
1 – Um dia comecei a escrever fábulas.
2 – Quinze anos atrás. Com bichos, moral da história, fábulas em parte clássicas, em parte contaminadas pela ironia contemporânea — somente coachings ainda creem em lições inequívocas.
3 – E agora um livro está pronto, O siri enamorado & outras fábulas, pela editora Casa de Astérion, prestes a ser lançado no Instituto Ling, no dia 31 de outubro, em Porto Alegre. Haverá um bate-papo com a psicanalista e escritora Diana Corso, uma campeã em contos de fadas (gênero primo das fábulas) e também com o ilustrador da obra, Guilherme Dable, artista plástico de renome e também meu antigo amigo, com quem dividi juvenis empreitadas musicais de caráter duvidoso e depois, ao longo da vida, inúmeras conversas sobre criação artística, também duvidosas, mas espero que por outras razões, pelo que há de busca incerta no que fazemos e não pela qualidade de nossos trabalhos.
4 – Theon, um antigo retórico, definiu: “Uma fábula é uma história fingida que dá uma imagem da verdade”.
5 – Ao contrário do conto fantástico, as figuras dos animais falantes não convidam a uma fuga, mas sim a uma meditação sobre o mundo humano. As criaturas desse microcosmo bestial aparecem humanizadas, como dotadas de logos (no sentido grego de “razão e palavra”), e sua atuação obedece a certas regras que excluem os prodigiosos eventos da fantasia.
6 – Encanta-me, também, na fábula — quando pensamos em outros tipos curtos de escrita — essa certa constância de cenário e mesmo de caracterização. Também o tempo em que a história se passa é quase sempre indefinido, como se os eventos tivessem valor atemporal, ao modelo das verdades sobre nossa espécie. O que importa é dar a linha moral, que pode estar oculta, um valor de exemplo, de manifestação, de verdade que só pode ser constituída a partir de uma fabulação.
7 – De novidade, para quem chegar ao livro, estão uns animais nossos, o lobo-guará, por exemplo, e outros que são sensação nas redes, como o simpático wombat australiano, que usa a bunda como arma.
8 – E agora o lançamento. No meio do feriado. Mas descerei a serra confiante de encontrar amigas e amigos no Ling. E depois quem mais for encontrando minha bicharada pelo caminho.