
Durante muito tempo, ouvi falar do Talibã como um movimento político que atua no Afeganistão, mas fiquei surpreso com a revelação de que “Talibã” significa “estudantes”. Um dos regimes mais opressores da história nasceu dentro de escolas. Não de qualquer escola, mas das escolas religiosas islâmicas (madrassas), frequentadas por crianças e adolescentes pobres que recebem alimentação e alojamento em áreas rurais. Essas escolas fazem uma interpretação muito mais conservadora do que as leis islâmicas, ensinavam a religião e treinavam militarmente os meninos, se transformando em centros de recrutamento do Talibã. Madrassas existem em muitos países muçulmanos e, obviamente, nem todas são extremistas.
O extremismo do Talibã não caiu do céu, foi ensinado, financiado e institucionalizado. É impossível dissociar a brutalidade do atual governo Talibã da pedagogia que o gerou. Nestes internatos, os meninos foram criados sem a presença feminina e foram moldados para enxergar a mulher não como sujeito, mas como um ser submisso ao homem.
A história do Afeganistão revela como projetos políticos autoritários podem se apoiar em discursos de ordem, moralidade e tradição para restringir liberdades. Após a invasão soviética em 1979 e os anos de guerra civil que se seguiram, o Talibã emergiu em 1994 prometendo restaurar a estabilidade, combater a corrupção e impor uma interpretação rígida da lei islâmica. Em 1996, ao assumir o poder, rapidamente transformou essa promessa em regime de opressão, sobretudo contra as mulheres: proibiu o estudo e o trabalho. Depois do 11 de setembro de 2001, os EUA invadiram o Afeganistão em busca de Bin Laden e iniciou-se um novo ciclo. Em 2004, uma constituição democrática passou a garantir direitos formais às mulheres, que voltaram à universidade, a ocupar posições na imprensa, no parlamento e em organizações da sociedade civil.
Em 2021, com o retorno do Talibã ao poder, os direitos das mulheres começaram a ser desmontados. Em 2026, aumentaram ainda mais as restrições. Segundo o relatório da ONU, as novas medidas facilitam casamentos forçados e abuso infantil, mulheres foram proibidas de terem suas vozes ouvidas em ambientes públicos. Só podem sair de casa acompanhadas por um homem da família e usando burca. O novo regulamento criminal aprovado em 2026 normaliza a violência doméstica e aumenta o controle do Estado sobre a vida das mulheres. A Anistia Internacional classificou esta realidade de “apartheid de gênero”.
Segundo depoimento da jornalista Adriana Carranca para o podcast “O Assunto”, os negócios entre famílias podem incluir uma quantidade em dinheiro, alguns animais e uma menina virgem. Tradições milenares estão sendo transformadas em lei, como o casamento com meninas de 9 anos, que eles não chamam de crianças, mas de virgens.
Curioso que, na independência do Afeganistão em 1919, a rainha Sorya Tarzi defendia a educação feminina e participação das mulheres na sociedade. Em 1929, grupos tribais derrubaram o rei e os direitos das mulheres foram cancelados. Em 1964 foi feita uma nova constituição que permitia o voto de mulheres e que elas concorressem a cargos políticos. Em 1996, o Talibã toma o poder e proíbe as mulheres de estudar. Entre 2001 e 2021, as mulheres reconquistaram alguns direitos, para então perderem tudo novamente com a volta do Talibã.
Olhar para o Afeganistão é também olhar para o nosso tempo. Os direitos são conquistas, mas não são perenes, sua manutenção e avanços dependem de vigilância e coragem coletiva. Lembrei do vice-presidente americano J.D. Vance, que em 2021 sugeriu o “voto familiar”, um eufemismo para diluir a autonomia política das mulheres. No Brasil, o pastor André Valadão, líder da Igreja Lagoinha, que possui mais de 330 mil membros e mais de 670 unidades espalhadas pelo mundo, em 2024 declarou: “Se a faculdade vai acabar com a vida do teu filho, não manda ele para a faculdade. Vai vender picolé na garagem”, dizendo que as universidades poderiam afastar os jovens da fé cristã e fez comentários ofensivos sobre mulheres universitárias. São contextos distintos, mas a direção é a mesma: desqualificar a presença feminina.
“O Conto da Aia” deixou de ser ficção distópica para se tornar um manual de como repúblicas se desfazem. Se você não assistiu, assista a esta série na Netflix, que mostra uma sociedade chamada Gilead, criada nos EUA após líderes extremistas assumirem o poder e cassarem todos os direitos das mulheres.
Imagine sua filha descobrindo que a escola não é mais um direito. Imagine sua voz se tornando crime e seu rosto precisando ser coberto por um pano. A burca não é apenas uma vestimenta, é um apagamento. Meninas sendo comercializadas como moeda entre famílias. Isso não é coisa da Idade Média ou só de países distantes governados por fanáticos religiosos. Aconteceu em 1996, aconteceu em 2026 no Afeganistão, mas pode acontecer quando não nos indignamos ao ver direitos sendo suprimidos. E, já que estamos falando em escolhas concretas, por que não pressionar para que mulheres ocupem as próximas vagas do Supremo Tribunal Federal? Toda mudança começa em um lugar chamado “agora”.
Referências:
– O Assunto – O horror das mulheres afegãs sob o Talibã
– André Valadão incentiva fiéis a não mandarem filhos à faculdade em vídeo
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.

