
Minha mãe, descendente de franceses imigrados para a Amazônia no início do século passado, era muito rigorosa com nossos estudos: professora primária formada pela Escola Normal do Recife (onde fica a atual Câmara de Vereadores), era daquelas que, todo final de tarde, vinha “tomar a lição” de cada um de nós. Tenho péssimas lembranças daquele tempo!
(Diálogo “pedagógico” entre eu e minha mãe):
Ela: ”Um litro de leite custa Cr$ 0,50. Quanto custam três litros e meio?”
Eu: ”E eu sei lá! Eu não sou leiteiro!”, respondia desaforadamente.
Ela: ”Moacir (que era o filho de nossa empregada e que morava conosco), vá buscar a sandália. A de couro com salto…”
Não me lembro exatamente do efeito educativo da sandália de couro (as “Havaianas” eram mais… paulofreireanas, dialogais, libertadoras), e assim penso que memória curta – ao contrário do que pensam os hegelianos – é, às vezes, um bálsamo! Mas o fato é que evitei, durante longos anos, usar sandálias…
Retiro desta época e de situações semelhantes, passados todos esses anos, algumas reflexões.
A primeira é sobre esta ideia, ainda tão em voga em certos meios, inclusive mais cultivados, de que a humilhação, a dor e o castigo têm um efeito pedagógico positivo e produzem resultados de aprendizagem. Li em algum lugar que há uma passagem no Antigo Testamento que justifica a prática medieval da tortura contra os infiéis e hereges, ou na extração de confissões forçadas. Não é que, diante da ameaça da dor, possa-se confessar qualquer coisa para evitá-la. Todo torturador sabe que o resultado não é satisfatório. Mas o fato de se acreditar que o caminho que leva a Deus é penoso, tortuoso e, no limite, doloroso (como na conversão de Paulo de Tarso) estimula o torturador-crente a pensar que a dor nos leva ao conhecimento de Deus. Vai ver que é assim que pensam os educadores que usam o pau de vassoura pedagógico: o castigo físico leva ao saber! Neste exato sentido, minha mãe foi a pessoa mais religiosa que conheci!
A segunda lição diz respeito a Moacir, o filho de nossa empregada.
Gilberto Freyre fala muito do suplício que a infância negra sofria nas mãos dos sinhozinhos, alguns mutilantes. Comigo aconteceu o contrário: era o menino da “senzala” que assessorava minha mãe no meu castigo. Não sei por onde anda Moacir, meu amigo de brincadeiras infantis, mas é bem possível que tenha se tornado assessor pedagógico em alguma dessas Secretarias de Educação…
O peso dessas experiências é de tal maneira decisivo que, na maioria das vezes, nossas mais profundas convicções teóricas e pedagógicas (todas “libertadoras”) são incapazes de nos demover dessas milenares crenças. Conheço muitos professores supostamente adeptos de teorias “dialogais” que agem como verdadeiros torturadores a humilhar e crudelizar seus alunos: vivem, provavelmente, dilacerantes “contradições dialéticas” entre o passado da opressão e o futuro da libertação; entre a dor que se impõe a todo aprendizado e o alívio da vida esclarecida, após o túnel! E, enquanto a libertação não vem, sandália de couro com salto…
Ao menos, reconheço, minha mãe dedicava seu tempo, suas tardes, a nos tomar a lição e a se interessar pelo que aprendíamos ou não. Os pais e os professores atuais têm outras preocupações que passam longe daquela introdução ao mundo dos adultos, que minha mãe me proporcionou.
Mas, uma vez chegada a vida adulta, que sei eu? Eu não sou leiteiro!