
Você trabalha aqui? Essa pergunta normalmente é feita em lugares com pisos de porcelanato, mármore de cores claras, tapetes, mesas com flores, arranjos, salas com divisórias em cores, quadros pendurados. São hotéis, prédios corporativos, eventos disputados, premiações. Também ocorre antes do encontro com um cliente ou de uma apresentação, em universidades, em ambientes fechados, privados (e também públicos), dotados de uma estética padronizada, embranquecida, onde a terra brasilis se denomina “espaço de elite”.
A pergunta raramente é direcionada a uma pessoa branca. A pergunta sempre é feita para uma pessoa preta. E sem nenhum pudor, sem “nenhuma maldade”.
Os brancos sugerem legitimidade, gentileza, busca de compreensão. Mas por que a dúvida? De onde ela surge? Por que você, aí, leitor desprovido de melanina, precisa saber se aquela pessoa que se encontra logo à sua frente trabalha naquele local? Por qual motivo você precisa se dirigir até uma pessoa que você não conhece, que você nunca viu, e lhe questionar: “Você trabalha aqui?”
Se habita dentro de você uma pergunta sobre o que esta pessoa estaria fazendo ali, reconheça-se racista. Se, considerando cinquenta pessoas, seus olhos se dirigem a uma pessoa preta e esta presença lhe é estranha, reconheça-se racista. Se causa estranheza, reconheça-se racista. Se a dúvida é tamanha a ponto de invadir o campo-espaço-energético de um outro ser para querer saber sobre o seu ofício, para lhe “ajudar” a compreender por que ela estaria naquele local, reconheça-se racista. Se a presença naquele espaço, no seu cérebro, foi registrada como anomalia — algo que precisa ser explicado antes de ser aceito —, reconheça-se racista.
Vamos falar um pouco sobre o que se vê e pensa sobre trabalho, quem ocupa os espaços e entendimentos históricos sobre “vadiagem”.
André Gorz, no livro Adeus ao Proletariado para além do socialismo, define trabalho como uma atividade obrigatória, heterodeterminada e heterônoma — ou seja, determinada pelo outro e regida por legislação —, percebida pela maioria dos que o procuram e dos que o têm como uma venda do tempo cujo objeto pouco importa.
Logo após a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, entrou em vigor o Decreto 847, de 11 de outubro de 1890. No Capítulo XIII, encontramos o artigo 399, o título “Dos vadios e capoeiras”, uma preocupação do legislador “atento” às ruas da cidade, ao momento da sociedade que condenava a ausência de afazeres e a prática de capoeira nas ruas, prevendo, assim, que a pessoa que não puder comprovar sua ocupação para subsistência pode ser submetida à pena de prisão de 15 a 30 dias. Agora pense: quem, que corpo, naquele contexto histórico, após 300 anos de escravização, estava “desocupado”?
“Ao transformar o liberto em força de trabalho assalariada, solucionava-se a ameaça que o negro livre representava. Garantindo assim o controle das camadas populares que, conscientes de seus deveres, não ameaçariam a propriedade, além, é claro, de assegurar a mão de obra para o mercado de trabalho capitalista”, assim explica Marina Vieira de Carvalho (²), ao tratar sobre a aplicação da referida legislação e as origens da marginalização.
Mais de 50 anos depois, em 3 de outubro de 1941, entra em vigor a “Lei da vadiagem”, oriunda do governo de Getúlio Vargas, consolidada no Brasil pelo Decreto-Lei n.º 3.688 (Lei das Contravenções Penais). Ela tinha mais de um propósito: para além de sugerir uma punição por “ociosidade”, visava limpar as ruas, pelas mãos da polícia, devidamente cumpridora da lei, de pessoas pobres e sem emprego, na sua maioria negros, a maioria inocentes.
Conceituado o termo trabalho e considerando o uso deste para fins de segregação, voltemos a refletir sobre a pergunta que originou esse texto e sobre o contexto do qual ela tem uma facilidade de sair da boca de qualquer pessoa branca para qualquer pessoa preta. Você, pessoa branca, consegue compreender o porquê, em pleno século XXI, do incômodo de ver uma pessoa preta em lugares que pareciam só seus? Entende que ela pode estar ali, como você, para desfrutar o espaço, celebrar conquistas, representar mais da metade dos brasileiros sem acesso a privilégios? E que essa pessoa não precisa estar ali a trabalho ou a serviço de alguém?
A estudiosa Grada Kilomba chama isso de “racismo cotidiano”: “O termo cotidiano refere-se ao fato de que essas experiências não são pontuais. O racismo cotidiano não é “um ataque único” ou um “evento discreto”, mas sim uma “constelação de experiências de vida”, uma “exposição constante ao perigo”, um “padrão contínuo de abuso” que se repete incessantemente ao longo da biografia de alguém — no ônibus, no supermercado, em uma festa, no jantar, na família (³).
“Você trabalha aqui?” não é só uma pergunta. É um mecanismo de devolução ao lugar atribuído, classificar e segregar, é dividir, é manter em confinamento ou manter em espaços dos quais a cultura e a sociedade identificam como comum: cozinhas, cafés, banheiros, campos, nas senzalas.
Reconhecer não é um exercício de culpa individual — é um exercício de responsabilidade coletiva. Se o sistema distribui privilégios pela cor da pele, todos podemos escolher o que fazer com essa informação, examinar os próprios automatismos — não com julgamento, mas com honestidade.
“Você trabalha aqui?” não é só uma pergunta. É violência. Já dizia o ditado popular: “a língua é o chicote do corpo”.
O ato de perguntar entrega a mensagem que estrutura toda a cena: você não parece pertencer aqui como eu pertenço. Você é um serviço, um ofício; você é serviçal.
E assim o racismo insiste, porque as estruturas que o alimentam, além de não terem sido desmontadas, persistem sem serem reconhecidas.
Ele se atualiza, muda de linguagem, aprende a sorrir com falsidade — mas seu efeito é o mesmo: manter a hierarquia. “Você trabalha aqui?” é 2025 falando em nome de 1888.
Fontes:
-Gorz, André. Adeus ao proletariado para além do socialismo* – Forense-universitária, 1982.
-Vadiagem e Criminalização: a formação da marginalidade social no Rio de Janeiro de 1888 a 1902 – Marina Vieira de Carvalho Pós-graduanda da Universidade Federal Fluminense
-Kilomba, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
Chris Baladão, bicho raro, formada e por coração advogada, na época em que o curso levava sociais em seu nome, escritora por necessidade de expor a palavra, bailarina porque o corpo exige, professora porque a experiência da vida precisa ser compartilhada.
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