
O Diabo Veste Prada é uma história terrível e, ao mesmo tempo, bastante corriqueira, sobre os pactos que somos capazes de fazer com o “diabo” para conseguir sucesso na vida. Uma história que saiu de um best-seller, tomou as telas do cinema e está na segunda edição. O filme trata da relação de uma diretora de revista renomada de moda com sua nova assistente, recém-formada, que ambiciona um cargo mais elevado e sua relação de trabalho.
O tema aqui proposto é de uma reflexão não sobre o filme, e sim de fazer uma pequena analogia com o nosso dia a dia, pois vivemos em um momento de termos comportamentos “politicamente corretos”, de “engolirmos sapos”, de não promovermos “embates ou contrapontos” para não sermos julgados e/ou excluídos. Temos a “necessidade de sermos aceitos” a qualquer custo, muitas vezes, por uma promoção profissional e pelas oportunidades surgidas do networking, mas isso não se resume apenas ao universo corporativo, vai muito além e chega nas nossas relações interpessoais, sejam amizades ou relacionamentos afetivos.
Por vezes estas situações surgem em ambientes que jamais cogitaríamos que pudessem ocorrer. Acontecem de forma sutil, falas mansas, e a olhos nus não fazemos nada, além de calar-nos, nem sempre pela falta de argumentos ou receios, mas por educação. O problema é que as pessoas que promovem a prática destas situações constrangedoras não se percebem assim cerceadoras, mas apenas entendem que “convenceram”.
E o que se observa é a atitude contraditória de pessoas que clamam aos quatro ventos terem um comportamento inclusivo; proclamarem a importância da liberdade de expressão; de justiça social; de escutar e não ouvir e, na prática, agem de maneira completamente diferente. Quando reunidas diferentes “tribos”, o que vale é a concepção individual e, por vezes, intimidadora, como a personagem Miranda (do livro/filme), que cala os demais, prevalecendo a sua vontade, verdade e decisão. Pelo poder autoritário que pessoas deste “estilo” possuem, inibem os demais, que, mesmo discordando veementemente, se sentem constrangidos, acuados e, por diversos tipos de “necessidades e interesses”, acabam se formatando naquele espaço para poder chegar ao seu objetivo. O uso da força psíquica sobre o mais fraco; a violação de direitos de maneira perversa; as “brincadeiras” sem graça e outras formas de assédio moral surgem e por aí seguem!
E é sobre isso a reflexão! Vale a pena todo este desgaste físico e emocional, que acaba somatizando e provocando patologias físicas e mentais, para sermos aceitos e incluídos em espaços nos quais não cabemos? A autonomia; o respeito; a diversidade de pensamento; a saúde e tudo isso jogado de lado, para sermos aceitos. Vale?
E definitivamente “Vestir Prada” é muito caro! Porém, cada um sabe sobre o seu poder de endividamento e da importância de usar “Prada”. E você, que faz o papel da “Miranda”, tente visitar alguma loja de departamento: com certeza tem alguma próxima de você!
Simone Pinheiro é assistente social, mestre em Ciências Sociais e articuladora do POA Inquieta.
Todos os textos de membros do POA Inquieta estão AQUI.

