
Em 2017, ao lado de um grupo inquieto de estudantes de arquitetura, decidimos enfrentar um concurso de urbanismo. A proposta era imaginar novos futuros para uma antiga área industrial da cidade — dessas que ainda guardam galpões vazios, muros grafitados e um silêncio que pesa. Trabalhamos semanas, desenhando possibilidades em que ainda hoje há abandono.
Ficamos entre os três primeiros colocados. O prêmio? Uma viagem a São Paulo, com hospedagem e uma oficina junto à empresa urbanizadora responsável pelo concurso. Oito pessoas, passagens pagas, expectativas altas. A festa começou antes mesmo do embarque. Mas, como sempre acontece nas boas viagens, o que ficou não foram apenas as fotos — foram as perguntas.
No dia da oficina, nos levaram a Barueri, a cerca de trinta quilômetros da capital. Ali, contaram-nos, havia sido feita uma aposta estratégica: descentralizar São Paulo, atrair empresas, criar um polo de negócios. Incentivos fiscais, facilidades burocráticas, infraestrutura. Um ecossistema de inovação desenhado para desafogar a metrópole. No papel, parecia exemplar.
Mas o urbanismo começa a revelar suas nuances quando descemos do ônibus.
Em Barueri, consolidou-se o modelo do condomínio horizontal fechado como principal forma de expansão residencial. A promessa é sedutora: segurança, tranquilidade, descompressão da vida corporativa. Depois de um dia “workaholic”, nada melhor do que atravessar um portal e encontrar ruas arborizadas e silêncio.
Na teoria.
Na prática, para chegar ao paraíso exclusivo, o que vimos foram avenidas ladeadas por muros de mais de três metros de altura, contínuos, quase infinitos de ambos os lados. Alguns condomínios ultrapassam 600 casas. Entre eles, vias largas, carros em alta velocidade, ciclovias que existem, mas pouco convidam. Pedalar entre muros não é exatamente um convite à vida urbana. Caminhar, menos ainda.
O automóvel torna-se protagonista inevitável. Mesmo quando há escola ou pequeno comércio interno, o trabalho permanece distante. O trajeto diário pode ser tão exaustivo quanto o deslocamento ao centro de São Paulo. O refúgio prometido começa e termina no portão.
Não se trata de demonizar o modelo. Há situações em que pode ser útil — como estratégia de contenção em áreas sensíveis, na base de morros, ou quando integrado à preservação de arroios e áreas ambientais, sem romper a malha urbana. Nesses casos, pode inclusive proteger a natureza.
O problema é quando a exceção vira regra. Barueri é uma cidade sem urbanidade, desinteressante, um aglomerado de espaços exclusivos cercados. Se salva somente o pequeno centro de negócios, onde é possível caminhar.
E o “modelo idealizado” se espalha. Avança sobre cidades médias e pequenas com velocidade impressionante. É sedutor para gestores públicos no curto prazo. E aqui vale uma pausa para entender por quê.
Quem mora em condomínio fechado paga IPTU como qualquer cidadão urbano. Esse imposto financia coleta de lixo, iluminação pública, recapeamento, segurança, manutenção sanitária, poda de árvores. Mas, dentro dos muros, no espaço exclusivo, quase tudo é custeado pelo próprio condomínio. Ruas internas, iluminação, segurança, coleta até a portaria. Imagine um conjunto com quinhentas casas e quinze quilômetros de vias internas. O município é responsável apenas até o portão da entrada, mesmo recebendo pelo todo.
Ainda, a terra que antes não estava loteada, rendia baixo imposto, agora torna-se altamente lucrativa. Para o município, parece um excelente negócio: arrecada-se como cidade, gasta-se proporcionalmente menos naquele perímetro. No curto prazo, parece um ótimo negócio.
No longo prazo, não é tão simples.
Esses empreendimentos geralmente se instalam em áreas periféricas. Compram-se terras baratas, vende-se o sonho da tranquilidade, valoriza-se pela marca da empresa urbanizadora. Ao redor, com o tempo, surgem trabalhadores, pequenos comércios, serviços. Forma-se uma nova centralidade. E com ela vêm as demandas: iluminação pública, transporte coletivo, redes de água e esgoto, escolas, postos de saúde.
A cidade estica sua infraestrutura como quem puxa um elástico. Cada novo loteamento amplia custos, fragmenta o território e torna a gestão menos eficiente. E, silenciosamente, amplia a pegada urbana sobre áreas vegetadas ou rurais que cumprem papel ambiental essencial.
Para quem mora ali, o cotidiano também cobra seu preço. Horas no trânsito. Distância da vida cultural. Bares, cinemas, encontros espontâneos na rua tornam-se eventos que exigem planejamento prévio. Para quem gosta de um vinho com amigos, o carro impõe limites. Para crianças pequenas, as ruas internas parecem paraísos. Para adolescentes, podem virar castelos murados — dependência constante dos pais, medo do espaço público, pouca vivência da diversidade urbana.
Algo me marcou naquela visita a diferentes condomínios, em plena tarde de semana. Não vimos crianças correndo livremente. Predominavam jardineiros e funcionárias domésticas, mantendo a perfeição do cenário. O ideal de comunidade vibrante parecia mais uma imagem publicitária do que realidade cotidiana.
Cidade, no fundo, é projeto coletivo. É espaço de encontro entre diferenças. Quando o desenho urbano nasce prioritariamente da lógica de mercado ou de interesses de gestão imediata, o bem comum tende a perder espaço.
Por isso insisto na importância de estruturas permanentes e autônomas de planejamento urbano, especialmente nas capitais. Planejar exige continuidade, responsabilidade técnica e visão de longo prazo. Não se trata de apagar incêndios, mas de evitar que eles se tornem rotina.
Muros oferecem sensação de controle. Mas cidades vivas não nascem do isolamento. Cidades saudáveis se constroem com permeabilidade, mistura, convivência. O que principalmente constrói em nós cidadania.
Continuidade, pertencimento e responsabilidade talvez sejam menos sedutores que a promessa de segurança absoluta. Mas cidades de verdade dificilmente nascem do isolamento.
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