
Você lembra do tempo em que a tecnologia mais avançada para controlar o peso era a balança do banheiro? A gente subia, descobria que tinha engordado e pronto. Não havia gráficos, relatórios, inteligência artificial nem notificações. Havia só a dura realidade e a vontade de quebrar a balança. Exercício físico era coisa de aula de Educação Física, entre o apito do professor e a bola que sempre acertava o mesmo coitado.
Lembro de umas férias na fazenda dos meus pais em que meu irmão resolveu correr pela estrada e levantar pesos. Os peões ficaram impressionados. Não entendiam por que alguém, em sã consciência, correria sem estar fugindo de um touro ou levantaria um peso sem precisar carregá-lo para algum lugar. Hoje, provavelmente, ele seria um influenciador fitness, venderia um curso on-line e teria milhões de seguidores.
Pois o mundo mudou, e eu, que fiquei assistindo a uns podcasts, descobri que estou mais desatualizado que fita VHS. Não entendo metade dos termos, e a outra metade eu entendo, mas custa caro.
Depois do fitness, chegou a vez do wellness. Fitness é cuidar do condicionamento físico e da boa forma. Wellness é algo muito mais ambicioso: o bem-estar integral, que envolve saúde física, mental, emocional e social. Em outras palavras, não basta estar em forma. É preciso estar em paz, dormir bem, respirar corretamente, alimentar-se com consciência, cultivar boas relações e, de preferência, comprovar tudo isso com gráficos coloridos. Afinal, se você está feliz, mas não tem um aplicativo que confirme, será que está mesmo?
Eu era meio São Tomé nesse assunto, até que meu amigo Cláudio Senna, especialista em mindfulness, me colocou na cabeça o tal “Muse”, uma tiara eletrônica que lê as ondas cerebrais e manda para o celular. Constatei, emocionado, que quando eu acalmava a mente as ondas alfa, beta, gama e delta mudavam. Foi a primeira vez na vida que um gráfico me elogiou. Estava vendido.
A experiência foi interessante. A tecnologia pode, de fato, ajudar no autoconhecimento. O problema começa quando passamos a depender dela até para sabermos que estamos relaxados. Antigamente, a gente fechava os olhos e descansava. Agora, corre o risco de fechar os olhos, consultar o aplicativo e descobrir que fracassou na tentativa de não pensar em nada. Até a paz interior ganhou avaliação de desempenho.
Os gadgets, esse nome chique para aparelhos tecnológicos que, muitas vezes, resolvem problemas que nem sabíamos que tínhamos, estão chegando para todos os lados. Temos smartwatches, os relógios inteligentes que monitoram nossa atividade física, frequência cardíaca e sono. Temos smart rings, anéis inteligentes que acompanham indicadores fisiológicos. O corpo humano, que funcionou durante milênios sem prestar contas, agora precisa mostrar resultados.
Se você é do tempo em que se bebia água quando dava sede, sinto informar: está fora de moda. Existe a garrafa inteligente que mede o seu consumo e manda lembretes. A água, coitada, agora precisa de gerente. Tem também o difusor de aromas programável e o monitor de qualidade do ar, que avisa a hora de abrir a janela. Aquela invenção de milênios agora precisa de notificação push. Só falta um aplicativo para nos avisar que está chovendo quando sentimos a primeira gota na cabeça.
Mas o rei da festa são os óculos de realidade virtual, que levam você à praia, à floresta, ao cenário tranquilo, com meditação guiada, sem gastar com passagem, sem hospedagem e sem aqueles mosquitos chatos da natureza. A natureza, afinal, tem um grave defeito: não tem modo avião.
O mercado de wellness cresce embalado por uma promessa irresistível: viver melhor. E quem não quer? Cuidar do corpo, da mente, do sono e das relações humanas é uma excelente ideia. O problema é quando a indústria convence você de que, para alcançar tudo isso, precisa comprar um equipamento novo, assinar três aplicativos e contratar alguém para interpretar os resultados.
O mercado corporativo também descobriu esse filão. Vem aí o wellness corporativo, com programas para promover o bem-estar dos colaboradores. Nesse universo, surgem também expressões como o “readiness”, que significa prontidão ou preparação para enfrentar mudanças, e pessoas multifacetadas, aquelas que possuem diferentes habilidades, interesses e capacidades. As empresas querem profissionais que aprendam continuamente, se adaptem, pensem, criem e transitem entre diferentes áreas. Se for monge, atleta e poliedro, melhor ainda.
Quando nos dermos conta, estaremos paramentados como um astronauta, substituindo o papel do médico e jogando os resultados dos exames sobre nossa saúde numa inteligência artificial para saber a origem da dor e o medicamento que devemos tomar. Depois iremos ao médico com o diagnóstico pronto, só para buscar a receita, como quem passa no drive-thru.
Pois é, pessoal: vai acabar essa história de se deitar na cama e dormir, ou de sentar e comer um bom prato de comida em paz. Se você não fotografar o prato e não enviar o relatório do sono para a nutricionista, vai se sentir cometendo um pecado mortal.
Eu já imagino o dia em que o meu relógio recomenda respirar, a garrafa exige água e o anel sugere dormir. Então, desligo tudo, sento na varanda e fico olhando o movimento da rua. Pela primeira vez em anos, não registrei nada. Que paz! Até que chega uma notificação: “Você está há 18 minutos sem monitoramento. Deseja ativar o plano Premium de tranquilidade?“ Aí eu entendo: não estamos mais comprando bem-estar. Estamos pagando resgate para recuperar a vida que tínhamos antes de tentar melhorá-la. E você, vai continuar vivendo ou já renovou sua assinatura?
Referências:
- Tech Joint: 29 gadgets de conforto e bem-estar da Amazon que serão a sensação de 2026 para todos!
- Inteligência Orgânica – Leticia Setembro: A IA era para facilitar. Então por que dá mais trabalho?