei demais com os hábitos e o jeito deles. Se não fosse a rotatividade que a Folha fazia dos seus correspondentes, eu pegaria a família, poria os meus futuros filhos em escolas portenhas e viveria lá indefinidamente. Lá tenho meu grande Bom Fim idealizado, por assim dizer.
Houve uma perigosa generalização sobre a Argentina quanto à ausência de negros no time e a casos de racismo, como se a Espanha, onde joga (e sofre) o Vini Jr, fosse um exemplo de inclusão, aliás, sendo justamente ela o país que colonizou a própria Argentina, espoliou e estabeleceu a inquisição com suas intolerâncias e violências. Repito porque choca. É sério? Estamos falando da Argentina do centroavanteindígena Lautaro (Toro) Martínez, a Argentina que aboliu a escravidão na Constituição de 1853 (no Brasil, isso ocorreria 35 anos depois) e teria feito isso já em 1813 (bem no meio do período entre a Revolução de Mayo e a Independência), se o império brasileiro não tivesse implorado pra não dar esse exemplo que atrairia quilombolas loucos pra fugir do pesadelo verde-amarelo com cheiro de café e açúcar. Confundem uma manga de imbecis racistas que, sim, sempre existem, com um país. O que temos mais aqui? Hipocrisia ou contradição? Faça a sua aposta numa dessas Bets estranhamente normalizadas que andam por aí.
Como em todo bullying, o efeito manada dos oportunistas o amplia e aprofunda. O oportunista é atraído pelo cheiro daquilo que lhe convém ser evitado ou até repudiado, cuja rejeição ou xingamento rende cúmplices e confortáveis tapinhas nas costas de aceitação grupal, funciona tal qual um bando de hienas rindo no mesmo tom histriônico, feio, assustador. Como o tubarão guiado pelo sangue da vítima. O oportunista é um tipo sem a real empatia, refiro-me a empatia cotidiana, às vezes imperceptível, escassa nos tempos que correm. É capaz de agredir sem medir as consequências, seja a um grupo humano, um coletivo ou indivíduos. O cara nem reflete sobre como age, o que faz e diz ou não faz e não diz, muitas vezes por preguiça, porque é fácil, cômodo e vantajoso só repetir o eco, surfar na onda e sugar o sangue da presa. O importante é não ser contaminado pelo isolamento do outro transformado em pária e pela repulsão que se construiu em relação a ele ou papagaiar ideias mesmo que sem fundamento, mas de potenciais dividendos.
E é aí que está a danação da vítima, mas também a esperança, porque a efetividade de uma busca insistente de esclarecimento diante da estupidez confere sentido a quem abre a boca, eventualmente se expõe no combate a imaginários falsos e acarreta os custos da sinceridade necessária, às vezes urgente. Quando um ou outro oportunista culposo (o doloso geralmente é irremediável) é chamado à razão e tem alguma mínima noção do correto, do honesto e do justo, a bolha talvez seja furada e pode se instaurar a dúvida, a dissonância no coro irrefletido, o “opa, pessoal, não é bem assim”. E o jogo pode ir se equilibrando até quem sabe virar.
Serve pro pátio da escola, pra Argentina ou pra Israel. Pra Geni de ocasião. Mas isso requer honestidade intelectual e altivez, qualidades raras, inversamente proporcionais à estupidez do “tô nem aí”, de quem prefere pensar no quão oportuno é, diante do racionamento de farinha, ter o seu pirão primeiro. O oportunista culposo é um burro a ser resgatado do pasto da sua ignorância caso tenha algum genuíno valor próprio; o doloso pasta no campo do egoísmo, da hipocrisia e da leviandade, como um Javier Bardem que achou uma ideologia pra viver e até aparenta falar bonito nos seus slogans e frases vazias durante o Oscar, mas se afunda no caminho muitas vezes sem volta da oportunamente calculada irresponsabilidade.
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O oportunismo se reveste de diferentes roupagens. Elucida rejeições. Explica bullying. Escancara até o racismo quando ele é bem aceito e incentivado pelo entorno. Muitas vezes desvenda o machismo. Até o uso das drogas pra ser aceito pela turma pode ser explicado pelo oportunismo. Entender que ele existe e desgraçadamente está disseminado como algo muito próprio do ser humano não deixa de ser libertador. Pelo menos entendemos! E, ao entendermos, podemos mostrar aos filhos como eventuais decepções aparentemente incompreensíveis, algo frequente na vida (há mais desencontros que encontros neste vale de lágrimas), podem sim, ser compreendidas por este defeito tão comum ao ser humano.
Já dizia o argentino José Hernández no inigualável poemão Martín Fierro, livro que amo com toda a alma, talvez, pra mim, o maior de todos: “El diablo sabe por diablo / Pero más sabe por viejo”. E dizia mais o genial Hernández, falando justamente sobre o tema desta coluna: “Hacéte amigo del juez / No le dés de qué quejarse / Y cuando quiera enojarse / Vos te debés encojer.” Hmmm. O oportunismo também é uma forma de defesa para levar a vida com sabedoria. Mas perceba que agora vou tirar a grande lição do mestre argentino, com Martín Fierro, numa cena comovente, dirigindo-se aos próprios filhos: “Los hermanos sean unidos / Porque esa es la ley primera / Tengan unión verdadera / En cualquier tiempo que sea / Porque si entre ellos pelean / Los devoran los de afuera.”
Sacou? Essa é a maior de todas as leis. A verdadeira. A primeira!
Lechaim e shabat shalom!
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