
Acordamos tarde. Café. Saída às 11h. Reparou na rapidez com que digo o que fazemos? É a mesma da rotina do turista. Me programo para ir à Biblioteca de Portugal, onde quero doar um exemplar de meu A Câmara na Cidade: retrato de um poder público no século XIX em Porto Alegre (Câmara Municipal de Porto Alegre, 2023), e depois ir para a Livraria do ICH, que tem camisetas dos cursos e livros. Eu queria comprar uma do curso de história, o da minha formação, mas, devido ao horário, não dá. Cada vez mais ficamos distantes do turismo, seja pelo cansaço ou porque é tudo igual. Penso no que diria a filósofa Agnes Heller, a grande estudiosa da vida cotidiana, disso tudo. Em sua teoria, a realidade social é dividida fundamentalmente entre duas grandes dimensões: a esfera da vida cotidiana e a da não cotidiana (como a arte, a ciência, a filosofia e a política). Se a vida cotidiana de um turista é a banalidade da repetição da visita às atrações turísticas, então a esfera não cotidiana corrói a vida cotidiana portuguesa. Estou em Lisboa para conhecer seus monumentos (arte), os produtos de sua ciência (museu dos terremotos), sua filosofia (o pensamento sobre as grandes metrópoles) e sua política (o que fazer quando a direita emerge em solo português). Minha não cotidianidade turística é o meu ponto de partida: acordar e decidir o que visitar hoje. Mas, no turismo, ela é determinada pela esfera cotidiana que constrói a cidade, de portugueses que acordam, trabalham, vivem e moram em Lisboa.
Heller escreveu duas célebres obras sobre o tema. Da primeira, O Cotidiano e a História (Paz e Terra, 2008), líamos na disciplina de Teoria da História o capítulo “Estrutura da Vida Cotidiana”, então ministrado pela Professora Silvia Petersen. Ela foi a professora que, como registrei em minha autobiografia, Sem Indicação de Importância (Clube dos Autores, 2025), disse que eu era um “aluno esforçado”. Professores: meçam suas palavras ao avaliarem seus alunos para não os magoar; vocês nunca saberão onde eles irão parar. A segunda obra, só vim a conhecer depois, é o livro Sociologia da Vida Cotidiana (Edições 70, 2016). Eu faço o contraponto: se a vida de todo o homem são suas necessidades biológicas e sociais, a vida de todo o turista é conhecer destinos turísticos através de dois sentidos. O primeiro é o da visão, porque ele é alguém que vê, e o segundo é o paladar, porque ele é alguém que come. É a heterogeneidade de que fala Heller, mas ela também é o mundo da ultrageneralização, que se dá exatamente no sentimento que tenho quando se passa um dia após o outro em uma viagem, essa forma quase automática de turistar para poupar tempo e ir para a nova atração. No meu tempo de estudante, turistar era um verbo que não existia. Hoje, existe. Por isso, o cotidiano do turista é diferente do cotidiano do morador; ele não está preocupado em conhecer as atrações que fazem parte de seu dia a dia, assim como nós, em Porto Alegre, demonstramos pouco interesse em conhecer as nossas. Eles estão preocupados com suas coisas de todo o dia, que vão na contramão das nossas: eles precisam de habitação para morar, que nós, turistas, surrupiamos através do Airbnb; eles precisam se alimentar, mas, de novo, os preços são inflacionados por nossa presença. Nós, turistas, somos exatamente o que rompe com sua cotidianidade. Por isso, mesmo sendo vivida por todos, o cotidiano é experimentado de forma diferente por turistas e moradores, porque o lugar em que está cada um na reprodução social é diferente.
Buscando saídas
Nós, turistas, nos apropriamos dos campos da ciência, arte, filosofia e política portuguesas. Nestas esferas, os portugueses transcenderam sua particularidade egoísta e elevaram-se à generalidade. Eu aprecio a arquitetura que produziram e sua comida, pois foram construídas de forma não egoísta, consciente e em prol do gênero humano. Mas eu, ao contrário, ajo de forma egoísta, pois o modo de que disponho para fazer turismo é danoso ao seu dia a dia. O que faço no turismo não faz dos portugueses e de sua cidade um lugar melhor; ao contrário, não é um processo de homogeneização, mas um processo de predação. Eu estou consciente de que minha atividade é de consumo e de que destrói o dia a dia dos moradores de seu país. Estou triste.
Quais saídas eu possuo como turista? Mais uma vez, é preciso voltar à sua dialética. Eu preciso encontrar soluções para os problemas que a minha vida cotidiana turística proporciona. No dia a dia, eu alugo um Airbnb. Talvez seja melhor voltar ao velho hotel da região; eu preciso elevar minha participação naquela sociedade, mas a única forma que sei fazer não é produzindo beleza, mas a consumindo. Não sei reconhecer os modos como nós, turistas, poderíamos fazer elevar nossa presença. Não é anexando um cadeado em algum portão que faremos isso, mas, talvez, contribuindo melhor para divulgar sua história, seus problemas, suas aflições. Compartilhando sua dor. Para isso, é preciso fugir ao cotidiano turístico e agir na esfera não cotidiana: preferir o artesanato local à produção Made in China. Escrevo sobre minha viagem a Lisboa: estou tentando dar um retorno transformador, produzir algo característico das esferas superiores para retornar ao mundo e assim tentar – é quase impossível, ok – a esfera cotidiana. Quem sabe dos efeitos do que escrevemos? Pois, para Heller, é disso que se trata; são justamente as atividades que superam o dia a dia que têm a capacidade de transformá-lo.
Shoppings de Lisboa
Saímos às 11h com mais um taxista que pedimos para ir ao Shopping Colombo. Se há algo que define o “império do igual” de que fala Byung-Chul Han, são estes espaços. Você quer fugir das caminhadas da beira do rio Tejo para uma troca que parece menor. Que ilusão: caminhamos mais. Almoçamos um prego com sopa. Vamos às lojas. Nada satisfaz. Tudo é igual. Mesmo a Primark, que tem preços baratos, não é diferente. Eu e D. achamos que é a C&A daqui. Estou em Lisboa, em seu shopping mais importante, mas parece que estou de novo no Iguatemi de Porto Alegre. Ele é o maior de toda a Península Ibérica e é do final dos anos 90. Tem 120.000m² de área comercial, onde se reúnem 340 lojas e 60 restaurantes. Nesses lugares, avalia-se a capacidade pelos estacionamentos. Aqui, este conta com mais de 6.300 lugares. Seu projeto começou em 1888, pela promotora Sonae Sierra, liderada pelo empresário Belmiro Azevedo, para introduzir o conceito de megashopping no país. Custou 70 milhões de contos – a moeda que também um dia correu pelo Brasil e foi inaugurada em 15 de setembro de 1997.
Neste shopping, como na região da Torre de Belém, tudo é inspirado na Era dos Descobrimentos Portugueses e no imaginário do navegador Cristóvão Colombo. Aqui, estes ícones são o que Mickey, Pato Donald e Pateta são para a Disneylândia: são signos para vender. A sua arquitetura foi desenhada pelo arquiteto José Quintela da Fonseca e é um de seus aspectos mais marcantes. Os espaços das praças e corredores carregam nomes como Praça dos Oceanos e Praça dos Trópicos, e, mesmo que estudantes e a população jovem trabalhadora da região o frequentem, ainda é famoso por ser uma parada obrigatória para turistas fazerem compras. Turistas como eu. E estou aqui para confirmar. Olho para o teto e vejo as enormes cúpulas de vidro que privilegiam a luz natural, as estátuas e os globos terrestres ao longo da caminhada que evocam as caravelas, monstros marinhos e mapas antigos.
Perdidos no shopping
Caminho pelo que chamam de piso 0 e piso 1. Ainda estou um pouco perdido: em que andar estou? Zero é o andar térreo? Aqui estão a maior parte das lojas de moda e tecnologia, além do supermercado Continente, que já conheço da Graça. O piso 2 possui opções de entretenimento e lazer, como salas de cinema modernas (Imax) e esses espaços infernais de coworking – você poderia trabalhar em casa, mas vai a eles por serem glamourosos. As salas de cinema modernas, em Porto Alegre, podem ser vistas no Iguatemi; já esses espaços de coworking ainda são tímidos na capital gaúcha e, que eu saiba, ainda não invadiram os shoppings. Aqui, sim. Vim ao Colombo por sugestão de meu editor.
Na Primark, pesquiso e descubro que a marca nasceu em Dublin, na Irlanda, em 1969, fundada por Arthur Ryan sob o nome de Penneys – nome mantido apenas na República da Irlanda. Ao expandir para o Reino Unido em 1974, a empresa precisou mudar o nome para Primark devido a uma disputa de marca registrada com a cadeia norte-americana J.C. Penney. Estou diante de loja simulacro da Penney original. Para mim, é um nome que lembra o similar Penny de Miss Moneypenny, a personagem feminina mais constante, famosa e icônica de toda a franquia de filmes do espião James Bond (007). É que o próprio James Bond a chamava de Penny. Por alguma razão, relembrando sua história, lembro dos filmes que via no passado, daí a confusão imediata em minha memória auditiva com a palavra Penneys, origem do shopping onde estou.
Um comunista traidor
Sou o crítico do capitalismo que vai, escondido, ao shopping center mais famoso de Lisboa. Estou flertando com o capitalismo, assim como James Bond flertava, de forma bem-humorada, com Miss Moneypenny. Lois Maxwell foi a Penny clássica da era Sean Connery. Não é engraçado que, enquanto a palavra irlandesa Penneys remeta a roupas baratas de consumo de massa, a atual evoque elegância como as das roupas de James Bond? Essa loja da Primark é recente, de 2013, reformada em 2024: a maior loja em um único piso, com 6.038m². É a C&A dos portugueses, porque quer manter as origens: roupas de moda acessível de loja de departamento. Isso é possível pelo alto volume de vendas e margens de lucro. Passeio por suas gôndolas e vejo tudo de moda, como na C&A, de adultos a recém-nascidos. E, como a C&A tem suas marcas próprias, além de produtos de beleza. Vejo uma seção com as mesmas camisas temáticas da Disney e de Harry Potter, também presentes na C&A. Bendito mundo globalizado: adiante, encontro roupas com ícones de Star Wars, que ainda são vendidas. Como queria comprá-las! Sou fã dos filmes. Mas aí, comprar ícones de Hollywood já é demais para este velho comunista!
Observando um pouco melhor, parece que estou na C&A, mas há diferenças. A Primark não tem vendas on-line, ao contrário da C&A; os preços são relativamente mais baixos na primeira do que na segunda, ainda que haja liquidações na C&A. Ambas são marcadas pela velocidade da disposição dos produtos, seja a primeira nas redes sociais, ou a segunda, no calendário das estações. A Primark, no entanto, não usa o marketing da C&A, que investe pesadamente nele. Ela tem lojas muito grandes nos principais shoppings europeus, mas a C&A consegue ser às vezes menor, adaptando-se a cada shopping.
A luta dos shoppings
Assim como o Iguatemi, este shopping é o espaço das grandes marcas, como a Zara. Ambas estão na zona norte de suas cidades: o Colombo está na freguesia de Carnide e o Iguatemi, no bairro que leva seu nome. Ambos estão em regiões de grande fluxo, seja pelas vias rodoviárias da Segunda Circular e da Avenida Lusíada, que garantem o fluxo de automóveis em Lisboa, ou pela Nilo Peçanha e João Wallig, no caso do Iguatemi. Mas o Iguatemi perde por não ter um acesso com metrô, o que o Colombo tem.
Não fazemos feio, perdemos por muito pouco: nosso Iguatemi tem 118.000 m² contra os 120.000 m² do Colombo; temos 337 lojas contra as 340 deles e, embora seja um número parecido, as lojas do Colombo ocupam espaços físicos maiores, refletindo a escala de megashopping. Perdemos também no quesito estacionamento, mas aí a vantagem é ampla: o nosso só tem 3.000 vagas para veículos, enquanto o deles tem 6.300. Eu me lembro da inauguração do Iguatemi, em 13 de abril de 1983, pois morava nos conjuntos habitacionais do seu entorno, que limitavam a fazenda que hoje é o Parque Germânia e seus prédios luxuosos. Vi suas expansões em 1993, 1997 e 2016. Foi o primeiro shopping com praça de alimentação e estacionamento integrado, e surgiu bem antes do Colombo português, inaugurado em 15 de setembro de 1997 (14 anos mais tarde), mas que já nasceu com o estatuto de maior shopping da Península Ibérica da época. Ambos, com seus três andares, têm uma estrutura similar com salas de cinema, hipermercados, torres de escritórios e espaços de alimentação. Ambos têm Zara e lojas focadas no varejo, como a Renner no Iguatemi ou a Primark no Colombo. Aqui eles têm a Fnac, que no Brasil encerrou suas atividades no Flamboyant Shopping, em Goiânia, em 2018. Pena. Ela tinha uma interessante seção de livros. Essa comparação é porque os shoppings encarnam o “império do igual” de que fala Byung-Chul Han. Você entra e parece que viu todos. Eles diferenciam-se por seu público: classe média e alta no Iguatemi, e cosmopolita heterogênea no Colombo. É um shopping de turista, de fácil acesso, porque se situa em Carnide, também na zona norte, com a diferença de que tem ligação com o trem metropolitano de Lisboa, além de ficar colado ao icônico Estádio da Luz. Nosso Iguatemi só tem como referência o Country Club, que também, para variar, já está servindo de espaço para novos prédios.
Novos espaços de exclusão
Olho para o espaço do shopping ao meu redor, com sua grandiosidade. Estou mais do que num centro de compras; estou numa catedral do consumo. Todo esse espaço é notável porque é projetado para o estímulo visual. Em Vida para Consumo: A Transformação das Pessoas em Mercadoria (Zahar, 2008), Zygmunt Bauman afirma que esses espaços são projetados para a exclusão social automática. Caminho junto com centenas de pessoas por esses corredores: tenho a ilusão de que participo de uma comunidade, mas, na verdade, esses espaços promovem o isolamento, já que somos cada um solidário em seu ato de consumo. Aqui não há lugar para cidadãos, só para consumidores. É o espaço perfeito do espetáculo, tal como define Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo (Contraponto, 1997), que, mesmo escrito antes de sua expansão, nos seus termos, é o lugar que transforma relações humanas em imagens e mercadorias, onde o viver é substituído pelo ato de possuir e parecer. O que são esses turistas bem-arrumados, senão um produto direto dessa cultura? O que são essas expulsões, como a da advogada negra na Zara, se não a comprovação de que, nesses espaços, a exclusão é uma das regras?
Penso que estou em um lugar – o shopping center -, mas, na realidade, é o contrário: estou em um não lugar, exatamente como define Marc Augé em Não Lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade (Papirus, 1994). Primeiro porque, diferente dos espaços históricos tradicionais, como o mercado, onde há identidade e uma relação com a história, no Colombo essa relação é artificial, construída pela cenografia. Segundo, porque você não vai a ele para ficar num lugar, apreciar um espaço; você vai principalmente para realizar o contrato de consumo: não há qualquer cidadania nessa prática. Aqui, o único direito que você possui é o de consumir. Não é notável ver que, no nosso caso, no Iguatemi, tudo o que vemos como direitos se transforma em objetos pagos? Há ali sucursais de hospitais privados e de escolas privadas, como se fosse natural que saúde e educação fossem coisas pagas. E, como diz Naomi Klein em Sem Logo (Record, 2002), shoppings como o Colombo e o Iguatemi nada mais fazem do que ser espaços privatizados que simulam a vida pública. Aqui a censura corporativa impera: manifestações políticas, mendicância ou qualquer comportamento que destoe do consumo são banidos por seguranças privados. Lembro dos casos brasileiros de jovens banidos de shoppings locais e de quando eu mesmo, simplesmente me sentando no chão esperando atendimento na fila de uma clínica de vacinas, fui alertado por seguranças.
Consumo como religião
Quando digo “catedrais do consumo”, é exatamente no sentido dado por pensadores contemporâneos, entre eles o padre João Batista Libânio, em As Lógicas da Cidade: O Impacto sobre a Fé e sob o Impacto da Fé (Loyola, 2001), que argumenta que os shoppings substituíram as igrejas e as praças na subjetividade moderna com seus rituais, como o de passear e o de comprar, e seus próprios “santos” encarnados nas marcas e nas celebridades que as vendem. Sua promessa de salvação e felicidade imediata é feita, no entanto, por meio do consumo, gerando um vazio exótico e profundo na sociedade. Essa foi uma abordagem comum logo no início de sua instalação no Brasil, quando os shoppings foram objeto de diversos estudos que notavam seus mecanismos de segregação socioespacial. Numa população assustada pela violência urbana, buscava-se segurança em seu interior, abandonando espaços públicos como praças por um espaço privado, simulacro, vigiado, higienizado e filtrado. Não, é preciso voltar ao espaço público, às praças: o consumo não pode substituir a participação política tradicional.
Tanto o Colombo quanto nosso shopping Iguatemi baseiam-se nessa ilusão de espaço público: imitam a praça com sua luz natural simulada e fontes com água, mas são propriedades privadas, bolhas de riqueza que escondem a realidade social de seu entorno. Aqui, não há nada pior do que substituir a identidade social por status social. Se você condiciona a autoestima e o pertencimento social à capacidade financeira do indivíduo, gera um ciclo interminável de insatisfação. Estou diante, de novo, de Marx e seu conceito de fetiche da mercadoria. Estou no shopping Colombo, com suas lojas caras, a maioria desconhecida para mim. Compro um vape para D. Eu observo esses espaços e vejo que seus consumidores têm uma cor de pele dominante: a branca, europeia. Vejo franceses, alemães, ingleses. Eu olho os trabalhadores de seus restaurantes e vejo múltiplas etnias e cores: asiáticos, negros, árabes. Se a cenografia imita os descobrimentos, a organização do trabalho e do consumo também. É a dialética da colonização por outros meios. Na loja de conveniência, onde compro um vape, um negro se aproxima de mim. Paro por um instante e sorrio. Ele também sorri. Mas este instante, esse silêncio, me denuncia. Ele sabe que me assustou. Ele sabe do receio gerado pela cor da sua pele nestes lugares. O português só vende vape ali com cartão. É barato, pouco mais de 3 euros. Termino o passeio e volto para casa.
A música da alma
O motorista da volta gosta de Elvis Presley. Ele o imita com adereços e o estilo do cabelo. Saio de um simulacro de cenário dos descobrimentos do Colombo e, já na saída, entro noutro imaginário: um ocupa um imenso espaço; outro, o simples espaço de um Uber. Engana-se no trânsito, como o motorista do dia anterior. Passamos por zonas modernas como o Estádio do Benfica e Sagres, a ex-praça de touros que o primeiro motorista dizia não gostar. Não recordo do escritor que falava de touradas, mas me lembro do artista plástico gaúcho que me falava delas, Paulo Porcela, recentemente falecido. Ele fez uma série artística intitulada Miradas de Espanha. Eu o conheci ao fazer uma exposição sobre sua obra na Câmara Municipal. Famoso por suas paisagens rurais, era fascinado pela cultura espanhola da tauromaquia.
À noite, vamos a um show de fado, parada obrigatória de um turista em Portugal. É como ir a um espetáculo de tango em Buenos Aires ou ver os dançarinos do CTG 35. Estou num antigo prédio histórico adaptado. Fundado em 1995 pelo renomado guitarrista e compositor Mário Pacheco, o Clube de Fado fica em Alfama, perto da Sé de Lisboa. Instalado em um prédio antigo com paredes de pedra do século XVII, o local nasceu para defender a pureza do fado tradicional, unindo a música ao vivo à gastronomia portuguesa. Recebeu figuras famosas do mundo todo, de artistas a líderes, com shows todas as noites. O ambiente é escuro, calmo e muito íntimo. Pede-se silêncio total quando a cantora começa. Antes, um jantar que mistura pratos tradicionais de Portugal é servido.
Um lugar especial
O interior do Clube de Fado me fascina porque é um verdadeiro mergulho na história de Lisboa. Famoso por seu ambiente rústico, acolhedor e profundamente nostálgico, está instalado em um edifício com imponentes paredes de pedra grossa aparente do século XVII. Estou sentado em uma mesa com D. e olho ao meu redor: o espaço conta com arcos e ogivas medievais que dividem as salas, remetendo às antigas adegas da cidade e garantindo uma acústica natural perfeita para o som das guitarras. Entre os detalhes históricos preservados no restaurante, destaca-se um autêntico poço de origem mourisca, que divide as atenções com quadros, fotos de fadistas lendários e instrumentos musicais pendurados pela casa.
Estou sentado em um mobiliário composto por mesas e cadeiras de madeira escura e pesada, no estilo tradicional português. Minha mesa é iluminada suavemente por velas e candeeiros rústicos que criam uma atmosfera romântica e misteriosa sob luz baixa. Olho os músicos e intérpretes no coração do espaço. À minha direita fica o palco central, onde músicos e fadistas se posicionam estrategicamente para que a música ecoe de forma pura, sem a necessidade de amplificadores pesados. Quando o show começa, as luzes se reduzem ainda mais, o serviço de jantar é interrompido e um silêncio absoluto toma conta do recinto, transformando o imponente cenário de pedra no templo perfeito para a entrega e a emoção do fado.
A língua não importa
Aqui você não fala com ninguém, mas, quando o assunto é a senha do Wi-Fi e a comida, todos se entendem. Ao meu lado, duas amigas alemãs; do outro, um casal americano. D. entende um pouco de inglês graças ao jogo do celular que faz, do qual eu não tenho paciência. Mesmo que tenha vivido alguns anos da infância no Instituto Cultural Alemão, não arrisco nem um Guten Tag – eu era pobre, não assistia aos cursos, só ia à biblioteca, que era grátis. Mas compartilhamos com eles pequenos gestos de educação: acender a luz, oferecer o que não se quer comer e sorrir. A mulher alemã ao meu lado parece não entender o sentido do fado, está entediada; a outra, ao contrário, tenta sentir a música. Pudera, o português só pode soar para ela como o alemão para mim. Mas, mesmo com idiomas diferentes na letra, ainda é possível sentir a música. Um músico que acompanha a cantora é duro com o olhar para os turistas barulhentos. Ao lado da cantora está outro músico, um idoso de guitarra que parece dominar muito a técnica musical do fado. A comida é muito boa, e o vinho é reposto sempre que pedimos.
Entendo que a verdadeira arte nasce da história de um povo e ocupa um lugar central em sua identidade. É assim a música. Ela funciona como um espelho sonoro onde um povo reconhece suas dores, suas alegrias e sua história coletiva. Tanto no contexto português quanto no brasileiro, as manifestações musicais de valor histórico, que irão permanecer, expressam sentimentos. No fado, de melancolia profunda; em nossa melhor MPB, a polifonia ritmada dos melhores ritmos brasileiros. Elas transcenderam a simples fruição estética para se tornarem pilares fundamentais da identidade nacional; encarnam códigos que unificam comunidades fragmentadas, produzem solidariedades, encarnam ideais, produzem resistência, permitindo que gerações sucessivas herdem um sentido de pertencimento que resiste às pressões da modernidade e à erosão dos laços sociais comunitários.
Música e política
Esse cultivo do fado me faz refletir. Penso isso numa espécie de oposição pela qual serei criticado: de um lado, entendo que, depois da música clássica, é música que podemos chamar de música de raiz, enraizada na criação genuína e na experiência humana autêntica, que possui valor estético e cultural. Nossos melhores cantores, na minha opinião, estão aí, como Chico Buarque, Milton Nascimento, entre outros. E, de outro lado, entendo que existe uma produção massificada da indústria cultural, uma engrenagem predadora do capital voraz que transforma a arte em mero produto de troca e consumo descartável. Não cito nomes, mas vocês sabem quem são. Theodor Adorno e Max Horkheimer, em Dialética do Esclarecimento (Zahar, 1985), afirmam que a cultura de massa padroniza os gostos e anestesia o pensamento crítico, substituindo a expressão criativa e singular por fórmulas repetitivas moldadas exclusivamente para o lucro. Enquanto a música raiz evoca a memória, a coletividade e a verdade dos afetos, a música-mercadoria é uma produção industrial que promove o esquecimento, o consumo alienado e o empobrecimento da experiência humana. O ouvinte não pode ser um mero consumidor passivo de estímulos vazios; é preciso significação. Música bate-estaca: isto é indústria de massa. Isso é bem diferente do fado. Isso é arte.
Por que defendo isso? O fado me lembra que, segundo Slavoj Žizek, a preservação de redutos tradicionais ou expressões populares autênticas musicais tem um profundo significado político. Não é saudosismo, é um espaço de resistência aos mecanismos hegemônicos do capitalismo tardio. Eles são aquilo que o sistema não consegue totalmente metabolizar por completo. Aqui, o fado é turismo, mas também resistência. É negócio, mas mantém viva uma cultura contra sua massificação. É um ato de insubordinação ideológica, possui potência subversiva real. Tem o poder de nos lembrar que o mundo não se resume a mercadorias e que a emancipação humana ainda pulsa nas raízes da nossa cultura. Penso nisso enquanto volto para casa de Uber. Aliás, é bem difícil de pegar pelo horário. Amanhã é outro dia.