
No livro Cradle to Cradle – ou, traduzindo, Do berço ao berço – considerado no meio acadêmico uma referência importante para repensarmos nossos processos de produção e consumo, os autores começam com uma pequena história que me fez pensar muito.
É mais ou menos assim:
Um planeta encontra a Terra e diz:
— Ei, você está horrível.
A Terra responde:
— Eu sei. Estou com Homo sapiens.
O planeta replica:
— Não se preocupe. Eu já tive. Logo desaparecerá.
Depois de ler isso, fiquei pensando sobre a dimensão humana na história do planeta.
A Terra tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Nossa espécie, o Homo sapiens, existe há cerca de 200 mil. É essa a nossa dimensão diante da história do planeta.
Ainda assim, sabemos o estrago que organismos minúsculos podem provocar. A pandemia deixou essa possibilidade muito viva em nossa memória.
Mas há uma diferença importante. Vírus e bactérias não costumam destruir o planeta. Nós, ao contrário, temos uma capacidade extraordinária de transformar o ambiente em que vivemos.
Não sou especialista em mudanças climáticas e, por isso, prefiro não entrar em debates para os quais não tenho conhecimento suficiente. Nada mais cansativo do que especialistas de ocasião.
Mas, se os cientistas que alertam para as mudanças ambientais estiverem certos, há uma coisa que me parece importante lembrar: o planeta Terra não vai acabar.
Não vai simplesmente apagar a luz e todos nós iremos dormir.
A Terra continuará existindo.
Talvez apenas precise se recuperar de nós.
Como um organismo que enfrenta uma doença, poderá passar por febres, desequilíbrios e processos de adaptação até reencontrar algum tipo de equilíbrio. Afinal, já sobreviveu a meteoros, eras glaciais e transformações inimagináveis.
Está calejada.
Nós é que deveríamos estar preocupados.
Porque, apesar da nossa pequena dimensão na história do planeta, somos engenhosos. E gananciosos. Fazemos ruído. Ocupamos espaço. Extraímos recursos em uma velocidade impressionante.
Já observaram um mapa noturno da Terra?
A iluminação mostra nosso poder de ocupação, mas também revela onde a riqueza está concentrada. No Brasil, uma faixa de luz acompanha boa parte do litoral do Atlântico, dando a impressão de que ali está quase tudo o que importa.
Mas não se enganem.
As áreas rurais ficam escuras à noite. E elas ocupam uma parte enorme do território onde produzimos grande parte dos recursos que consumimos.
É uma imagem bonita e incômoda ao mesmo tempo.
É justamente aí que o Cradle to Cradle provoca uma reflexão que considero fundamental.
O problema não é simplesmente extrair recursos.
Precisamos deles para sobreviver.
A questão é o que fazemos depois que os extraímos.
Os autores propõem que observemos os sistemas naturais e aprendamos com eles. Na natureza, os ciclos são muito mais eficientes do que os nossos. O que parece ser o fim de uma coisa é, muitas vezes, o começo de outra.
A fruta que cai da árvore alimenta o solo.
O que parecia desperdício volta a ser nutriente.
Nada realmente termina.
Tudo participa de algum outro ciclo.
Pode parecer romantizado.
Mas a natureza é muito mais eficiente do que nós.
Talvez devêssemos prestar mais atenção.
A primeira provocação, para mim, está justamente naquilo que produzimos e na maneira como produzimos.
Se precisamos extrair um recurso para atender a uma necessidade, por que não produzir o melhor produto possível? Algo durável, reparável, adaptável, que permaneça em uso pelo maior tempo possível?
A lógica atual muitas vezes aponta na direção contrária.
Produtos com ciclos de vida cada vez menores estimulam novas compras. A chamada obsolescência programada transforma a necessidade de substituição em parte do modelo de negócio.
Não acontece apenas com pequenos equipamentos, como celulares ou fones de ouvido. Máquinas de lavar, fogões, automóveis e tantos outros produtos parecem ter ciclos de vida muito mais curtos do que aqueles de algumas gerações atrás.
E quanto mais somos, maior é nosso impacto.
Produzir por produzir já não parece uma estratégia muito inteligente.
A segunda provocação está no descarte.
Precisamos avançar para além da ideia de simplesmente administrar resíduos. Talvez seja necessário eliminar, pouco a pouco, o próprio conceito de resíduo.
Se um ciclo termina, o material deveria poder se transformar em matéria-prima para outro ciclo.
Um novo berço para uma nova materialidade.
Parece complexo.
Mas algumas experiências mostram que é possível.
Uma das que mais me ensinaram aconteceu em Porto Alegre, durante uma visita ao setor de gestão ambiental do Hospital Moinhos de Vento. Ali, o descarte é organizado com tecnologia, educação e uma lógica muito próxima da economia circular.
Diferentes tipos de plástico e papel são separados e encaminhados para processos de transformação. Os materiais triturados voltam para empresas que conseguem utilizá-los como matéria-prima.
Em uma espécie de negócio de mão dupla, materiais descartados podem retornar na forma de produtos, como sacolas de lixo, papel higiênico, etc., reduzindo custos e evitando novas compras.
Os resíduos orgânicos seguem outro caminho.
A compostagem transforma restos de alimentos em húmus, utilizado no próprio espaço e também destinado a hortas escolares.
Aquilo que seria descartado volta para o ciclo.
É simples.
E, justamente por isso, poderoso.
A terceira questão é talvez a mais óbvia: como melhorar os processos daquilo que realmente precisamos produzir?
Produzir além da necessidade e desperdiçar recursos ao longo do processo é simplesmente queimar possibilidades de futuro.
Nossas cadeias de produção e consumo ainda desperdiçam quantidades enormes em diferentes etapas: produção, transporte, armazenamento, comercialização e consumo.
Quando olhamos para roupas, equipamentos, objetos e tantos outros produtos que consumimos sem realmente precisar deles, a dimensão do problema parece ainda maior.
Este terceiro ponto nos provoca a repensar algumas bases importantes do sistema atual.
E isso não significa necessariamente destruir tudo e começar de novo. Mas revisar um sistema que frequentemente planilha o desperdício, mas não o esgotamento de recursos naturais.
Precisamos discutir nossos problemas reais.
E eles são complexos.
Exigem conhecimento técnico e científico, mas também participação e compreensão da comunidade. Exigem planejamento, continuidade e capacidade de avaliar resultados para além de mudanças de governo ou de gestão.
Isso não me parece utopia.
Estamos falando de maturidade.
De reconhecer que algumas coisas não estão funcionando e que podemos fazer diferente.
Quando escuto frases como “o bolso manda” ou “essas são as leis do mercado”, fico pensando que talvez estejamos confundindo realidade com destino.
O mercado não é uma força da natureza.
Nós o construímos.
Assim como construímos nossas cidades, nossas instituições, nossos sistemas de produção e nossas regras de convivência.
E tudo aquilo que foi construído por nós pode ser reformado por nós.
Talvez o mais perigoso seja justamente acreditar que não existe alternativa.
Essa crença nos transforma em espectadores de uma trajetória que parece inevitável, mesmo quando sabemos que ela pode nos levar a um lugar que não queremos.
Sou, assumidamente, uma pessoa asquerosamente esperançosa.
Não porque ache que tudo vai dar certo.
Mas porque acredito que imaginar alternativas é uma forma de não aceitar como inevitável aquilo que construímos.
Alterar a trilha não exige apenas força para cortar galhos.
Exige inteligência para observar o ambiente.
Entender os ventos.
Perceber o caminho das águas.
Aprender com os ciclos da natureza.
E usar todo esse conhecimento para encontrar caminhos melhores.
Talvez seja isso que alguns chamam de utopia.
Eu prefiro chamar de responsabilidade.
E continuo me perguntando:
Utópica. Eu?