
A eleição é um dos momentos mais importantes de uma democracia. Em outubro, cada eleitor terá diante de si seis escolhas: deputado federal, deputado estadual, senador, governador e presidente da República, além da segunda vaga para o Senado. São cargos diferentes, com atribuições diferentes e, portanto, exigem também uma análise diferente por parte de quem vai votar.
Antes de escolher um nome, é fundamental entender o que estaremos escolhendo. O presidente da República comanda o Poder Executivo federal e define diretrizes e políticas nacionais. O governador administra o Estado e conduz políticas públicas estaduais. O senador representa seu Estado no Senado e exerce funções legislativas e de fiscalização, além de competências específicas previstas na Constituição. O deputado federal atua na Câmara dos Deputados, participa da elaboração das leis nacionais, fiscaliza o Executivo e delibera sobre o orçamento federal. Já o deputado estadual trabalha na Assembleia Legislativa, criando leis de competência estadual e fiscalizando o governo do Estado.
Parece básico, mas essa distinção é essencial. Afinal, não faz sentido cobrar de um parlamentar estadual uma atribuição que pertence ao governo federal, assim como não podemos esperar de um senador aquilo que é responsabilidade direta de um governador. Conhecer as competências do cargo é o primeiro passo para avaliar, com racionalidade, as propostas apresentadas durante uma campanha.
Há, porém, outro aspecto que merece nossa atenção: quem são os profissionais que estão se colocando à disposição da sociedade para exercer essas funções?
O Tribunal Superior Eleitoral registra a ocupação profissional declarada pelos candidatos. Em 2022, os empresários lideraram esse ranking, com 3.644 candidaturas, seguidos pelos advogados, com 2.059. Naquele pleito, vereador, deputado e administrador também estavam entre as ocupações mais frequentes entre os candidatos.
Quando olhamos especificamente para os eleitos para a Câmara dos Deputados, um levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) e divulgado pela Câmara mostrou uma concentração ainda maior em determinadas áreas. Advogados e empresários foram os grupos profissionais mais numerosos, seguidos por professores, produtores rurais, médicos e administradores de empresas. A segurança pública também teve presença significativa, com 41 parlamentares ligados à área.
Esses números não devem ser interpretados como uma competição entre profissões. Não existe profissão que, sozinha, determine a capacidade de alguém para exercer um mandato. Um bom parlamentar precisa de preparo, ética, capacidade de diálogo, conhecimento da realidade social e compromisso com o interesse público. A formação profissional é apenas uma das dimensões que devem ser consideradas pelo eleitor.
Mas é uma dimensão importante.
E, para nós, administradores, essa discussão precisa ser feita com honestidade. A Administração é uma área diretamente relacionada ao planejamento, à organização, à gestão de pessoas e recursos, à definição de estratégias, à avaliação de resultados e à tomada de decisões. São competências que também estão presentes nos grandes desafios enfrentados pelo poder público.
Administrar uma cidade, um Estado ou políticas nacionais não é o mesmo que administrar uma empresa. As finalidades, responsabilidades e controles são diferentes. Ainda assim, princípios como planejamento, eficiência, gestão responsável dos recursos, definição de prioridades e avaliação de resultados são fundamentais para qualquer organização, inclusive para o Estado.
Por isso, quando analisarmos os candidatos nas próximas eleições, devemos olhar também para suas trajetórias. Qual é a profissão? Qual é sua formação? Que experiências acumulou? Em que áreas atuou? Conhece a realidade que pretende representar? Suas propostas correspondem às atribuições do cargo ao qual concorre?
São perguntas que deveriam fazer parte da rotina de qualquer eleitor.
E aqui está uma reflexão que considero especialmente importante para a nossa categoria: se a gestão é uma das principais necessidades do setor público brasileiro, por que a Administração ainda tem uma presença tão discreta entre aqueles que ocupam os espaços de decisão política?
Não se trata de defender o voto corporativo ou afirmar que administradores são necessariamente melhores candidatos. Ser administrador não é certificado automático de competência política, assim como ser advogado, professor, médico, empresário ou profissional de qualquer outra área não determina, por si só, a qualidade de um mandato.
Trata-se de reconhecer que a diversidade profissional também é importante para a democracia. Diferentes experiências trazem diferentes olhares para a formulação de políticas públicas.
O eleitor não precisa escolher alguém por causa da profissão. Mas deveria, sim, conhecer a profissão e a trajetória de quem está escolhendo.
Em uma eleição marcada por excesso de informação, polarização e campanhas cada vez mais concentradas em redes sociais, talvez seja necessário voltar ao básico: conhecer as atribuições do cargo, verificar as propostas, pesquisar a trajetória do candidato e compreender quais experiências ele levará para o exercício do mandato.
O voto é individual, mas suas consequências são coletivas. Por isso, mais do que perguntar apenas “em quem votar?”, precisamos perguntar “quem estamos escolhendo, para fazer o quê e com quais experiências para exercer essa responsabilidade?”
Como administradores, temos o dever de participar desse debate. Não para pedir um voto de uma categoria para outra, mas para lembrar que boa política também depende de boa gestão. E gestão responsável começa muito antes da posse: começa na escolha consciente de quem terá a responsabilidade de administrar os recursos, as instituições e as prioridades que pertencem a toda a sociedade.