
Sorver o processo de aprendizado no mestrado, para quem estava longe da academia, é penoso, duro, solitário, mas tem me feito aprender a enxergar lados que jamais veria se não tivesse me aventurado nessa empreitada. Às vezes, suspeito que estou aprendendo mais com o que estou precisando deixar de fora do trabalho final (sim, a gente coloca um monte de coisas que depois precisa cortar) do que com o que ficará no texto definitivo.
Tem sido desafiador deixar o lado jornalista para assumir a pesquisadora que está nascendo. Pesquisar, identificar e entender outras versões sobre um determinado assunto requer desapegos de “verdades” construídas por décadas. Mais que isso, depois de mergulhar nas entranhas de um tema, precisamos saber viver com leveza. É uma linha tênue viver com consciência, de acordo com nossos princípios, e não agirmos como se pudéssemos ser salvadoras, seja lá do que for.
As pautas, os assuntos que circulam na mídia, nas rodas, disputam a atenção das distintas camadas da sociedade, são representações, podem indicar que são sinais do nosso nível de evolução.
E uma das coisas que tenho constatado é que a comunicação em rede, a conectividade, tem influenciado o comportamento das pessoas. Tem gente que não consegue sair sem consultar o Waze. Não sabe o nome das ruas, nem entende o que representa a vizinhança. Sem internet, quem somos diante dessa hiperconexão?
O maior problema é que essa onipresença acaba gerando uma condução da vida de forma superficial, rasa. E isso tem nos deixado mais vulneráveis a muitas coisas, à falta de contato com a natureza, por exemplo. Hoje ninguém consegue ficar de fora das transformações cosmopolitas, aquelas que atingem idosos, gente urbana e do campo. A digitalização de contas bancárias, entre outros mecanismos tecnológicos, são alguns casos dessa situação.
Enquanto levamos a vida cercadas de dispositivos e telas por todos os lados disputando nossa atenção, estamos imersos em ecossistemas de interesse que simplesmente negam, omitem e fazem com que esqueçamos que quem determina tudo na nossa vida é o clima.
Anos atrás se falava das tais mudanças climáticas como se elas fossem surgir muitos anos à frente. E hoje eu, você, todo mundo precisa saber conviver com as transformações dessa sociedade do risco, desse mundo em metamorfose, conforme explicou o sociólogo Ulrich Beck em suas obras.
Esses dias, num grupo de amigas no zap, o assunto era a previsão do tempo e uma integrante do grupo confessou que achava melhor nem saber. O nosso percurso nesse momento civilizatório nos provoca, cutuca com vara curta: não querer saber sobre os impactos do clima é uma forma de se proteger ou de querer tapar o sol com a peneira?
Estamos diante de um dos maiores desafios da história da humanidade, mas o que cada um de nós tem a ver (ou não) com isso?
Nossa atenção é disputada por narrativas nas redes sociais que querem nos convencer a todo custo de que o melhor para nós é sermos magras, comprarmos coisas que não precisamos, fazermos tal protocolo para limpeza do fígado, saber as últimas do fulano demônio, do sicrano é um santo etc.
Sim, está bem difícil conseguir se equilibrar entre o estado pessoal, local e o global mediante tantos estímulos que desviam nosso olhar do que realmente interessa para seguirmos nesse universo enquanto espécie. É bom lembrar que o planeta, a natureza, sempre vai se recompor, mas nossa espécie não. Já não basta aquela máxima do tempo da Rio92 do pensar global, agir local.
Na minha dissertação, apresento algumas faces do Antropoceno, que seria essa nova era que se caracteriza por transformações nos ciclos do Sistema Terrestre. A constituição histórica impõe uma nova percepção sobre quem somos nós diante dessa era também chamada de Capitaloceno e Desastroceno. Afinal, as evidências apontam que as mudanças vêm acompanhadas por um consumo cada vez maior de derivados do petróleo, o que conduz a um aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos.
Donna Haraway sugere que “trabalhemos na barriga do monstro”. Significa que, se estamos dentro de um sistema e não temos como escapar, precisamos encontrar formas de vivermos e morrermos bem. ”Eu preciso da beleza da teoria que nos leve a uma capacidade de continuar”. Para a pensadora, isso é resistência, devido à inevitabilidade do Capital, o cerne do Capitaloceno.
Depois de me deparar com essa conclusão de Haraway, fiquei pensando quantas barrigas de monstro nós alimentamos e ainda moramos dentro. Um dos desafios é saber viver com sabedoria entre as substâncias que fazem a digestão desse bicho que mal conhecemos e conviver com tantos outros bichinhos que habitam dentro de nós. Estudar faz a gente conhecer melhor essa fauna.
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
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